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Cavaliers vs. Warriors: um guia para a final que toda a gente sabia que ia acontecer

O que fizeram para chegar aqui? Que histórias vão estar na ordem do dia? O que vai mudar face aos últimos dois anos (ou, como quem diz, face às duas últimas finais)? Vai LeBron James aproximar-se de Jordan ou Kevin Durant agarrar o primeiro anel? Cleveland Cavaliers e Golden State Warriors arrancaram a época como super-favoritos e começam hoje, sem surpresas, a discutir o título da NBA

Lídia Paralta Gomes

Ron Schwane - Pool/Getty

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Foi uma das pessoas que apostou que a final da NBA seria Cleveland Cavaliers-Golden State Warriors? Não vale a pena gabar-se aos amigos: desde o arranque da época que ninguém esperava outro cenário. De tal forma que temos este texto escrito desde outubro. OK, não temos, mas bem que podíamos ter adiantado trabalho. Afinal de contas, há três temporadas que Cavaliers e Warriors dominam a liga que alberga o melhor basquetebol do mundo e pelo terceiro ano consecutivo vão digladiar-se pelo troféu Larry O’Brien.

Para já, nesta particular rivalidade que tem marcado a segunda parte da década e deverá previsivelmente dominar o que resta dela, há um título para cada lado: a equipa californiana venceu em 2015 e os rapazes do Ohio levantaram a taça pela primeira vez na história do franchise no ano passado. As finais de 2017 serão, assim, de desempate e esse é desde logo o primeiro motivo para esfregarmos as mãos. Mas há mais.

O primeiro jogo das finais da NBA acontece esta madrugada na Oracle Arena de Oakland, a partir das 2h00 (SportTV1). Até lá tem algumas horas para se preparar e ficar a saber tudo o que é necessário antes de atestar a caneca de café e perder várias noites de sono nas próximas semanas.

A caminhada até à final

Sem grande surpresa, o caminho das duas equipas desde a primeira ronda dos playoffs até às finais foi tão atribulado quanto um passeio à beira-mar num morno final de tarde. Ao ponto dos Warriors chegarem à eliminatória decisiva com um registo inédito: desde a mudança do formato dos playoffs, em 2003, que nenhuma equipa havia atingido a final com 12 vitórias e sem qualquer derrota.

Significa então que a rapaziada do norte da Califórnia aplicou três belas “varridelas” - termo usado do outro lado do Atlântico cada vez que uma equipa vence todos os jogos de uma ronda de playoff. A primeira vítima foram os Portland Trail Blazers, a segunda os Utah Jazz e a terceira uns San Antonio Spurs muito fragilizados após a lesão de Kawhi Leonard.

Sem Leonard, os Spurs foram presa fácil para Golden State

Sem Leonard, os Spurs foram presa fácil para Golden State

Ronald Cortes/Getty

Os Cavs não fizeram muito pior: chegam à final com um registo praticamente imaculado de 12 vitórias e apenas uma derrota, depois de uma temporada regular em que nem tudo correu às mil maravilhas. Algumas peças da equipa campeã não foram bem substituídas e o início de 2017 foi particularmente complicado: em janeiro, por exemplo, os Cavaliers sofreram 8 derrotas e venceram apenas 7 jogos, levando um furibundo LeBron James a criticar abertamente a falta de profundidade do roaster.

À conta dos 31 desaires sofridos, os Cavs terminaram a época regular num escandaloso 2.º lugar, mas nos playoffs mostraram que a prata foi apenas um acidente de percurso - ou, suspeitamos, LeBron a descansar para os jogos que realmente interessam. Na fase a eliminar, Cleveland começaram por “varrer” os Pacers, ainda que os quatro jogos tenham sido renhidos, e na 2.ª ronda despacharam os Toronto Raptors também por 4-0.

A única derrota nos playoffs chegou no 3.º jogo da final da Conferência Este, frente aos Boston Celtics, no único jogo mau de LeBron nas últimas semanas - marcou apenas 11 pontos.

Uma inédita terceira final consecutiva entre Cavs e Warriors...

E de forma tão previsível quanto historicamente improvável se chegou à terceira final consecutiva entre Cleveland Cavaliers e Golden State Warriors, um registo inédito na NBA. Nem mesmo entre os anos 50 e 60 (e depois nos anos 80), quando a liga era basicamente uma luta de galos entre os Celtics e os Lakers e a equipa de Boston chegou a 10 finais seguidas algo de semelhante aconteceu.

