Tribuna Expresso

Perfil

NBA

Muitos querem que Lonzo Ball falhe e a culpa é do pai

Há muitos e bons anos que nenhum rookie causava tanta sensação. E não é só pelo que Lonzo Ball joga (e parece que é muito), é pela forma como cresceu e, essencialmente, por causa de um pai desbocado e megalómano que tem chamado a si todos os ódios e embirrações possíveis: num dia diz que o filho é melhor que Stephen Curry, no outro que nos seus tempos daria uma coça em Michael Jordan. O filho, para já, parece imune a tudo e foi a grande estrela da Summer League da NBA

Lídia Paralta Gomes

Minhas senhoras e meus senhores, Lonzo Ball, o rookie de quem se fala

Ethan Miller/Getty

Partilhar

A história de Lonzo Ball não começa no dia em que os Lakers, os seus Lakers, o escolheram no 2.º posto do último draft. Nem sequer no dia em que foi eleito para a equipa dos melhores de 2017 do basquetebol universitário. Ou quando foi considerado o melhor jogador do ensino secundário em 2016, depois dele e dos seus irmãos mais novos, LiAngelo e LaMelo, levaram a equipa da escola de Chino Hills, na Califórnia, ao título estadual, numa caminhada em que venceram 35 jogos e perderam zero.

A história de Lonzo Ball, the next big thing da NBA, ou pelo menos o rookie mais mediático que a liga de basquetebol dos Estados Unidos viu nascer nos últimos anos, começou muito antes. Começou no dia em que LaVar Ball, pai de Lonzo (e de LiAngelo e LaMelo), rapaz para o seu 1,98 m, viu Tina, moça com 1,80 m, nos corredores da Universidade de Cal State Los Angeles, onde ambos jogavam basquetebol, e percebeu que ali estava a peça que faltava para iniciar o seu plano para dominar o mundo do desporto.

Isto parece estranho e um pouco desprovido de sentimentos. Mas mais estranho fica contado, sem pudores, pelo próprio LaVar, o desbocado, estridente, espalhafatoso, talvez louco, talvez visionário pai do base que acabou de se tornar no jogador mais valioso da Summer League da NBA, uma espécie de torneio de pré-época em que os novatos têm oportunidade para se mostrar pela primeira vez após o draft.

“Isto era algo que estava planeado há muito tempo. Porque eu sabia o que ia acontecer se juntasse dois jogadores de basquetebol”, disse LaVar à CBS Sports. “É por isso que casei com a minha mulher. Mesmo antes dos meus filhos saírem da barriga eu disse ‘vou ter três’. E olhando para a minha constituição e a constituição dela, sabia que iam ser três matadores”.

Ele há formas e formas de se chegar aos objetivos. A genética, para LaVar, é uma delas.

Passaram, portanto, 19 anos desde que o primeiro bebé Ball veio ao Mundo, nos arredores de Los Angeles. Lonzo cresceu forte e desde logo com uma bola de basquetebol nas mãos (já lá vamos).Tem talento, muito até, e isso distingue-o de grande parte dos rapazes de 19 anos aspirantes a basquetebolistas.

Lonzo Ball, num dos jogos da Summer League da NBA, competição em que foi considerado o jogador mais valioso

Lonzo Ball, num dos jogos da Summer League da NBA, competição em que foi considerado o jogador mais valioso

Ethan Miller/Getty

Mas há algo que coloca Lonzo num patamar diferente: não haverá outro rookie na história da NBA a quem tanta gente deseje que as coisas corram mal. E a culpa nem é de Lonzo, miúdo trabalhador, obstinado, de quem todos os treinadores dizem maravilhas.

A culpa, surprise surprise, é de LaVar.

Porque ao mesmo tempo que o filho começava a dar nas vistas, começava também o show de LaVar, para muitos um alucinado, para outros apenas um pai à procura do melhor para os filhos, para George Raveling, antigo treinador e atualmente diretor de marketing da Nike, “a pior coisa que aconteceu ao basquetebol nos últimos 100 anos”.

Melhor que Curry? LaVar diz que sim

Quando chegou aos UCLA Bruins, uma das históricas equipas do basquetebol universitário norte-americano, já Lonzo Ball era um dos prospects com mais potencial do país. E os primeiros jogos só vieram confirmar o talento de Ball: um base alto (1,98m, tal como o pai), bom a lançar, melhor ainda a passar a bola - terminou o ano como líder das assistências a nível nacional.

Desde cedo que Lonzo foi preparado para ser o melhor. LaVar escolheu a mãe dos filhos pelo genes e mal o miúdo veio ao Mundo o destino ficou traçado. “Logo que ele saiu da barriga da mãe eu disse-lhe que ele tinha nascido para ser atleta”, disse LaVar ao Daily Bruin, o jornal de UCLA, quando o filho chegou ao campus da universidade californiana.

