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Grupo F

Não valia a pena espiar: eles são todos iguais

Num dos jogos menos interessantes do Mundial 2018 (bem mais interessante foi a "espionagem" pré-jogo), a Suécia venceu a Coreia do Sul (1-0), com um golo marcado de penálti, após um momento caricato do árbitro

Mariana Cabral

Dois coreanos e um sueco a disputarem a bola nas alturas: a imagem mais frequente do Coreia do Sul-Suécia

DIMITAR DILKOFF/GETTY

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Uma parte bastante importante do ato de espiar algo ou alguém envolve conseguir fazê-lo secretamente. Porque, se o espiado nota estar a ser espiado, pode responder com uma contraespionagem e, aí, o ato de espiar deixa de ter sentido e, bom, acabamos só com uma grande confusão.

Foi basicamente assim - confuso - que o adjunto da seleção sueca, Lars Jacobsson, ficou quando esteve na Áustria a tentar espiar o estágio pré-Mundial da Coreia do Sul. É que os coreanos notaram que havia por ali um intruso e... "Mudámos os números dos jogadores porque não queríamos que soubessem algumas coisas e tentámos confundi-los. É verdade que podiam conhecer alguns dos jogadores, mas é muito difícil para os ocidentais conseguirem distinguir entre asiáticos, por isso é que lhes trocámos os números", explicou este domingo, na conferência de imprensa de antevisão do Suécia-Coreia do Sul, o selecionador Shin Tae-yong.

Janne Andersson, selecionador sueco, pediu desculpa, mas Shin Tae-yong considerou a situação perfeitamente normal. "Todos os treinadores provavelmente sentem que os adversários querem sempre espiá-los. Acho que é natural que todos queiramos ter o maior número possível de informações sobre os adversários", admitiu.

Mas a verdade é que não precisavam. Porque eles são todos iguais - coreanos e suecos. Ou, como disse um dia Brian Clough, "se Deus quisesse que o futebol fosse jogado pelas nuvens, teria colocado relva lá em cima".

É certo que este era um jogo de importância extrema para a Suécia e para a Coreia, já que os outros dois nomes do grupo F são bem mais favoritos - Alemanha e México -, mas nem um nem outro mostraram grande vontade de arriscar e, mesmo quando demonstravam alguma apetência ofensiva, os argumentos de ambos, pobres, eram quase sempre os mesmos: bola para o ar e seja o que Deus (provavelmente outro Deus que não aquele de Brian Clough) quiser.

Depois de uma entrada mais intensa da Coreia, que ia procurando as correrias de Hwang Hee-Chan pela direita para chegar à frente, foram os suecos a ficar com a bola - mas o problema era o que fazer com ela.

Com exceção de Emil Forsberg, do RB Leipzig, os suecos não têm grande qualidade técnica e pecam na criatividade, pelo que nem individualmente nem coletivamente tinham grandes soluções para chegar à frente. Ainda por cima, o central que melhor constrói, o ex-benfiquista Victor Lindelöf, ficou fora do jogo por estar doente, pelo que a Suécia teve sempre bastantes dificuldades na construção, recorrendo frequentemente a um futebol mais direto, em direção ao "pinheiro" Marcus Berg, para conseguir criar ocasiões de golo.

Foi precisamente numa dessas situações que surgiu a primeira - e única - grande oportunidade de golo da 1ª parte: depois de uma bola lançada para a área, Berg, sozinho em frente à baliza, permitiu que o guarda-redes Cho Hyunwoo fizesse a defesa do dia.

A grande ocasião de golo da 1ª parte: Marcus Berg rematou, mas Cho Hyun-woo defendeu

A grande ocasião de golo da 1ª parte: Marcus Berg rematou, mas Cho Hyun-woo defendeu

MARTIN BERNETTI/GETTY

Cho Hyunwoo foi, aliás, o melhor coreano (jogador?) em campo, defendendo uma série de situações perigosas dos suecos, quase sempre na sequência de cruzamentos e cantos.

Do outro lado do campo, a Coreia tinha um registo semelhante ao da Suécia no que diz respeito aos pontapés longos: sempre que ganhavam a bola, os coreanos procuram as transições rápidas na frente, de forma a aproveitar as qualidades de Hwang e de Son Heung-min - jogador do Tottenham que é a grande estrela da equipa.

Só que o avançado escolhido para a frente de ataque, Kim Shin-Wook - provavelmente pelo seu poderio físico: 1,98m -, raramente conseguiu ganhar dos duelos com os outros 'pinheiros' suecos, Jansson (no lugar de Lindelöf) e Granqvist.

O capitão Granqvist - líder dos suecos na era pós-Zlatan - é conhecido na Suécia por “granen”, ou seja, pinheiro de Natal, pela sua disponibilidade na defesa, mas foi mesmo ele a decidir o jogo lá na frente, num dos poucos momentos emocionantes do jogo.

A sequência de eventos foi a seguinte: Kim Min-woo rasteirou Claesson na área, mas o árbitro Joel Aguilar mandou seguir o jogo. A Coreia recuperou a bola, saiu num contra ataque rápido e, quando estava prestes a chegar à área sueca, o árbitro interrompeu o jogo.

Não, ninguém estava lesionado; não, a bola não tinha saído do terreno de jogo. O árbitro Joel Aguilar simplesmente interrompeu o jogo para ir ver as imagens do penálti, provavelmente ao ser alertado pelo videoárbitro.

Decidiu bem: penálti para a Suécia que o granen Granqvist marcou na perfeição, aos 65'.

No que restou do jogo, a Coreia viu-se obrigada a tomar conta da bola, mas também pouco soube fazer com ela: foi lançando para a área, sem grande sucesso. E assim se passou um dos jogos menos interessantes do Mundial. Bem mais interessante foi a espionagem pré-jogo.