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Este 21 ninguém mais vai usar: a camisola de Tim Duncan é retirada pelos Spurs

Tim Duncan disse adeus à NBA no final da última temporada com uma mão-cheia de títulos, todos pelos San Antonio Spurs. Domingo, a anti-estrela terá o seu nome imortalizado pela sua equipa de sempre, ele que em miúdo treinava para ser nadador olímpico na única piscina de 50 metros das Ilhas Virgens americanas. Até que um furacão lhe virou a vida do avesso...

Lídia Paralta Gomes

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Tim Duncan nos festejos do seu 5.º e último título da NBA. Sem o carisma de um Kobe ou a grandiosidade de um Jordan, o extremo que passou toda a carreira nos San Antonio Spurs (1997-2016) é ainda assim um dos melhores de sempre da liga norte-americana de basquetebol. Este domingo terá a sua camisola n.º 21 retirada

Andy Lyons/Getty

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Era uma vez um furacão chamado Hugo. Em setembro de 1989, Hugo chegou em força às Antilhas deixando, como bom furacão nível 4 que era, um rasto de destruição. Na ilha de Saint Croix, a principal das Ilhas Virgens americanas, a única piscina olímpica fica feita em pedaços. Era nela que um miúdo pré-adolescente treinava como um louco, piscina atrás de piscina, 50, 100, 400 metros livres, com a cabeça em Barcelona e nos Jogos Olímpicos que ali se iriam realizar em 1992.

Sem a piscina, os treinos mudam para o mar, mas o miúdo pré-adolescente tem pavor dos tubarões e começa a esquivar-se. Além disso, na sua cabeça está a mãe, doente, com um cancro da mama que a vai levar deste mundo em breve. O miúdo pré-adolescente é esperto que nem um alho mas, mais que isso, é sensível. Aos 8 anos os professores colocam-no uma classe à frente porque é mais brilhante que os outros. Sempre seria, dentro daquela discrição imperturbável. Antes de morrer, na véspera do miúdo pré-adolescente completar 14 anos, a mãe Ione fá-lo prometer que vai estudar, tirar um curso universitário, “ser o melhor”.

Ele cumpriu tudo. Até ser o melhor. Mas não foi na natação, porque um dia o basquetebol cruzou-se no seu caminho.

O miúdo pré-adolescente tem hoje 40 anos e chama-se Tim Duncan. Tem em casa cinco anéis de campeão da NBA e este domingo verá a sua camisola de sempre, com o número 21, subir ao topo do pavilhão dos San Antonio Spurs, durante o jogo frente aos New Orleans Pelicans. Perdeu-se um nadador, ganhou-se um basquetebolista. E dos grandes. Agradeçam ao Hugo.

Tim Duncan anunciou no final da época passada o adeus à NBA após 19 temporadas nos San Antonio Spurs, equipa que revolucionou mal tocou terras texanas, em 1997, o ano em que foi o número 1 do draft. A história dos Spurs confunde-se com a própria história de Duncan, já que os cinco títulos do franchise foram todos ganhos com “The Big Fundamental” no plantel e com o número 21 ao peito.

Também o 21 tem a sua história, a história de como o basquetebol entrou na vida de Duncan. Depois da morte da mãe, Timmy recebeu da irmã mais velha uma tabela de basquetebol. Com a cabeça longe da natação, Duncan encontrou conforto naquele presente: tinha já 14 anos quando tocou numa bola de basquetebol pela primeira vez e foi o cunhado Ricky quem lhe ensinou os principais movimentos. Ricky era um antigo base de uma equipa universitária norte-americana e usava o 21, número que Duncan decidiu honrar durante toda a carreira.

Duncan tocou pela primeira vez numa bola de basquetebol aos 14 anos

Duncan tocou pela primeira vez numa bola de basquetebol aos 14 anos

Chris Graythen/Getty

Um caminho improvável

Começar a jogar basquetebol foi, assim, uma casualidade. Ver o seu nome chegar aos Estados Unidos também foi. É como se o caminho de Tim Duncan até à NBA fosse um conjunto de coincidências. E se Chris King, então jogador dos Seattle SuperSonics, não tivesse sido convidado para fazer parte de uma equipa de jovens jogadores norte-americanos que em 1992 partiu para as Ilhas Virgens americanas numa tour solidária, talvez este texto nunca tivesse existido.

Ao regressar aos Estados Unidos, Chris King passeava pela Universidade de Wake Forest, onde tinha jogado, quando o seu antigo treinador Dave Odom lhe perguntou se tinha visto por St. Croix algum miúdo interessante, nos vários encontros de exibição que tinha feito. A pergunta era quase retórica, só para fazer conversa, mas King falou-lhe então de um tímido e calado rapaz de 16 anos, estupidamente ágil para a sua altura (mais de dois metros), e de como esse rapaz tinha metido a futura estrela da NBA Alonzo Mourning num bolso. Em menos de nada, Odom estava nas Ilhas Virgens americanas para ver in loco o fenómeno. Numa era em que a internet ainda era uma raridade, descobrir jogadores com potencial exigia estar no local e uma certa dose de fé.

