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Devagar, devagarinho e a confiar no talento, lá vai a Bélgica

O 3-0 (e o bis de Romelu Lukaku) com que os belgas venceram um batalhador, lutador e genuíno Panamá eram expectáveis, mas a seleção que tem uma das maiores densidades de talento por m² continua a surpreender pelo quão mais deveria jogar, e não joga

Diogo Pombo

Patrick Smith - FIFA

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Há quem ache bonito, sintoma de estilo alternativo até, ver um cabelo com rijas e grossas madeixas, enroladas em rastas, como as que Román Torres, o capitão do Panamá, ostenta. Rastas que encapsulam toda a simplicidade e genuinidade que há no Panamá, estreante nesta itinerância mundialesca, senão vejamos.

Ele é uma concentração ambulante de músculo e corpulência, qualidades que confundem e o pode fazer parecer roliço, provado pelo jornalista que lhe pergunta, em plena conferência de imprensa, se, realmente, está gordo. Román respondeu levantando-se da cadeira, puxando a t-shirt para cima e mostrando uma barriga quadriculada.

Ao sentar-se, as rastas abanam, são as mesmas que prometeu cortar caso, um dia, o país se qualificasse para o Campeonato do Mundo. Apurou-se com um golo seu, no último minuto do derradeiro jogo. Mantém as rastas pelo simples e genuíno facto de a filha lhe ter pedido para não cortar, e pronto, justificação tão verdadeira quanto as lágrimas que deixa escapar durante o primeiro hino panamiano num Mundial. Foi o único, talvez, porque quase todos os outros jogadores o entoaram (ou gritaram) de olhos fechados.

Eles são genuínos e simples na forma como concentram sempre os onze jogadores atrás da bola, que é da Bélgica, e parece-me que seria para todo o sempre, se o jogo durasse para sempre. Falsos e complicadores seriam caso se comportassem de outra forma e não confiassem no físico, na organização e na luta, aspetos que se trabalham e não é preciso nascerem connosco.

E os belgas, no fundo, jogam como se espera. Cheios de tabelas e toques de calcanhar ao rácio de um a cada cinco minutos, muitos floreados repartidos entre Hazard, Mertens e De Bruyne, as três pontas de um icebergue geracional mais do que talentoso, mas pecador na excessiva dependência que depositam nesse talento.

Rematam por nove vezes até ao intervalo. Por certo há duas bolas vistosas que quase dão golo. E há um corte de carrinho imprudente de Román Torres, a um metro da linha, que ora daria em auto-golo ou deixaria o cruzamento rasteiro de De Bruyne chegar a Lukaku, perante uma baliza deserta, mas nunca o corte que uma vez em 10 mil desviaria a bola para canto 1.000 repetições - como, realmente, aconteceu.

A Bélgica foi sendo a Bélgica, intrincada em muitos passes e a querer forçar as jogadas de forma rápida, mas como que dificultando a vida a si própria: os três centrais, que forma para poder colocar tantos craques em campo, estão sempre alinhados e limitam-se a entregar a bola, sem a conduzirem para tirarem adversários da marcação; Witsel nunca pede a bola nas costas de algum panamiano; a equipa não aproveita a largura e tenta penetrar sempre pelo meio.

ADRIAN DENNIS

Para o agravar, não são agressivos ou intensos na reação às bolas que perdem, e os estreantes que têm o canal mais famoso do planeta arranjam, com o tempo, canais para se lançarem em contra-ataques. Passam 45 minutos sem acertarem na baliza, mas trocam 194 passes no seu estilo forçado e rocambolesco, em que a bola sai muitas vezes nervosa, a saltitar, dos seus pés.

Nenhum panamiano tem um pé como o direito de Mertens, que bate de primeira na bola numa que lhe cai, na área, vinda de um corte, e a dispara num arco vertical para dar mais um belo golo à competição, assim que a partida recomeça.

Seguiram-se dez minutos em que os panamianos adiaram o previsível, pressionando os belgas uns 15 metros mais à frente, arriscando mais nos ataques rápidos e salivando pela hipótese de chegarem à baliza em vez de temerem pelos espaços que abririam. Chegaram uma mão cheia de vezes à área belga e tiveram no passe que Bárcenas picou para a profundidade uma ocasião para empatarem. Courtois saiu como uma seta da baliza e barrou o remate de Murillo.

Não mais o Panamá ousou tanto, ou logrou ser perigoso, muito devido à perceção dos belgas. Aperceberam-se que havia que controlar o jogo pela bola. Ao invés de querem tudo fazer com rapidez e de lembrarem que há um ditado a dizer que quanto mais rápido, mais devagar, os diabos vermelhos deram mais corrida à bola. Olharam mais para o espaço e utilizaram-no para os adversários correrem.

Depois, o talento no qual tanto confiam em demasia apareceu na simulação e cruzamento de trivela com que De Bruyne encontrou o único belga para quem ainda não tinha feito um passe. Lukaku fez o 2-0 de cabeça antes de picar o 3-0 com o pé esquerdo, à saída do guarda-redes, no fim da única jogada de transição em que a Bélgica encontrou espaço nas costas da defesa.

O melhor que a Bélgica pode retirar do jogo é o bis do “tipo mais forte mentalmente que podem conhecer”, palavras que o próprio Lukaku nos escreveu, carinhosamente, e enviou pelo “Players’ Tribune”. Falta servirem mais, e melhor, o possante tanque que têm como avançado, e darem mais organização e estrutura à densidade de talento, quiçá sem deixarem tanto ao acaso do improviso.

Os passes e a bola são matreiros e não dizem tudo, mas este Panamá cheio de alma, coração e luta - quando pouco só uns dois jogadores oferecem mais do que isso - conseguiu ligar mais de 300 passes contra uma seleção que podia, e deveria, ser bastante mais coesa sem a bola. E entusiasmante, perigosa e eficaz a explorar o espaço com ela (em vez de, por exemplo, insistir em ter o pouco associativo Carrasco como ala esquerdo).