Jason Miller/Getty

É preciso recuar à década de 50 para assistir a uma tripla final com as mesmas equipas numa das principais ligas profissionais norte-americanas: na NHL, liga de hóquei no gelo, Canadiens e Red Wings jogaram as finais de 1954, 1955 e 1956.

… e LeBron (e James Jones) na sétima final seguida

Tão ou mais impressionante que as três finais consecutivas entre Cavs e Warriors é o feito de LeBron James. A estrela de Cleveland vai jogar a oitava final da carreira e sétima seguida. O mesmo quer dizer que desde 2011 que todas as finais da NBA têm um denominador comum: King freaking James.

Depois de quatro anos de exílio estival em Miami, que redundou em quatro finais, dois anéis e estatuto de vilão da NBA, James voltou ao seu Ohio natal para finalmente dar um título aos Cavaliers. E se no primeiro ano em Cle Cle Land, um desacompanhado LeBron (Kyrie Irving e Kevin Love lesionaram-se durante os playoffs) esbarrou nas finais com os então emergentes Golden State Warriors, na última temporada assumiu a responsabilidade e virou um 1-3 para 4-3, pela primeira vez na história da liga.

O duelo Golden State-Cleveland é, assim, um confronto de impossibilidades históricas quebradas: desde 1978 que nenhuma equipa vencia o jogo 7 fora de casa. E tal aconteceu porque LeBron sacou disto a menos de dois minutos do fim.

LeBron James durante as finais da Conferência Este, frente os Celtics

LeBron James durante as finais da Conferência Este, frente os Celtics

Elsa/Getty

Agora, vem a final número 7, algo que só tem paralelo com os Celtics de Bill Russell, que nos anos 60 chegaram a 10 finais seguidas. Mas fazê-lo por duas equipas, só King James.

Alto, só King James nada. É que há outro jogador que vai jogar a 7.ª final consecutiva. Chama-se James Jones e é um dos fiéis escudeiros de LeBron, que não abdicou dele em Miami e o levou para Cleveland. E tudo isso não pelo que joga - até porque é coisa que faz pouco - mas por ser um líder de balneário: já foi várias vezes considerado o melhor colega de equipa da liga e é tão de confiança que o nomearam para tesoureiro da Associação de Jogadores da NBA.

Kevin Durant e um primeiro título necessário para calar alguns

Foi a história do defeso. Cansado de estar lá perto mas nunca ganhar, Kevin Durant lançou a bomba, trocando os Oklahoma City Thunder e a parceria com Russell Westbrook, que dava espectáculo mas títulos, bola, para rumar aos Golden State Warriors e juntar-se a Stephen Curry e Klay Thompson.

Tirando a quem mora ali nas imediações da Golden Gate, a mudança do extremo de 28 anos não caiu nada bem. Ao trocar a sua equipa de sempre pela equipa que a havia afastado das finais de 2016, Durant foi acusado de cobardia e de não olhar a meios para atingir os fins: o fim de não acabar a carreira na infame lista de grandes jogadores que nunca venceram um título.

“Adorava voltar atrás, ligar ao Michael Jordan, ao Larry Bird e ao Magic Johnson e dizer-lhes ‘bora lá dominar a liga’”, disse na altura Charles Barkley, um dos grandes que nunca soube o era ganhar um anel e um dos que acusou Durant de tomar atalhos para vencer um título.

Durant trocou os Thunder pelos Warriors à procura de agarrar o seu primeiro anel

Durant trocou os Thunder pelos Warriors à procura de agarrar o seu primeiro anel

Ezra Shaw/Getty

Apesar de uma lesão que o afastou durante mais de duas dezena de jogos durante a temporada regular, a verdade é que a presença de Durant tornou a equipa californiana mais sólida a defender e com mais soluções a atacar. Os Golden State Warriors já não são a equipa dos recordes de vitórias ou dos triplos de Curry mas, curiosamente, parecem muito mais perigosos - e é por causa dele que os Warriors parecem mais favoritos que os Cavs nestas finais.

Tudo isso é muito bonito e fica muito bem nos livros de estatística, mas só há uma condição para calar aqueles que o criticaram há dez meses: Durant tem de ganhar o título. E haverá muita gente contra ele. Em tempos um dos meninos bonitos da NBA, pela sua humildade e zero vocação para estrela mediática, a mudança para a Califórnia tornou o extremo no Darth Vader da liga.

