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O destravado Russell Westbrook acaba de igualar um recorde de 55 anos

O base dos Oklahoma City Thunder fez na noite de terça-feira o 41.º triplo-duplo da temporada, feito que apenas Oscar Robertson tinha conseguido, já na longínqua época de 1961/62. O mais intenso dos jogadores da liga norte-americana tem agora cinco jogos para bater o recorde e também para se tornar no segundo jogador a terminar uma temporada regular com média de triplo-duplo. O primeiro e único foi... Robertson

Lídia Paralta Gomes

Mark D. Smith/USA TODAY SPORTS

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“Olá. Sê bem-vindo. Puxa de um banco. Amarra um lenço à volta da cabeça. Injeta esta droga que ainda não tem nome, sacada de uma árvore secreta da Amazónia, mesmo na jugular. Vê aquela cena filmada num único take do assalto ao esconderijo de droga do True Detective 15 vezes seguidas. Lê o 'Delírio em Las Vegas' de trás para a frente. Mete Bad Brains a tocar. Consegues sentir? Sabes o que isto é? Isto é liberdade. Bem-vindo à Igreja do Russell Westbrook”.

Em 2014, no defunto site Grantland, Chris Ryan escreveu aquela que será muito provavelmente a melhor descrição possível para o basquetebol de Russell Westbrook. Ele é meio louco, meio destravado, sempre à procura daquilo que mais ninguém teria coragem para fazer.

E se às vezes isso se traduz em lançamentos absolutamente imprudentes em alturas decisivas - porque os loucos vão ser loucos -, outras terminam com feitos que muito poucos conseguiram.

Como o que aconteceu na noite de terça-feira, a noite em que Russell Westbrook fez o 41.º triplo-duplo da época, igualando o registo de Oscar Robertson. De há 55 anos.

E quando faltam ainda cinco jogos para acabar a temporada regular - e tendo em conta que o base dos Oklahoma City Thunder de 28 anos fez triplos-duplos em mais de metade dos jogos da época - é altamente improvável que o recorde não caia mesmo.

Um triplo-duplo acontece quando um jogador consegue cifras de dois dígitos em três estatísticas de jogo - o que é assim mais ou menos como ser muito bom no decatlo, mas em apenas 48 minutos e sempre a grande velocidade. É preciso ser bom a lançar, a assistir os colegas e a ir lá acima buscar os ressaltos. E se Russell Westbrook já o era em temporadas anteriores, foram as circunstâncias que este ano o tornaram numa máquina de fazer tudo.

Sem Durant, sem problema

A história deste feito de Westbrook, conseguido ainda no 3.º período da vitória dos Thunder frente aos Bucks, por 110-79, é também a história de uma dupla que se desfez.

Os Thunder são uma equipa de um pequeno mercado, de uma cidade da qual só nos lembraríamos porque nos anos 90 um maluco resolveu detonar uma bomba em frente a um edifício federal, matando mais de 160 pessoas. Mas quando os Sonics se mudaram para Oklahoma City, a cidade passou a ser a cidade dos Thunder e da dupla mais fascinante da NBA: Kevin Durant e Russell Westbrook. O primeiro alto, esguio, talentoso mas cerebral, incapaz de fazer mal a uma mosca. O segundo mais pequenote mas 10 vezes mais atlético, mais rápido, desvairado, hiperativo, com molas nos pés, cheio de personalidade.

Westbrook e Durant eram companheiros desde 2008. Até que Durant bateu com a porta e foi para os Warriors

Westbrook e Durant eram companheiros desde 2008. Até que Durant bateu com a porta e foi para os Warriors

J Pat Carter/Getty

Por uma razão ou outra, o título nunca chegou. Ou porque não eram experientes o suficiente, ou pelas lesões que foram aparecendo. E Durant cansou-se de não ganhar. No final da última época, em que os Thunder caíram na final da Conferência Oeste, desperdiçando uma vantagem de 3-1 para perder por 4-3 frente aos Warriors, o extremo fez as malas e mudou-se precisamente para Oakland, casa dos Golden State.

Westbrook sentiu-se traído. O seu companheiro de sempre virava costas à equipa e à cidade. E quando tudo indicava que o base iria também para outras paragens, à procura de uma formação que lhe desse mais hipóteses de lutar pelo título, Westbrook resolveu ficar e assumir. E sem Durant, ele resolveu jogar por dois.

É certo que os Thunder de 2017 não são exatamente os Thunder de 2016, mas quando todos apostavam na queda até às catacumbas da Conferência Oeste, Westbrook levou Oklahoma City às costas até a um lugar nos playoffs, que já está garantido.

E quando falamos em levar Oklahoma City às costas, não estamos a falar só da equipa. Falamos também de uma comunidade ferida, que se agarrou à sua equipa com a maior paixão desde o dia em que os Sonics para ali se mudaram, em 2008 - os Thunder são uma das equipas da NBA com melhor média de assistência no seu pavilhão.

Foi por isso para eles, a comunidade, o primeiro agradecimento de Westbrook, que depois de na mesma jogada conseguir o ressalto e a assistência que lhe faltavam para o 41.º triplo-duplo da temporada (acabaria o jogo com 12 pontos, 13 ressaltos e 13 assistências), cruzou os pés e subiu a mão para o seu público.

Eles responderam gritando “MVP, MVP!”

“Só quero aproveitar o momento, porque são estes os momentos que queres festejar e dizer ao meu filho que vai nascer quando ele crescer”, atirou o base no final do jogo, ele que muitas vezes oferece respostas monossilábicas aos jornalistas, mas ontem abriu uma exceção porque dias não são dias.

Agora há mais um par de recordes ali à mão de semear para Westbrook: caso faça triplos-duplos nos próximos dois jogos, iguala Wilt Chamberlain, que em 1967/68 fez 9 seguidos.

E, mais importante, terá apenas de fazer 16 assistências nos cinco jogos que faltam para terminar a temporada regular com médias de triplo-duplo, algo que só aconteceu uma vez na história: precisamente em 1961/62 e precisamente por Oscar Robertson. Este ano, Westbrook já conta com sete jogos em que fez mais de 16 assistências, pelo que não será difícil.

Doido em campo, um rapaz normal fora dele

Com Westbrook em campo tudo pode acontecer. Ele é imprevisível, tem aquilo que os norte-americanos chamam de grit, ou seja, aquela aspereza de quem é duro que nem uma pedra e é capaz de abocanhar o mundo, contra tudo e contra todos, corra bem ou corra mal.

É por isso que Kobe Bryant vê nele uma espécie de sucessor. “Quando ligo a TV, o jogador que joga com o mesmo tipo de emoção e intensidade competitiva que eu tinha é o Russell. Ele é duro, não interessa contra quem ele está a jogar, não interessam as hipóteses, ele é o tipo de gajo que vai dar 110% em todos os jogos”, disse o cinco vezes campeão pelos Lakers.

Mas se dentro de campo, ele é o diabo, cá fora é um rapaz normal, cujas extravagâncias cabem todas dentro de um guarda-roupa - e vale muito a pena olhar para os modelitos do base. Não lhe são conhecidos problemas ou escândalos e é membro ativo da comunidade de Oklahoma City: não é raro vê-lo em ações de solidariedade com crianças e através da sua fundação tem patrocinado a criação de salas de leitura nas escolas primárias do estado de Oklahoma.

Quanto à família, sempre foi discreto. É casado desde 2015 com Nina, a namorada desde os tempos em que ambos eram atletas na Universidade de Los Angeles e vai ser pai pela primeira vez em maio.