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Quintero, sois um craque

Ele pode ser acusado de estar com uns quilinhos a mais de cintura, de querer em demasia saber de reggaeton e de as más companhias já o terem condenado a uma carreira itinerante. Só que Juan Fernando Quintero, que hoje joga contra o Senegal (15h, Sport TV1) também é o craque com a bola e não fomos nós a dizê-lo primeiro

Diogo Pombo

Clive Brunskill

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É, no mínimo, uma raridade, ver a bola nos pés de um futebolista e vê-lo virado para uma certa direção, corpo orientado por completo para esse lado, e não deduzirmos o previsível: renunciando a individualismos, o passe ou o remate que ele decidir fazer vai tomar aquele rumo.

A assunção, compreensível, agarra-se ao facto de a maioria dos tipos que jogam futebol ser, em quase toda a sua essência, apenas humano. Executam o esperado, falham no que inventam e esse balanço força-os a jogarem pelo seguro. Até nos depararmos com as ilusões corporais e motoras de Juan Fernando Quintero.

Sendo colombiano e canhoto, há nele o atrevimento descontraído de um sul-americano e a estética refinada e agradável aos olhos de integrar a minoria do mundo que tem no pé esquerdo o utensílio preferido. Contra a Polónia, em 73 minutos de tranquilidade futebolística, ele usou-o para almofadar a bola e enganar até quem a certeza tem de ir receber um passe seu.

Quintero não é especialmente dotado para correr apressadamente, ou correr, de todo, a mais do que a um trote acelerado. Quando a bola está nos maus, neles ficará se depender de Quintero, um tipo pouco agressivo, menos intenso e ainda menos determinado em dar muito dele próprio para reaver esse bem redondo.

Se, até aqui, não o foi, Quintero, com 25 anos, também nunca será um exemplo de índice de trabalho, aquele indicador dos simuladores de futebol que media, basicamente, a capacidade de esforço de um jogador.

O que este colombiano é, e por certo sê-lo-á ainda por uns valentes anos, é um futebolista ultra talentoso. Com uma mente e um pé esquerdo que comunicam a uma velocidade da luz, autistas na medida em que é difícil partilharem com o mundo exterior a sua genialidade na produção de ideias por segundo, durante aqueles 80, 90, 100 ou 110 segundos de sorte, em que um futebolista tem a bola consigo, em média, por jogo.

FILIPPO MONTEFORTE

Há incomparavelmente mais jogadores razoáveis ou medianos, do que mestres e geniais, e por isso o futebol valoriza a garra, os músculos, o físico, a intensidade e o pulmão, muitas vezes, por cima de tudo o que é técnica pincelada na bola. Juan Fernando Quintero trai tudo o que logra imaginar com ela com o que não é capaz, ou não lhe apetece fazer, quando não a tem.

Foi e parece que continuará a ser preterido no FC Porto, que o quis mostrar à Europa, devido a isso, e a um feitio que, durante muito tempo, dizem ter dado mais atenção ao reggaeton e às más companhias. Uma personalidade vinda da dificuldade de um pai que abandonou a família a favor da tropa, tinha Juan os seus 2 anos, e lhe empurrou boca fora as palavras que, aos 10, deu à mãe: “Tranquila, mamã, vamos para a frente. Quando for grande, vou dar-te tudo”.

O tudo que também tenta dar a quem o rodeia, no campo, de momento são os colombianos, por muito que o seu corpo os engane tanto como desmonta as tentativas de adivinhação dos adversários. Era Quintero um imberbe e já dizia, em entrevistas, que a sua função era “pôr todos os meus companheiros a tocar na bola”.

O jeito e o talento atraem-se e tarde, ou cedo, acabam por juntar quem genial nessas qualidades é. Quintero brincou em criança a dormir em casa dos pais de James Rodríguez, em Envigado, lá na Colômbia onde cresceram para José Pekerman, que os convocou como adultos, não renunciar à compatibilidade que sempre existirá entre pedras preciosas.

O selecionador juntou Quintero e James no campo. E os brutais números 10, os canhotos que exigem tocar a bola, fizeram-na circular por todos colombianos, com os polacos a verem. Mas apenas um ouviu o nome a ser chamado por Pekerman, do banco, ia o encontro a meio.

- “Juan, Juan, crack, crack! Sos un crack!”

É o craque que já marcou em dois Mundiais, que pode jogar parado e de cadeira ou sentado em demais chavões de imobilidade, que já acusaram de se descuidar nos quilos à volta da cintura, mas não deixará de ser um craque com a bola que está ser uma agradável, e inesperada, surpresa na Rússia.