Odom não ficou totalmente impressionado. Duncan parecia-lhe ter um talento natural, mas um talento em bruto. Ainda assim, ofereceu-lhe uma bolsa para jogar basquetebol em Wake Forest. E aqui, nova casualidade: não era suposto Duncan jogar na primeira época na universidade localizada na Carolina do Norte, mas quando Odom se viu privado de dois jogadores por questões de elegibilidade académica, deu a titularidade a Duncan. “Ele marcou só um ponto, se não me engano. Mas fez três ou quatro desarmes de lançamento e apanhou seis ressaltos. Na noite seguinte, um bocadinho melhor. E na noite seguinte a essa, melhor ainda”, contou o técnico ao “The Washington Post”. E de repente, o miúdo franzino, de talento cru e que devia ter sido nadador olímpico, era o melhor jogador universitário do país.

Tim Duncan é um dos raros casos de atletas que optaram por ficar quatro anos na universidade

Tim Duncan é um dos raros casos de atletas que optaram por ficar quatro anos na universidade

Doug Pensinger/Getty

Em 1997 chegou à NBA e o resto é história: além dos cinco títulos (em 1999, 2003, 2005, 2007 e 2014), Tim Duncan terminou a carreira com 1072 vitórias e 438 derrotas na fase regular. Fazendo as contas, são 71% de triunfos, a melhor percentagem da história não só da NBA como das restantes grandes ligas norte-americanas, a NFL (futebol americano), a NHL (hóquei no gelo) e MLB (baseball), no mesmo período.

O extremo de 2,11 m e 113 quilos foi ainda por duas vezes considerado o MVP da temporada (2002 e 2003) e por três vezes o melhor jogador das finais (1999, 2003 e 2005). Só indicações para o All-Star Game foram 15, em 19 possíveis. Quase cansa ler a lista de feitos de Tim Duncan, um gigante de pés ligeiros, com um ar pachola que só enganava: a técnica e sentido posicional faziam de Duncan letal tanto a atacar como a defender. Em suma, provavelmente o melhor extremo-poste da história da jogo.

Primeiro os estudos, pela mãe

Vai para a faculdade, faz um bom ano, agarra-te logo que possas aos milhões que a NBA te vai dar, porque a carreira é curta, azares acontecem e não há tempo a perder. Este é o percurso natural para qualquer bom jogador de basquetebol. A não ser que o teu nome seja Tim Duncan.

Voltemos atrás. Antes de morrer, a mãe de Tim Duncan fez o filho prometer que tiraria uma licenciatura. Quando chegou a Wake Forest, além do basquetebol, Tim evidenciou-se no curso de psicologia - é até um autor publicado na sua faculdade, onde também teve aulas de antropologia e literatura chinesa... -, mas a cada final de ano letivo o chamamento da NBA era forte. Duncan surgia sempre nas contas como n.º 1 do draft e quando se tem a oportunidade de ser n.º 1 do draft normalmente não se diz não, porque com isso chega a fama e o dinheiro. Mas a promessa feita à mãe era mais importante e Duncan esperou até terminar o curso; só aí indicou o seu nome para o draft. Sinais de um atleta diferente.

Além do currículo, Tim Duncan é recordado como um excelente colega e em 2015 foi mesmo galardoado com o Prémio Twyman-Stokes, distinção para o melhor companheiro de equipa da NBA. Apesar de ser um dos melhores de sempre, Duncan nunca precisou de contratos astronómicos e sempre olhou para as necessidades dos San Antonio Spurs, que foram ao longo dos anos construindo equipas capazes de chegar ao título - os Spurs nunca falharam os playoffs com Duncan no plantel, até porque foi possível manter jogadores como Tony Parker ou Manu Ginobili. Sobre Tim não há escândalos ou extravagâncias, ele que nunca teve nem nunca quis ter o carisma de um Kobe Bryant ou de um LeBron James ou a grandiosidade universal de um Michael Jordan. Aliás, o guarda-roupa pouco vistoso de Duncan foi, até à sua retirada, motivo de brincadeiras na NBA (um bom exemplo disso AQUI).

E até na hora da despedida, Duncan foi distinto. Tudo aconteceu a uma segunda-feira, com um simples comunicado, sem declarações. Não houve jogo de despedida (ou uma tour, como no caso de Kobe, também ele retirado este ano e com quem vai partilhar o Hall of Fame em 2021), nem celebrações. Disse apenas adeus, discretamente, sem fogo de artifício. Igual a si próprio, portanto. Agora, o seu nome e número serão imortalizados.

Veja aqui as melhores jogadas da carreira de Tim Duncan:

E o que vamos sentir falta sem Tim Duncan na NBA: