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Juan Carlos Osorio, o cordial, metódico e filosófico selecionador mexicano que arrendou uma casa só para ver os treinos do Liverpool

Quando ainda era um trintão preparador físico, Juan Carlos Osorio foi estudar para Inglaterra. Como a universidade não lhe chegava, arrendou um apartamento ao lado do centro de estágios do Liverpool e subia a um escadote que colocava no jardim para assistir aos treinos, para aprender. Esta é a história resumida do selecionador que guiou o México a bater a Alemanha, na estreia do Mundial - e que chegou a vender o ginásio e o carro que tinha, em Nova Iorque, para ser capaz de arrendar a tal casa (a um adepto do Everton)

Diogo Pombo

Clive Rose

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Crown Road é uma rua nos arredores de Liverpool e os McManus um casal proprietário de uma moradia, nessa precisa rua, onde está um muro não muito alto, não muito decidido a tapar olhares curiosos. Foi erguido para circundar o complexo desportivo do Liverpool, barreira irrelevante para os McManus, ferrenhos adeptos do Everton, o clube azul da cidade e muito rival da sua vizinhança.

Esse clube acedeu, sem problemas, ao pedido de um colombiano educado, cordial e interessado que, em 1997, lhes pediu para assistir a uns quantos treinos. O Liverpool não teve a mesma gentileza, disse-lhe que não.

O sul-americano, teimoso, reparou, um dia, na janela do segundo andar da vivenda dos McManus e bateu-lhes à porta. Mary abriu-a a um tipo simpático e educado a perguntar-lhe se teria um escadote para emprestar e o elevar acima do muro. Ela tinha apenas uma mesa, que cedeu, rendida à cordialidade, e lhe foi devolvida limpa e lavada.

Cinco dias volvidos, Juan Carlos Osorio estava a viver no andar de cima da moradia: a cronometrar os dias ao minuto, sempre com um bloco de notas e uma caneta nas mãos, a praticar exercícios de alongamentos dos músculos a cada manhã, a ver jogos da Premier League em pubs, sempre, sem beber uma gota de álcool – mas a escrever linhas e linhas de apontamentos.

Ele era o tipo que entrava no bar, via onde estava a televisão, “pegava numa cadeira, sentava-se no meio de um grupo de pessoas que não conhecia, pedia um copo de água, tirava o bloco do bolso e escrevia notas, furiosamente, enquanto via o jogo”.

É assim que Peter McManus dos McManus o recordou à “ESPN”, entre outros episódios, engraçados ou não - como insistir para que Osorio comesse mais hambúrgueres e dar peso ao corpo de esparguete -, mas que redundam sempre no mesmo: era simpático, cordial e quase boa pessoa em demasia, que fez tudo para ser o que é neste momento – o selecionador que derrotou a Alemanha campeã do mundo.

As mazelas

Juan Carlos era um médio colombiano cujo corpo atraiçoou o futebol com lesões tão traidoras que o obrigaram a parar, aos 26 anos. Irrequieto, aproveitou a reforma prematura para se antecipar nos estudos. Foi para os EUA e ainda deu os ocasionais pontapés na bola com a equipa universitária da Southern Connecticut State University, até se formar em Ciência do Exercício Físico.

Dali seguiu para Nova Iorque, onde comprou um carro e abriu um pequeno ginásio, indo de dólar em dólar para poupar o suficiente para atravessar o oceano. A Liverpool chegou para se formar, de novo, em Ciência do Desporto e a fome por aprender o levar até à porta dos McManus, no final dos anos 90. Se o clima o ajudasse, montava o escadote no jardim; se a chuva britânica caísse, assistia aos treinos pela janela do quarto.

Dedicava os fins de semana a pedir boleias a comboios para chegar a outros estádios e a ver jogos. Chegou a ser multado à porta de Old Trafford, por comprar um bilhete na rua, sem se aperceber que era ilegal. Ia também ver os treinos do Bolton e Blackburn Rovers, equipas de futebol direto, aéreo e saltador de etapas de construção na relva, porque Osorio vinha “de um país latino onde tudo é passes curtos e tiki-taka” e, em Inglaterra, “era muito, muito produtivo aprender o completo oposto”.

Findo o curso, Juan Carlos regressou a Nova Iorque, mas repetiria a travessia em 2001, quando o Manchester City abriu um processo de recrutamento para um novo preparador físico. A vaga calhou a Osorio, que encantou quem assim o decidiu pelo grau de detalhe e método, ao ponto de “criar sessões específicas para trabalhar aquele músculo minúsculo no topo da virilha, fundamental para mudar de direção com a bola”.

Jean Catuffe

As cinco épocas no City, quase todas como treinador-adjunto, função na qual evoluiu já com Kevin Keegan no clube, deram-lhe as bases para começar a treinar, como sempre quis. Em 2006, foi contratado pelo Millionarios, da Colômbia, de onde saltou para algumas temporadas na Major League Soccer americana, aprendendo e limando-se para o sucesso que teve no Atlético Nacional, também colombiano. Daria mais nas vistas na época com o Internacional de Porto Alegre para, em 2015, chegar ao México.

E vimos como vibrou e berrou, indo de quando em vez ao bloco de notas que deixou na relva, à frente do banco de suplentes, enquanto a sua seleção mexicana ganhava por 1-0, à Alemanha.

Constatámos a maior amostra de valentia e atrevimento e de jogo temerário neste Mundial, de uma equipa, em teoria, menor que o adversário. Os mexicanos nunca ousaram construir jogadas que não começassem no guarda-redes e nos defesas, pela relva. Sempre se lembraram de primeiro fazer as coisas simples e só depois elaborar longe, junto à área germânica, onde chegavam com um futebol direto nos passes rasteiros e cheio de apoios frontais a funcionarem.

Ganharam os bravos mexicanos, com tiques de bravura que só podem ser causados por quem os treina - como, por exemplo, os três jogadores que, em cantos defensivos, chegou a deixar perto da linha do meio campo, para dar soluções de contra-ataque à equipa e tirar quatro adversários do ataque à bola parada.

Mesmo assim, a simpatia e o método cordial de Juan Carlos Osorio, de 57 anos, valem-lhe críticas dos mexicanos que torcem pela seleção. As culpas repartem-se. Há quem desgoste das respostas argumentadas e explicativas que dá, nas conferências de imprensa, complexificando o futebol em vez de simplificar as respostas feitas. Há muitos que criticam a rotatividade que o selecionador tanto promove, muito raramente repetindo um onze, planeando, com semanas de antecedência, rotações em função do adversário.

Talvez ainda não estejam cientes de que o estável 12.º treinador que têm nos últimos instáveis 12 anos, durante os quais a Alemanha se manteve com Joachim Löw, foi o obreiro da maior surpresa (e melhor jogo de futebol), para já, deste Mundial.

Mesmo que o considerem demasiado filosófico.

Tão pouco parece estar muito agradecidos ao compenetrado método do colombiano que venceu 32 dos 48 jogos com o México. E que nunca largou, nem largará, o bloco de notas: “Foi uma prática que aprendi com o meu pai, que era médico e me dizia: ‘É melhor um lápis curto, do que uma memória larga’”.

No final da vitórias contra os alemães, com o bloco de notas enrolado numa mão, disse que os mexicanos não jogaram com medo de perder, mas pelo "amor à hipótese de ganhar". Dedicou a vitória "a todos os acreditaram neste processo" e, aos que não, disse que "continuarão a trabalhar, ou oxalá, melhorando, para um dia os convencermos".