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Harry, não lhes leves a mal se te chamarem prince

A Inglaterra venceu a Tunísia (2-1), com um golo de Harry Kane (bis) no último minuto de um jogo em que foi brutal na primeira-parte e procurou a sorte na segunda. A Tunísia marcou de penálti, após disparate de Kyle Walker

Pedro Candeias

Chris Brunskill/Fantasista

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Os jornais britânicos olharam de duas formas para isto, embora apenas uma delas parecesse realmente decisiva para o jogo: a juventude dos ingleses (1), e os mosquitos e os ingleses (2). É que Volgogrado foi invadida por futebolistas e adeptos ingleses, mas também por uma borrasca de bicharada (2) ao ponto de a FIFA recomendar o uso abundante e abusivo de repelente (que distribuiu) e de a cidade pôr helicópteros no ar a despejar inseticida.

Obviamente, este é o argumento não-decisivo.

Mais comichosa era a questão dos lads de Gareth Southgate, o selecionador que operou uma revolução ideológica e, por isso, geracional (1). Digamos que Southgate aproximou o jogo ilhéu ao Continente, pelo que os anos e anos de conceitos trazidos por treinadores e jogadores europeus e sul-americanos na Premier quebraram a barreira que se julgava intransponível: a sagrada Old Albion. “Eu quero que os meus rapazes jogam como treinam, ao ataque, a roubar a bola rapidamente, à frente no terreno, e a fazer combinações”, disse Southgate.

Daí, isto: um 3x1x4x2, móvel, enérgico, ofensivo e quase brutal nos primeiros minutos diante da Tunísia. Com Kyle Walker, Stones e Maguiere, Henderson a trinco, Trippier, Delle Ali, Lingard e Young, Harry Kane e Sterling, a Inglaterra criou imediatamente duas oportunidades de golo nos primeiros minutos: por Maguire, de cabeça, e por Sterling, com o guarda-redes Hassen a exibir reflexos e agilidade.

Os tunisinos não compreendiam o que lhes estava a acontecer, porque perdiam a bola antes de saberem, sequer, o que poderiam fazer com ela - e aos 11 minutos, Harry Kane fez o seu primeiro golo em competições oficiais pelos ingleses, após outra extraordinária defesa de Hassen, que sacudiu o cabeceamento vigoroso de Stones.

Três minutos depois, Hassen saiu lesionado de um ombro.

Os impiedosos europeus não abrandaram, nem antes, por Jonathan Henderson e por Lingard, nem mesmo depois de disparatado Kyler Walker pôr a mão na cara de Fakhreddine Ben Youssef que resultou em penálti, convertido por Sassi (35’). A seguir, Stones falhou espetacularmente um golo feito (39’) num lance em que os ingleses reclamaram penálti sobre Kane, e Lingard (45’) atirou ao poste após receber um passe em profundidade de Trippier.

Os ingleses continuaram a aparecer perigosamente de todo o lado e em força e a Tunísia agarrou-se até ao intervalo a uma linha de vida ténue, mas ainda assim suficiente para os levar empatados para uma conversinha de balneário.

Na segunda-parte, o jogo mudou ligeiramente – para pior, na ótica do adepto, ou para melhor, se o leitor for tunisino ou tiver históricos rancores Cor-de-Rosa contra ingleses.

A Tunísia conseguiu fixar um pouco melhor os defesas/alas ingleses, colando-lhe os seus extremos em cima, e passou também a condicionar de outra forma Delle Ali e Lingard, dois médios ofensivos com várias competências, a mais importante das quais a capacidade de fazer golos.

Tanto assim foi que o primeiro lance de perigo moderado surgiu ao minuto 69’, num livre batido por Trippier. Southgate mexeu na equipa, pondo o músculo e a imprevisibilidade de Rashford e Loftus-Cheek, mas a Tunísia não tremeu por aí além.

O segundo golo, contudo, acabaria por aparecer praticamente como o primeiro: um remate de Harry Kane após um lance em que o impetuoso Maguire ganhou no corpo-a-corpo. O ponta-de-lança do Tottenham resgatou a Inglaterra da depressão, restaurou a fé na juventude.

A não ser que lhe dê a mosca. Ou o mosquito.