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Suécia

Os suecos são os ases pelos ares

Uma coisa não precisa de ser bonita, atraente ou fascinante de ser vista para, se for bem feita muitas vezes, se tornar eficaz. A Suécia dos jogadores fortes e poderosos ganhou (1-0) à Suíça e o seu futebol direto e aéreo entre as duas áreas de um campo de futebol já colocou o país nos quartos-de-final do Mundial, 24 anos volvidos

Diogo Pombo

Matthew Ashton - AMA

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Gosto de pensar que há muito, muito tempo, o futebol deixou-se evoluir por um estado verde, rasteiro e vegetativo, com tudo o que estas três coisas têm de abonador. Vendo bem as coisas, se os inventores do futebol e responsáveis por estar aqui alguém a escrever e vocês a lerem, optaram por uma bola redonda, foi para que ela rolasse sobre uma superfície. E se, com os anos, nos fomos afastando de campos pelados, arenosos, esburacados e não uniformes, a intenção parece-me clara:

Que haja uma planície plana, impecavelmente cortada, despida de socalcos, para a bola rolar livremente e sem problemas.

E o futebol de que tanto gostamos cresceu à volta de uma bola redonda, feita para rolar na relva e tipos com proezas e leveza nos pés a tocarem, enquanto correm. Aprendemos a admirar a coordenação motora, bípede e talentosa de Pelés, Cruijffs, Eusébios, Maradonas e Zidanes, instaurado que estava o uso das mãos como restrito para quem protege as balizas. Mas as regras nunca proibiram que o futebol apontasse ao céu e saísse da relva.

Por isso há espaço, e a evidência não é de agora, para matulões encorpados, com figura de guerreiros medievais, como Andreas Granqvist, o capitão da Suécia que parece a metáfora humana para um urso e, julgo, epitoma todo o estilo da sua seleção e de quem o rodeia. Ele mede 1,92 metros, pesa uns interneticamente simpáticos 86 quilos, dada a sua real e visível envergadura, é defesa central e a sua zona de conforto é usar os grandes pés para bater a bola, uma e outra vez, para a frente. Pelo ar.

É o tipo a quem os suecos chamam garnen, traduzido literalmente para “árvore de Natal”, alcunha que o comércio local aproveitou, na última época natalícia, fabricando pequenas réplicas do gigante para serem vendidas em lojas, as pessoas comprarem e colocarem na árvore lá de casa. O tema é Granqvist, a árvore figurativa que penduraram numa árvore literal, que tem golos de penálti no Mundial, mas podia bem ser Marcus Berg, Ola Toivonen, Michael Lustig ou Ludwig Agustinsson.

São todos rapazes invulgarmente altos, fortes e poderosos, que tiram o futebol da relva e o levam para os ares onde, pelo físico, se podem impor a quase toda a gente. Eles jogam longo e direto, apontando às cabeças e peitos dos outros, para receber a bola ou amortecê-la para quem venha embalada e consiga, com o menor número de passes possível, rematá-la à baliza. Um lógica que implica muitos passes longos e ainda mais cruzamentos para a área, porque as virtudes suecas estão no ar e não na relva.

É assim que Berg e Ekdal dispõem das boas condições para rematarem à baliza, que transformam em dois dos remates mais disparatados do torneio, porque, derem as voltas que derem, futebol é pé e a maior concentração de virtudes terá sempre de estar nessa parte do corpo.

Mas o seu estilo direto, aéreo e pujante, por mais entediante que seja, barra a fidelidade que Xhaka, Shaqiri, Zuber e Dzemaili dedicam ao jogo de toque e de bola a circular de pé em pé, de forma apoiada. Os suíços têm boas ideias e posicionam-se para as executar, só que soluçam muito contra o físico contra o qual não conseguem competir - e contra a velocidade que teimam em não ter.

Richard Heathcote

Quaisquer pés tecnicistas, hábeis e com peculiar jeito para passarem a bola serão sempre traídos pela falta de intensidade. A Suíça tem sempre muito mais bola, fá-la parar em quase todos os jogadores quando a circula e chega à área de forma apoiada, por dentro e por fora, mas joga tão a passo, devagar e devagarinho, que é tão responsável como os suecos pela partida enfadonha que vamos vendo.

Os suíços confiam, em demasia e cegamente, na apetência que têm para serem a equipa superior na companhia da bola, mesmo que raramente furem a coesa organização sueca. E, sobretudo, mesmo sem nunca serem capazes de controlarem ou dominarem o jogo, porque o estilo longo e direto de jogar futebol é o que é.

É uma forma de ludibriar desníveis técnicos e levá-los para as receções de bola no ar, os ressaltos, as segundas bolas, os desvios de cabeça para o espaço nas costas, os cruzamentos aéreos para os nossos atacarem a bola de frente para a baliza. Tudo coisas que se treinam e demonstram inteligência, quando raro será o jogo no qual não sejam os suecos a terem os tipos mais fortes, explosivos, poderosos e tratoristas em campo.

A Suécia é a seleção que chega mais vezes à área contrária, que tira mais cruzamentos e mais impõe a sua forma de jogar aérea e direta à maneira passadora e rasteira da Suíça em fazer as coisas.

O facto de ser Emile Forsberg a chutar a singela bola que dá golo, contudo, é uma contradição. Ele é o único sueco pequeno, aparentemente frágil e por demais evidente que prefere a bola a rolar na relva e a viver de toques curtos, que faz vida a ser engolido por um estilo adequado à maioria e não o contrário, como em tantos anos contados a adaptar-se a Zlatan Ibrahimovic.

É numa raríssima jogadas em que os suecos ignoram a tentação de cruzar e o deixam com a bola à entrada da área que ele, de simulação em engodo, vai cortando da esquerda para o meio até disparar um remate que seria fácil, não desviasse na perna de Akanji. O resto do tempo fez-se dos suecos a fortalecerem-se nas áreas - juntando-se a Granqvist na sua, para só deixarem a Suíça obrigar Olsen a defender uma vez em esforço, e despejando bolas em Berg e Toivonen, na adversária.

Pode ser aborrecido, pouco atraente e provavelmente oposto ao gosto da maioria das pessoas que assiste ao Mundial. Seja como for, uma coisa bem feita muitas vezes, mesmo que pouco bonita, torna-se eficaz, e os únicos a quebrarem esta Suécia pela insistência foram os alemães, e já sabemos onde eles estão neste momento.

Dará pena ver um talentoso Forsberg a renegar-se à labuta de ressaltos e jogo direto, mas a última vez que vimos os suecos a jogarem como mais lhe beneficiaria terá sido, lá longe, em 1994. Por sinal, desde aí que não chegavam aos quartos-de-final de um Mundial, quando tinham as proezas de Thomas Brolin, Martin Dhalin e Henrik Larsson.

Agora, perguntem a Andreas Granqvist se ele está muito importado com isso.