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Vamos falar de Allen Iverson, que se estreou há precisamente 20 anos

A 1 de novembro de 1996, Fidélfia assistia de boca aberta ao primeiro jogo de Allen Iverson na NBA. Carismático, supersónico e com um talento que não cabia num pavilhão, o base marcou uma geração, mas os problemas fora de campo não o deixaram ser ainda maior

Lídia Paralta Gomes

Mansoor Ahmed/Getty

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Cabelinho cortado rente, braços despidos de tatuagens. O Allen Iverson que se estreou na NBA, faz esta terça-feira exatamente 20 anos, parecia tão diferente daquele que viria a tornar-se numa das figuras mais carismáticas da liga. Parecia, apenas. Porque o essencial já lá estava: Iverson era pequeno de tamanho – com 1,83m era dos jogadores mais baixos da NBA – mas o seu coração era enorme.

Desde aquela noite de 1 de novembro de 1996 até ao último esforço num pavilhão da NBA, em 2010, muito se passou: Iverson, hoje com 41 anos, foi o melhor rookie dessa temporada, levou Michael Jordan ao tapete, com um crossover de nos levar às lágrimas; em 2000 foi pela primeira vez All-Star, estatuto que iria manter nos 10 anos seguintes; foi finalista da liga em 2001 e agarrou quatro títulos de melhor marcador da época regular ao longo da carreira.

Também discutiu com treinadores, recusou-se a ir a treinos, protagonizou uma das mais cómicas (e icónicas) conferências de imprensa da história da NBA (vejam aqui, pela vossa saúde, mas falaremos dela mais tarde), perdeu dinheiro, muito dinheiro, e acabou quase esquecido, sem oportunidades.

E se muito se passou no durante, o antes não é menos importante: Iverson era ainda uma estrela do liceu no estado da Virgínia quando foi preso e condenado a pena de prisão por agressão, num caso com contornos raciais e onde a culpa do então adolescente nunca foi provada.

Iverson no ano de estreia, em 1996

Iverson no ano de estreia, em 1996

TOM MIHALEK/Getty

A estreia depois do calvário

Ora bem, 1 de novembro de 1996, quatro meses depois de ter sido a primeira escolha do draft, Allen Iverson fazia a estreia perante os adeptos dos Philadelphia 76ers, no primeiro de 784 jogos pela equipa do estado do Pensilvânia. Frente aos Milwaukee Bucks, o puto Iverson, do alto do seu 1,83m (o que na NBA é quase ser pigmeu) mostrou logo ao que vinha: rápido e ágil, atacou o cesto e todos pensaram que os primeiros pontos do base seriam após um afundanço. Iverson tentou, mas não aconteceu, já que o defensor dos Bucks acabou por tocar com a mão no aro, ação sancionada com pontos para o atacante.

Assim, os primeiros pontos da carreira podem não ter sido tão espectaculares ou vistosos como Iverson sonharia ou como nos viria a habituar nos anos seguintes, mas o primeiro jogo da futura estrela impressionou: 30 pontos, seis assistências e uma variedade de jogo de encher o olho. Desde triplos a afundanços, o pequeno Iverson parecia capaz de tudo. Os Sixers acabariam por perder por 111-103, mas ganharam o seu franchise player, o seu homem de referência para os anos seguintes, um ídolo para os que agora mandam nos pavilhões.

Brilhar perante 20 mil pessoas não intimidou Iverson e é preciso recuar três anos para perceber porquê. Em fevereiro de 1993, o base foi preso na sequência de uma violenta rixa entre um grupo de brancos e outro de negros, durante um jogo de bowling em Hampton, Virgínia, cidade natal do jogador. Na altura, Iverson era o miúdo mais popular da escola secundária de Bethel, onde além de atacar os cestos como um raio, também não se dava mal no futebol americano. Não se dava mal, como quem diz: era dos melhores quarterbacks do estado.

Iverson e outros três amigos negros foram os únicos detidos após os incidentes e sempre clamaram inocência. O jogador foi acusado de bater com uma cadeira na cabeça de uma rapariga branca e julgado como um adulto, apesar de ter apenas 17 anos. Acabou condenado a 15 anos de prisão, com 10 de pena suspensa, apesar dos testemunhos contraditórios e da falta de provas, num caso que dividiu por completo uma cidade de Hampton onde as diferenças raciais eram já latentes.