LaVar Ball com os filhos mais novos, LiAngelo e LaMelo

LaVar Ball com os filhos mais novos, LiAngelo e LaMelo

Gary A. Vasquez/USA TODAY SPORTS

Lonzo tinha dois anos quando segurou pela primeira vez uma bola de basquetebol, depois do pai lhe comprar uma daquelas pequenas tabelas de plástico que se colocam na sala de estar para os miúdos brincarem. Mas aquela tabela não era para brincar, era mesmo para aprender e desde logo LaVar ensinou a técnica de lançamento ao filho e também a afundar.

A casa dos Ball em Chino Hills, a um par de horas de carro de Los Angeles e construída com o dinheiro que LaVar foi amealhando após passagens pelas equipas de futebol americano dos New York Jets e Carolina Panthers (pelas quais acabou por nunca se estrear na NFL), foi também desde logo preparada para tornar os filhos em máquinas: além de um campo de basquetebol, havia um ginásio equipado com pesos e equipamento para fazer flexões e outro tipo de exercícios.

O ritmo de trabalho era, digamos, pouco convencional e algo exagerado: tinha Lonzo apenas 5 anos quando LaVar o desafiou a fazer uma corrida pelas colinas de Chino Hills com os dois rottweilers da família.

Sim, correr contra dois rottweilers.

Aos 6 anos, enquanto os outros miúdos se limitavam a correr atrás da bola, Lonzo já “driblava e conseguia lançar”, contou o próprio no Daily Bruin. As férias começaram a ser sacrificadas para que os irmãos Ball treinassem. Aos 9 anos, Lonzo já jogava com rapazes quatro e cinco anos mais velhos. Aos 12 anos, já Lonzo pensava na NBA e daí para cá, dizem os que lhe são mais próximos, jogar na melhor liga de basquetebol do mundo tornou-se uma espécie de obsessão: Lonzo raramente sai do ginásio ou do campo e poucos interesses lhe são conhecidos. Ocasionalmente joga consola com os irmãos e, tal como muitos miúdos da sua idade, gosta de rap e hip-hop.

(Episódio paradigmático do que é ser Lonzo Ball: após uma viagem à Austrália com a equipa de UCLA no último ano, para uma série de jogos de exibição, Lonzo queixou-se por ter de fazer uma série de “cenas de turista”, tal como disse à ESPN. “Fomos a, sei lá, 10 jardins zoológicos diferentes e foi só andar e fazer visitas. Não gosto disso, acho que é uma perda de tempo. Para ser honesto, podia ir à internet e ver tudo isso. Só queria estar no hotel até à hora do treino.”)

Jamie Squire/Getty

Os bons primeiros jogos que fez pelos Bruins aguçaram o apetite de muitos olheiros de equipas da NBA que passaram a ser presença habitual nos jogos de UCLA, que entretanto também ofereceu bolsas aos mais novos LiAngelo e LaMelo. De repente, o plano de LaVar - fazer dos Ball uma espécie de dinastia do basquetebol - começava a dar certo e antes do March Madness, a megalómana final do campeonato universitário, à qual UCLA chegou como uma das favoritas, LaVar avisou o mundo: “Vou dizer-vos já: ele é melhor que o Stephen Curry. Ponham o Curry em UCLA e o meu rapaz nos Warriors e vejam o que acontece”.

Dizer que alguém que nunca sequer jogou um encontro como profissional é melhor que um duas vezes campeão e duas vezes MVP da NBA é obra. Ou uma loucura.

Mas LaVar foi ainda mais longe: “Nos meus dias, eu daria uma coça ao Michael Jordan num um-para-um”. O que desde logo é uma heresia, tendo em conta que estamos a falar de Michael Jordan, mas piora no sentido em que, nesses tais dias, LaVar andava a fazer médias de 2,2 pontos na Universidade de Washington State e Jordan de 32,5 nos Chicago Bulls.

Uma questão de marketing?

As declarações cheias de presunção e arrogância de LaVar foram recebidas pelo público com um misto de escândalo e revolta e, ao mesmo tempo que crescia o mediatismo de Lonzo, aumentou também a antipatia pelo clã Ball. Steve Kerr, treinador dos Golden State Warriors, alertou para os perigos da atitude de LaVar: “Continua a ter manchetes e acredito que é isso mesmo que ele quer. Mas não acho que isso ajude os filhos. O melhor é que joguem e se divirtam sem ter de ouvir coisas desse género todos os dias”.

