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Coreia do Sul

Só uma vitória por dois golos com a Alemanha pode salvar Son da tropa - e de uma sala de gás que pica como mil agulhas

O serviço militar é obrigatório na Coreia do Sul até aos 28 anos. Son Heung-min, a figura da seleção sul-coreana e craque do Tottenham, está prestes a fazer 26 anos. Só uma vitória por dois golos com a Alemanha (RTP, 15h) ou a conquista dos Jogos Asiáticos o podem salvar de instrutores que intimidam e de uma sala de gás que pica

Hugo Tavares da Silva

Hector Vivas

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O futebol sul-coreano diz-nos pouco, mas sabemos que anda por lá um rapaz jeitoso com os pés, do Tottenham de Pochettino, que enche o campo, agarra na bola e tenta furar o habitual meio campo deserto do outro lado do muro divisório de cal. Son Heung-min é como Messi na Argentina, Cristiano em Portugal, Modríc na Croácia ou Neymar no Brasil. É o cara. E o futebol é a cara dele. Mas isso está em risco…

É que o serviço militar é obrigatório na Coreia do Sul, muito por culpa das relações tensas com a vizinha do Norte. Dentro da obrigação, há uma liberdade: escolher quando cumprir os 24 meses até aos 28 anos. Son faz 26 anos daqui a dez dias. Segundo o El País, o Governo daquele país definiu uma cenourinha para poupar os atletas à tropa: chegar aos oitavos de final do Campeonato do Mundo. Foi isso que aconteceu em 2002, quando a seleção de Guus Hiddink atingiu as meias-finais do torneio. Por a coisa estar complicada na Rússia (duas derrotas em dois jogos), especulou-se que as lágrimas de Son após o jogo com o México, no qual marcou um golaço, se devessem à ideia de abandonar o futebol durante dois anos.

Na quarta-feira, em conferência de imprensa na véspera do Coreia do Sul-Alemanha, Son desmentiu que a água que lhe saltou dos olhos se devesse a isso. “Como coreano, estar no Mundial é uma grande honra. É um palco muito especial. Eu estava a representar o povo coreano e não queria perder. Foi lamentável e senti pena por todos - jogadores, fãs e staff técnico - e foi por isso que chorei. O Mundial ainda não acabou para nós. Há apenas 1% de hipótese para nós, mas mesmo assim temos esperança. Não vamos desistir. A Alemanha é muito mais forte do que nós, mas a bola é redonda.”

Ainda assim, há duas maneiras de Son contornar a angústia e aligeirar a viagem ao exército sul-coreano, de acordo com os padrões dos governantes do país. Basta agarrar uma medalha olímpica ou ganhar os Jogos Asiáticos, que arrancam na Indonésia a 18 de agosto. O segundo cenário parece ser o que mais sorrisos pode provocar. É a história que o diz: a Coreia do Sul ganhou a prova quatro vezes (1970, 1978, 1986 e 2014), tal como o Irão, e terminou nos outros lugares do pódio noutras seis ocasiões.

Magiquemos o pior dos cenários. O que espera Son se tiver de viajar para o seu país para aprender técnicas de combate e sobrevivência? Algo pior do que não receber a bola ou inventar contra-ataques sozinho contra o mundo, certamente. Viajemos à boleia de Gene Kim, um sul-coreano que cumpriu dois anos de serviço militar, congelando a vida que tinha em Nova Iorque.

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“Eu odiei cada momento lá, preso naquela sociedade isolada. Não vi uma pessoa que quisesse lá estar”, contou Kim à Goyang TV, aqui citado pelo “Business Insider”. “Basicamente estás a sacrificar dois anos da tua juventude pela nação. Assim que entras conheces os instrutores que te vão treinar cinco semanas. Vão tentar intimidar-te, assustar-te, para fazerem de ti um soldado. Não tens uma voz lá. Aprendes a fazer tudo muito rápido”, conta.

Kim, que diz que aquela experiência foi importante para aprender certas coisas e arranjar soluções em situações complicadas, não esquece o episódio mais violento que viveu por lá: a preparação para um ataque químico. “Enfiam-nos numa sala pequena com gás. O instrutor diz-nos para tirar a máscara… Dói como o inferno, sentes mil agulhas a picarem-te. Quando inspiras o gás, sentes que estás a sufocar, não respiras basicamente. É um caos naquela sala pequena.”

Este sul-coreano revela que ouviam insistentemente indicações sobre a Coreia do Norte, o “inimigo”. Kim admite que talvez tenha sido alvo de uma lavagem cerebral, pois olha para o país liderado por Kim Jong-un como potencial invasor. O artigo da “Business Insider” é de 2017, mas as declarações são anteriores a essa data, pelo que ainda estávamos muito longe desta nova onda diplomática que se surfa nas Coreias.

Esta história ainda não acabou, mas já se ouve lá ao fundo aquela voz de sempre nos aeroportos a anunciar que a papa doce acabou. Para fugir dela, e daquela sala com gás que pica, Son e companhia terão de ganhar à Alemanha, esta tarde (RTP, 15h), por dois golos e esperar que o México vença a Suécia.