Perdeu-se um talento, pensava-se, mas a vida de Iverson daria uma volta quatro meses depois, quando o então governador da Virginia, Douglas Wilder, concedeu clemência ao jogador. E 24 horas depois de sair da prisão, Iverson apresentou-se numa liga de verão local: marcou 40 pontos. Em 1995, a justiça reconheceria que Iverson havia sido condenado sem provas. Na altura já brilhava na equipa da Universidade de Georgetown, que acreditou no miúdo apesar do seu passado. Iverson retribuiu, tornando-se no jogador com melhor média de pontos da história dos Hoyas. A prisão só o tinha tornado mais duro de roer.

MVP

Em Philadephia, Iverson tornou-se rapidamente numa estrela, com o seu estilo estonteante e capacidade inata de marcar pontos, mesmo sendo um base. Em 2000/01, já com as tranças no cabelo e as tatuagens que se tornaram imagem de marca, explodiu: levou os 76ers a uma final pela primeira vez desde 1983 e foi considerado o MVP da fase regular, em que teve uma média de 31,1 pontos por jogo. Só os Lakers de Kobe Bryant e Shaquille O’Neal travaram Iverson, que no primeiro jogo da série decisiva marcou 48 pontos e fez uma grande maldade a Tyronn Lue (esta aqui), atual treinador dos campeões Cleveland Cavaliers.

“We’re talking about practice”

Depois da final perdida para os Lakers começaram os problemas. Primeiro com lesões e depois com o treinador Larry Brown. Após os 76ers serem afastados dos playoffs no ano seguinte logo à primeira ronda, o técnico acusou Iverson de faltar aos treinos. O jogador respondeu numa conferência de imprensa em que se atirou aos jornalistas, que acusou de desvalorizarem o que fazia em jogo, focando-se nessa coisa sem importância nenhuma que são os treinos.

“Not the game, we’re talking about practice!”, lançou Iverson, num ataque de fúria em que disse a palavra “practice” 14 vezes em pouco mais de 2 minutos.

Bem, mais vale recordar, porque nunca é demais:

A partir daí a coisa nunca mais endireitou verdadeiramente. Larry Brown foi despedido e Iverson continuou a fazer grandes números individuais, mas a equipa dos Sixers nunca mais foi capaz de chegar longe nos playoffs, com Iverson a abandonar a carruagem em 2006 para se juntar aos Denver Nuggets. Passou ainda nos Pistons e nos Grizzlies, antes de voltar a Philadelphia, onde fez o último jogo na NBA a 20 de fevereiro de 2010.

Nesse ano, e com as portas da NBA fechadas (já não era o jogador de antes e os casos de indisciplina não ajudavam), meteu-se num avião e ainda fez 10 jogos pelos turcos do Besiktas. Em outubro de 2013 retirou-se definitivamente, com a mágoa de ser um dos melhores de sempre sem um título da NBA no currículo.

A arte de esbanjar milhões

Apesar de ter ganho qualquer coisa como 160 milhões de dólares só em salários ao longo da carreira, Iverson nunca foi homem de poupar. “Ele redefiniu o conceito de ‘high maintenance’”, disse um dia o antigo presidente dos Sixers, Pat Croce. Carros, jóias, noites de folia, não havia limites para Iverson, que depois de se divorciar de Tawanna Iverson, em 2012, admitiu que não tinha dinheiro “nem para um cheeseburger”.

Numa entrevista ao Washington Post, o antigo colega de equipa Roshown McLeod revelou que fosse qual fosse a conta do bar, Iverson pagava e que nunca pensou no futuro.

Mais recentemente, em setembro, foi notícia por ter chegado atrasado à conferência de imprensa do Hall of Fame, que reúne as maiores figuras de sempre da NBA e para o qual foi indicado este ano. “Razões pessoais”, justificou na altura, o jogador que foi grande, mas que com um pouco mais de juízo podia ter sido realmente um dos melhores.

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