“Nunca me senti tanto debaixo de um microscópio. E nunca senti que… como é que posso dizer isto? Nunca senti que tanta gente estivesse à espera que eu falhasse”, admitiu à rubrica The Vertical da Yahoo! Sports.

As caras novas que podem mudar o filme

A mudança de Kevin Durant, embora de longe a mais impactante, não é a única se analisarmos as formações que no último ano jogaram a final.

Olhando para o cinco inicial de Golden State, saíram Harrison Barnes e Andrew Bogut, efeitos colaterais da entrada de Durant (ou como quem diz, não há dinheiro para todos). Para colmatar várias saídas, entraram outros tantos homens experientes, como Zaza Pachulia, David West e Matt Barnes, todos com mais de uma dúzia de anos de experiência na NBA.

Já Cleveland não perdeu nenhuma peça importante no cinco inicial e para acabar com as queixas de LeBron foi a meio da época buscar Deron Williams (e que luxo é ter Deron Williams como backup de Kyrie Irving) e Kyle Korver (provavelmente o melhor triplista da liga - a seguir a Curry, claro) para o banco. O cinco inicial não deu um salto de qualidade, até porque com James, Irving e Love não há muito por acertar -, mas a segunda linha tem mais poder de fogo.

Assim, estas finais terão uma versão melhorada de Cavaliers e Warriors, ainda que os últimos pareçam um bocadinho mais melhorados que os rivais do Ohio.

LeBron e Jordan, mais próximos ou incomparáveis?

Quando no início da época LeBron James admitiu que andava “a perseguir um fantasma” não foi para nos informar que se havia dedicado ao esoterismo nem que o Ghostbusters se tinha tornado real.

Não, LeBron não surtou. O fantasma vive em Chicago e chama-se Michael Jordan.

Jordan e LeBron, ainda nos tempos de James em Miami

Jordan e LeBron, ainda nos tempos de James em Miami

Streeter Lecka/Getty

Podemos dizer que os adeptos da NBA podem ser colocados em dois grupos: os que nem querem ouvir falar de comparações entre LeBron e Jordan e aqueles que, ainda de forma relutante, estão abertos a essa possibilidade.

Falando em números puros e duros, LeBron ainda está a uma certa distância de His Airness: caso vença o anel este ano, fica ainda a dois dos seis de Jordan, que venceu todas as finais que disputou, ao contrário de LeBron, que tem mais derrotas (4) que vitórias (3) na série decisiva.

O antigo jogador dos Bulls tem ainda mais um prémio de MVP (5) que LeBron, mas já durante estes playoffs James ultrapassou o ídolo em pontos marcados na fase a eliminar. Os puristas dirão que Jordan precisou apenas de 179 jogos para chegar aos 5897 pontos, registo que James ultrapassou em 212 encontros. Por outro lado, ‘King’ James precisou de menos lançamentos (4379) que Jordan (4497) para lá chegar.

Picuinhices à parte, os títulos de campeão contam muito para esta discussão e LeBron não tem muito tempo a perder. Aos 32 anos, o extremo dos Cavs sabe que precisa de vencer ainda quatro títulos para suplantar o currículo de MJ. E mesmo para quem tem corpo de um jovem de 19 anos (a confiar nas palavras do técnico dos Cavs Tyronn Lue e nos rumores de que James gasta qualquer coisas como 1,5 milhões de dólares anuais em cuidados com o físico), não será exatamente tarefa fácil.

Para já, LeBron vai tentando fazer o caminho do ídolo maior. Além de usar o mesmo número (23) e de já ter ideias de ser dono de uma equipa da NBA no futuro, James deverá ser o protagonista da sequela de Space Jam, também conhecido como “o melhor filme de desporto de todos os tempos”.

Horários

Contadas as histórias e curiosidades, ficam os horários (em Portugal Continental) do Volume III da saga Golden State-Cleveland, que arranca esta madrugada em Oakland:

2 de junho - Golden State-Cleveland, 2h00

6 de junho - Golden State-Cleveland, 1h00

8 de junho - Cleveland-Golden State, 2h00

10 de junho - Cleveland-Golden State, 2h00

13 de junho* - Golden State-Cleveland, 2h00

16 de junho* - Cleveland-Golden State, 2h00

19 de junho* - Golden State-Cleveland, 1h00

* - Se necessário