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Stephen Curry: não há ninguém como ele para lá da linha dos três pontos

Já era seu o recorde de mais triplos numa só temporada (402). Agora tornou-se no primeiro jogador a marcar 13 triplos num único encontro. Tudo aconteceu na madrugada de segunda-feira, num encontro frente aos New Orleans Pelicans. Aos 28 anos, Stephen Curry, o atirador letal dos Golden State Warriors, continua a escrever história atrás da linha desenhada a 7,25 metros do cesto

Lídia Paralta Gomes

De três em três, Stephen Curry é o novo recordista de triplos num só jogo da NBA

Ezra Shaw/Getty

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O que têm em comum Stephen Curry e Taras Domitro? Taras é cubano de Havana e chegou a São Francisco em 2008 para ser um dos bailarinos principais da companhia de ballet da cidade californiana, depois de anos e anos de treino na Escola Nacional de Ballet de Cuba. Quando Taras aterrou no norte da Califórnia não ligava muito a basquetebol, mas logo se enamorou pela equipa de miúdos que jogava do outro lado da baía, os Golden State Warriors, de Oakland. Em particular de Stephen Curry. Afinal de contas, para ele o base é o mais próximo de bailarino que se pode ver num pavilhão da NBA.

“Ver Curry com a bola é como ver um bailarino como eu a conduzir a mulher no palco”, disse Taras ao New York Times, em 2015.

Mas Curry não é apenas um esteta, um artista. É uma máquina de eficácia. Graça, leveza, coordenação dos braços e das pernas, algum malabarismo à mistura: estas são as armas que Stephen Curry usa para ser o mais letal dos atiradores da liga, o homem de todos os recordes para lá da linha desenhada a 7,25 metros do cesto, que marca a fronteira entre os lançamentos de dois e três pontos.

Na madrugada de segunda-feira bateu mais um. Frente aos New Orleans Pelicans, Curry fez 13 triplos, algo que nenhum humano havia conseguido na história da NBA. Pelo caminho, os Warriors, super-equipa que ninguém está a ver fora da final da liga (apesar de já terem duas derrotas), somaram mais uma vitória (116-106), com Curry a marcar um total de 46 pontos. Coisa pouca.

O rapaz de 28 anos que muitas universidades desdenharam por ser “muito baixo e muito magro” (tem 1,91 m e 86 kg, o que não é propriamente a imagem de um lingrinhas), vai a caminho de se tornar o melhor atirador da história do jogo. É para isso que ele treina todos os dias. Um dos seus exercícios preferidos é lançar 100 vezes de cinco pontos diferentes do campo. Também é normal vê-lo driblar ao mesmo tempo uma bola de basquetebol com o peso regulamentar e uma com peso muito superior. Ou então uma bola de ténis. Tudo pela destreza dos movimentos.

Os resultados vêem-se nos recordes. O de mais triplos numa só época regular é dele: 402 na última temporada. O anterior máximo… também era dele (286 em 2014/15) e o 4.º lugar na lista também lhe pertence (272 triplos em 2012/13). Já o recorde de triplos num só jogo, que estava nos 12, também era de Curry, mas o base dos Warriors partilhava o feito com outros dois jogadores: Donyell Marshall, que chegou à dúzia enquanto jogador dos Raptors, num jogo frente aos Sixers, em 2005, e um tal de Kobe Bryant, que atirou também 12 triplos em 2003, num encontro frente aos defuntos Sonics de Seattle.

Agora, Curry é o único rei no trono.

Uma resposta à lei da bomba

O recorde chegou no jogo que se seguiu a uma das piores exibições de Curry no último par de anos. Na sexta-feira, o atirador não só não evitou uma humilhante derrota dos super-Warriors contra os Lakers, como pela primeira vez em 157 jogos não conseguiu marcar um triplo. Tentou 10 vezes, nem um entrou.

Steph Curry fazendo, bem, aquilo que melhor sabe

Steph Curry fazendo, bem, aquilo que melhor sabe

Ezra Shaw/Getty

A resposta foi devastadora e ao estilo de Curry, ou seja, aquele estilo rapidíssimo no tiro, que não precisa de espaço ou do melhor enquadramento para lançar. Dos 13 triplos, uns surgiram após passes imperfeitos de colegas, outros com Curry a não temer a oposição de um, dois adversários. Ou após tropeções. O último, o tiro do recorde, chegou quando faltavam ainda dois minutos para o fim do jogo. Curry tinha dois defesas dos Pelicans à sua frente, mas nem isso travou a viagem da bola direitinha até ao cesto. Splash!

Sabem aqueles lançamentos que desafiam as regras do bom basquetebol e têm tudo para não entrar? Com Curry isso não existe, apesar do atual MVP da NBA garantir que tudo é uma questão de ritmo.

“Normalmente esses triplos impossíveis surgem depois de já ter feito dois ou três, porque já estou no ritmo”, sublinhou após o jogo. Já sobre o recorde, Curry garante que estava na sua cabeça desde que tinha igualado Marshall e Kobe, em fevereiro deste ano: “Perguntava-me o que era preciso para chegar aos 13. Olhando para o caminho que a liga está a levar, não sei se o recorde vai durar muito, mas é sempre bom ele ser meu”.

Tão natural quanto o recorde não durar muito é ser o próprio Curry a batê-lo. Curry, o mais bailarino dos basquetebolistas. “Ele nem sequer está a tentar fazer algo bonito. O treinador de certeza que não o ensinou a ‘aterrar’ depois de lançar. É inato. Todo o seu corpo sabe o que fazer quando está no ar e quando cai”, disse em tempos Graham Lustig, diretor da Companhia de Ballet de Oakland, que não se importava nada de roubar o MVP para a dança.

Veja aqui os 13 triplos de Stephen Curry frente aos New Orleans Pelicans: