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Grupo G

Yes, they Kane

A Inglaterra voltou a vencer no Mundial 2018, desta vez frente ao Panamá (6-1), obtendo a maior goleada da sua história e afirmando a sua candidatura ao troféu que (só) conseguiu conquistar em 1966

Mariana Cabral

MARTIN BERNETTI

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1615 km separam El Salvador do Panamá, mas, esta tarde, falou-se de El Salvador no Panamá e do Panamá em El Salvador. É que, ao intervalo do Inglaterra-Panamá, os ingleses já goleavam por 5-0 e a vantagem parecia não ir ficar por ali. E foi aí que os panamianos se lembraram dos salvadorenhos e os salvadorenhos, provavelmente, mandaram a boa vizinhança às malvas e começaram a torcer pela Inglaterra.

Em 1982, El Salvador foi a primeira seleção da América Central a participar num Mundial, em Espanha, mas a estreia não correu bem: os salvadorenhos perderam os três jogos que disputaram e um deles mantém-se como um dos recordes da história dos Campeonatos do Mundo. Contra a Hungria, El Salvador perdeu por impressionantes 10-1, a maior goleada alguma vez sofrida em Mundiais.

Esta tarde, no Inglaterra-Panamá, esse recorde chegou a estar em risco.

Não é que a Inglaterra tenha produzido uma exibição de encher o olho - na verdade, o início de jogo que protagonizou contra a Tunísia até pareceu bem mais promissor do que este -, mas a eficácia com que cilindrou o Panamá fez tudo parecer muito simples.

É certo que o Panamá, estreante em Mundiais, que já tinha perdido no primeiro jogo com a Bélgica (0-3), não foi propriamente uma oposição de grande calibre, mas esta Inglaterra, em dois jogos, já mostrou ter bem mais ideias e ser bem mais equipa do que muitos dos grupos anteriores do país que se acha sempre merecedor da vitória - o lema que anda a circular pelas redes sociais é "it's coming home", em referência à taça e ao facto do país ser tido como a pátria do futebol.

O jogo ainda mal tinha começado e a Inglaterra já se colocava em vantagem, marcando o seu terceiro golo na prova numa bola parada, momento que já começa a tornar-se numa especialidade inglesa. Num canto, aos oito minutos, os jogadores do Panamá bem agarravam, com grande agressividade, tudo o que mexia, mas enquanto as picardias decorriam John Stones soltou-se do seu marcador direto e apareceu sozinho a cabecear para o 1-0.

MARTIN BERNETTI

Mesmo em desvantagem, o Panamá procurava tentar trocar a bola e chegar lá à frente e ainda assustou, com um remate de longe de Bárcenas, claramente a peça mais valiosa da seleção. Mas os passes perfeitos de Trippier para os pés dos homens mais avançados da Inglaterra, na profundidade, iam contornando os muitos panamianos que tapavam o caminho para a baliza.

Aos 20 minutos, Lingard, sempre muito hábil a desmarcar-se, recebeu a bola e arrancou para golo, mas foi travado em falta: penálti que Harry Kane marcou, fazendo o seu primeiro de três golos no jogo. Mas, antes do show Kane, houve show Lingard: aos 36 minutos, o jogador do Manchester United marcou um belíssimo golo de fora da área, com um remate em arco.

Quatro minutos depois, mais um belo momento de futebol, novamente numa bola parada de excelência: num livre em zona frontal, Trippier jogou curto para Henderson, que picou a bola para a área - Kane desviou do segundo para o primeiro poste e Sterling cabeceou para a defesa de Penedo, mas Stones, na recarga, bisou.

O jogo começava a descambar para os panamianos, claramente já descontrolados emocionalmente, e ainda ficou pior em cima do intervalo. Novamente num canto, houve demasiada agressividade dos defesas, com tanto Stones como Kane a serem agarrados e empurrados na área. Penálti que Harry Kane voltou a concretizar com sucesso, afastando aqueles fantasmas que costumam acompanhar as palavras "Inglaterra e penáltis" (basta pensar nos jogos contra Portugal no Euro 2004 e no Mundial 2006...).

Chegado o intervalo, com os 5-0, a Inglaterra já somava mais um recorde: este já era a maior goleada da seleção em Mundiais e pensava-se que o resultado podia ainda ficar bem mais avantajado.

E ficou, mas apenas com mais um golo. Aos 62 minutos, Loftus-Cheek rematou para golo e a bola foi desviada, inadvertidamente, por Kane - o homem, mesmo sem querer, marca golos e já é mesmo o melhor marcador do Mundial, com cinco golos, mais um do que Cristiano Ronaldo.

Com os 6-0 no bolso, Gareth Southgate começou a rodar a equipa, fazendo entrar Vardy e Delph para os lugares de Kane e Lingard, e o ritmo do jogo baixou drasticamente.

MARTIN BERNETTI

O Panamá aproveitou então para finalmente voltar a aproximar-se da baliza oposta e, depois de um lance perigoso de Murillo, conseguiu mesmo marcar, aos 78 minutos. Livre de Avila enviado para a área (mal defendido por alguns ingleses, que ficaram parados) e Felipe Baloy fez história ao marcar o primeiro golo do Panamá num Mundial.

Era apenas o 6-1, mas os panamianos festejaram como se fosse o golo da vitória. E os ingleses foram para casa convencidos que podem voltar a ganhar o troféu, como em 1966. É isto o Mundial.