John Wall, base dos Washington Wizards, frisou que muitos jogadores gostam de colocar os rookies no seu lugar quando estes chegam à liga e que as declarações de LaVar vieram “colocar ainda mais gasolina na fogueira”, antevendo dificuldades acrescidas para Lonzo nos seus primeiros tempos na NBA.

Mas nem com os alertas de um antigo jogador e técnico campeão da NBA e de um atual all-star LaVar parou a sua espiral de loucura. E quando empresas como a Adidas, Nike ou Under Armour tentaram oferecer contratos na ordem dos 1,3 milhões de euros/ano para que Lonzo usasse as suas sapatilhas, LaVar fixou um preço um pouco diferente: 1 mil milhão de dólares por 10 anos e para os três irmãos. Para se ter um termo de comparação, 1 mil milhão de dólares é aquilo que a Nike está a pagar a LeBron James por um contrato vitalício.

Escusado será dizer que todas as marcas declinaram o modesto número de LaVar e poucos dias depois o excêntrico patriarca apresentou as primeiras sapatilhas da Big Baller Brand (BBB), marca que criou no ano passado. BBB, três B’s, um para cada irmão Ball. Ao que tudo indica, Lonzo Ball será o primeiro rookie a estrear-se na NBA com umas sapatilhas de assinatura própria.

Ethan Miller/Getty

O brado foi tal que muitos executivos começaram a questionar-se: vale a pena escolher um jogador com toda esta pressão à volta? Que Lonzo tem talento é uma evidência, mas conseguirá lidar com a quantidade de ódio que LaVar já fez a NBA acumular? E que equipa quer ter o pai de um atleta como preocupação?

Magic Johnson e Rob Pelinka, respetivamente presidente e General Manager dos Lakers, equipa com a 2.ª escolha no draft de 2017, acharam por bem ver com os próprios olhos. Deslocaram-se a Chino Hills e ficaram convencidos quando LaVar admitiu o que muita gente parecia suspeitar. “Ele disse-me que grande parte do que fazia era marketing”, revelou Johnson à ESPN. “Disse-me que tinha de promover tanto o filho como a sua marca”.

E assim, no final do mês passado, os Lakers escolheram Lonzo Ball. E mais uma vez, com todo o factor lotaria que o draft da NBA tem, LaVar Ball, que um dia disse que o filho só jogaria nos Lakers, tinha razão.

Começar mal, acabar em grande

É na Summer League da NBA que grande parte das jovens esperanças da liga se mostram pela primeira vez. Não se pode dizer que muita gente presta demasiada atenção ao torneio de início de época. Só que este ano estava lá Lonzo Ball. E muita gente ligou a televisão na secreta esperança de ver o filho de LaVar Ball, a usar as sapatilhas criadas pela cabeça do seu pai, falhar.

E ao primeiro jogo, frente aos Clippers, Lonzo não desiludiu os detratores. Falhou 13 dos 15 lançamentos tentados, estatística em que se inclui um triplo em 11 tentativas. No final, 5 pontos e 5 assistências e um chorrilho de críticas e memes nas redes sociais.

O problema (para os detratores, claro) é que depois daquele que foi o “pior jogo da sua vida”, palavras do pai, Lonzo arrancou para uma das prestações individuais mais impressionantes dos últimos anos na Summer League. E com uma curiosidade: depois de nos primeiros dois jogos usar sapatilhas da Big Baller Brand, com resultados pouco interessantes, Lonzo usou ténis de marcas diferentes (todas aquelas que não quiseram pagar os tais milhões pedidos por LaVar) em cada jogo. O que pode não abonar muito a favor dos ténis da BBB, mas tornou-se um dos tópicos mais quentes de toda a Summer League. Mais marketing?

Mesmo não participando na final, a contas com uma lesão, Lonzo Ball foi considerado o jogador mais valioso da Summer League, ganha pelos seus Lakers. Em seis jogos, e depois da entrada em falso, Zo, como também é conhecido, mostrou bom tiro e uma visão de jogo muito acima da média. Fez dois triplos-duplos e terminou a competição com médias de 16,3 pontos, 9,3 assistências (números nunca antes vistos na Summer League) e 7,7 ressaltos. Melhor que LeBron James, Stephen Curry, Russell Westbrook ou Chris Paul na mesma competição.

É certo que a Summer League não é sinónimo de êxito e também não faltam exemplos de jogadores que brilharam no verão e se eclipsaram na fase regular da NBA. Mas para já, Lonzo está a fazer com que muitos dos que querem vê-lo falhar coloquem a hipótese do base não ser só uma grande e opulenta jogada de marketing de um pai um tanto quanto megalómano.

Uma expectativa a confirmar a partir de outubro.