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Januzaj: só um belga-kosovar-sérvio-albanês podia furar um pacto de não-agressão

A Inglaterra e a Bélgica entraram em campo já apuradas e com os olhos postos no calendário. Porque sabiam com quem iriam nos oitavos de final e quem não gostariam de apanhar, eventualmente, nos quartos de final: o Brasil. Mas isto pode ser apenas mais uma teoria da conspiração a aproveitar um vazio competitivo. Valeu pelo extraordinário golo de Januzaj, que deixou Danny Rose às portas do nefrologista e Delph de costas para o mundo

Pedro Candeias

Chris Brunskill/Fantasista

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A Inglaterra estava apurada e a Bélgica idem: tinham os mesmos pontos e os mesmos golos, e as duas sabiam que o primeiro do Grupo G encontraria o Japão e o segundo a Colômbia. Ambas também sabiam o que se seguiria nos quartos de final: a Suécia ou Suíça, ou o Brasil ou o Brasil, porque se o México está bem, o Brasil ficará definitivamente melhor.

Ou seja, e em teoria, os caminhos seriam estes:

2.º lugar —> Colômbia (1/8 de final) —> Suécia/Suíça (1/4) —> ?? (meias-finais)
1.º lugar —> Japão (1/8 de final) —> Brasil/Brasil (1/4) —> Game Over

Este é claramente o problema de jogos como este: como tudo está resolvido, há espaço para pensar; e nós homens somos rapidíssimos a aproveitar vazios competitivos para produzir as melhores teorias da conspiração, baseadas, claro, em factos que a suportem – e excluindo convenientemente os que a derrubam.

Ora, quando vimos os dois onzes de Inglaterra e da Bélgica, a primeira coisa que nos ocorreu – e não vale mentir – foi exatamente isto: "estes tipos estão a brincar connosco; nenhum deles quer ganhar o jogo com medo de apanhar o Brasil nos quartos-de-final".

Porquê? Porque não víamos Kane, Sterling, Jonathan Henderson, Young, Lingard, nem Lukaku, Mertens, De Bruyne, Hazard – bom. Hazard havia, mas o errado – ou Witsel. Nunca nos ocorreu sequer que Southgate e Martínez estivessem apenas a dar ritmo a uns e descanso a outros.

Não, senhor, o que nos ocorreu foi aquele 2-2 da Suécia com a Dinamarca no Euro2004, em que Anders Andersson foi apanhado a pedir uma abébia ao poderoso Thomas Gravesen quando os suecos perdiam por 1-2. É importante recordar: ficou 2-2, os vizinhos festejaram ao colo uns dos outros, passaram ambos a fase de grupos, a Itália ficou pelo caminho.

Moral da história: são os jogadores que fazem os resultados.

E foi com esta história na cabeça que assistimos a uma primeira-parte morna e relativamente desinteressante, ainda que jogada com bons futebolistas: Fellaini, Eric Dier, Rashford, Januzaj, o outro Hazard, Hardy, etc. Creio que o público também estava connosco, porque não foram poucos os assobios quando os defesas das começaram a trocar a bola entre eles sem pressão dos avançados.

Ao todo, houve duas quase-ocasiões, se quisermos chamar isso a remates que não chegam à baliza, e um corte sobre a linha de golo, após uma embrulhada daquelas em que só o divertido Batshuayi se mete.

Na segunda-parte, quem tinha bilhete estava a amaldiçoar a falta de álcool na cerveja e o calendário – e se este jogo tivesse acontecido na primeira ronda do Grupo G?

Mas, logo depois, deu por bem empregue o seu tempo e dinheiro quando Januzaj disparou para um dos golos mais bonitos do torneio. Primeiro porque enviou Danny Rose ao nefrologista com um toque extraordinário que lhe partiu os rins; depois, porque chutou com violência e precisão como só os canhotos verdadeiramente abençoados conseguem fazer do lado direito do campo – ou então, um destro como Quaresma.

[Para quem não sabe, Januzaj é belga, mas podia ser albanês, kosovar ou sérvio, pelo que a sua definição de nação é muito livre, e só assim se explica esta brecha no pacto de não-agressão com a Inglaterra].

Este golo, como todos os grandes golos, despertou as bancadas e infectou os jogadores, sobretudo os belgas, que deixaram as amarras e passaram a pressionar mais alto, abrindo alguns metros aos contra-ataques ingleses. Foram, portanto, 45' dignos e competentes, com lances de perigo nas duas balizas. O resultado não se alterou, provavelmente porque os bombardeiros Kane e Lukaku nunca saíram do banco de suplentes, de onde viram, por exemplo, um disparate de Welbeck que quis - terá mesmo? - chutar de costas para a baliza.

P.S.: Januzaj foi o melhor em campo