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Kevin Durant: o bom gigante

Kevin Durant nasceu numa das mais violentas cidades da América e foi abandonado pelo pai quando tinha menos de um ano de idade. Parecia que estava tudo contra ele até que o basquetebol o salvou, acabando por conquistar a América dos bairros humildes a Silicon Valley. Campeão e eleito o melhor entre os melhores do mundo durante a última final da NBA, “aconteça o que acontecer ele já venceu”, conta um dos seus treinadores

FOTO Jesse D. Garrabrant/NBAE/Getty Images

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O número 108 da Sultan Avenue, em Seat Pleasant, a capital do crime do estado de Maryland, amontoam-se fãs e repórteres oriundos de mais de uma dúzia de países. A pequena casa forrada com tapumes de vinil amarelo é o ponto de partida para a viagem ao mundo de Kevin Durant, a estrela da Liga Profissional de Basquetebol Americano (NBA, sigla em inglês).

O ambiente festivo contrasta com o pesadelo vivido horas antes, após a morte de Jamal Barnes, um filho da terra, esfaqueado em plena luz do dia por dois homens que se puseram em fuga.

Confirmando a má disposição geral, uma matilha de rafeiros subnutridos rosna ao grupo de forasteiros que lida como pode com o choque cultural, meia hora depois de terem saído dos átrios luxuosos dos hotéis no centro de Washington. A polícia desconfia de um ajuste de contas levado ao extremo e reforçou a presença nas ruas da Cidade da Excelência, como lhe chamam os autarcas locais. Mais realistas e armados até aos dentes, os agentes caminham aos pares, certificando-se de que não há represálias contra amigos ou familiares dos atacantes.

Com direito a segurança privada, o evento, realizado em meados de maio, expôs de propósito as origens humildes do atleta, que, apesar das circunstâncias, insistiu em lançar os seus KD 10, a linha pessoal de ténis da Nike, no local onde nasceu, riscando do mapa cidades mais seguras e glamorosas como Nova Iorque ou Los Angeles.

Cinzentos e brancos, tamanho 55, Kevin exibia o primeiro par, preparando-se para servir de guia à comitiva. Enquanto oferecia balões às crianças, explicava aos mais velhos a razão de ser de tantas casas abandonadas. Mostrou o ginásio do centro comunitário, onde tudo começou, e parou na “colina”, no cruzamento entre a rua L e a BalsamTree Drive, local conhecido como a ‘câmara de tortura’, onde o treinador Taras Brown o obrigava a ganhar músculo. Subidas a ‘sprintar’, 20 flexões no topo e descidas vertiginosas de costas. Cinquenta repetições. Sem pausa. Caso parasse, recomeçava de novo. E, quando Brown não podia vir, a mãe, Wanda, vestia o fato de treino e arrastava-o.

“Um dia, quando tiver filhos, ele voltará aqui para treinar com eles. É uma questão de honra”, diz ao Expresso Charlie Bell, velho amigo e um dos assessores do jogador que coorganizaram aquele tour por Seat Pleasant.

Após uma curta sessão de perguntas e respostas no centro comunitário, regressariam todos à casa amarela, propriedade da avó Barbara e ponto de referência dos Durants. “Foi aqui, por exemplo, que a minha tia Pearl morreu após uma longa luta contra o cancro”, lembrou Kevin, enquanto levantava a T-shirt para mostrar a imagem da habitação tatuada no abdómen.

Terminado o desabafo, KD voltou a concentrar-se no merchandising, uma das atividades paralelas que o levam a viajar por todo o mundo, principalmente durante o defeso, entre julho e setembro — em 2014, assinou um contrato de patrocínio com a Nike no valor de 300 milhões de dólares, válido até 2024.

Estrela. O nº 35 dos Golden State Warriors, onde joga desde 2016

Estrela. O nº 35 dos Golden State Warriors, onde joga desde 2016

Foto Ezra Shaw/Getty Images

Consagrado como o novo príncipe do basquetebol americano em junho, após vencer o seu primeiro título de campeão e arrebatar o troféu de Most Valuable Player (MVP), ou seja, o melhor entre os melhores do mundo, e logo na época de estreia ao serviço dos Golden State Warriors, Durant revitalizou uma carreira profissional que principiou há dez anos em Seattle e floresceu em Oklahoma City.

Visto como eterna promessa, KD somava recordes individuais, mas nunca atingira o topo da montanha. A mudança para os Warriors, equipa sediada em Oakland, arredores de São Francisco, serviu de atalho para lá chegar. Juntamente com Stephen Curry, Klay Thompson e Draymond Green o conjunto californiano foi rotulado de “Dream Team” (equipa de sonho), tal o domínio sobre os adversários. Quando, no terceiro jogo das finais (um frente a frente decidido à melhor de sete), ele bailou em frente a LeBron James e saltou sem balanço para um lançamento de três pontos, deu a entender que o equilíbrio de forças na rivalidade entre os dois estava prestes a alterar-se — ambos estão para o basquete como Ronaldo e Messi para o futebol.

O comentador Charles Barkley, uma velha glória da NBA, jurou a gritar que se tinha acabado de assistir a um número de circo, levado a cabo por um contorcionista com movimentações tão graciosas que parecia ter um corpo liquefeito.

As comparações com criaturas imaginárias são frequentes. No ano de estreia, em 2007, era conhecido como o unicórnio, graças ao talento mítico.

“Tornou-se o menino bonito da NBA. O bom gigante que põe todos à frente dele, que raramente diz não, que é incapaz de usar o tamanho para bater em alguém. Pela primeira vez, pensou em si próprio quando se mudou para Oakland. Percebeu que era tempo de ficar para a história. E ninguém o pode acusar de traição ou ingratidão, pois ele é o exemplo clássico do menino oriundo do bairro complicado, que, contra tudo e todos, venceu na vida”, afirma ao Expresso Taras Brown, o velho treinador, que hoje trabalha para o pupilo na organização de eventos de caridade. “A vida dele começou como um filme de terror, mas teve um desfecho feliz. A sua ida a Seat Pleasant serve para lembrar isso mesmo. Que, no fundo, aconteça o que acontecer, ele já venceu.”

Um café às três da manhã

Wanda possuía dois empregos, que lhe esticavam o dia das três da manhã às 19h. Mal ouvia o despertador, Kevin, ainda adolescente, pulava da cama, calçava os ténis estafados de tanto treino, vestia a T-shirt XXL, propositadamente gigante para que durasse, e ia buscar um café para a mãe à 7-Eleven (loja de conveniência).

Ordem cumprida, voltava a dormir. Quatro horas depois, partia para a escola de mãos dadas com o irmão, Tony, e a avó, Barbara, que passava temporadas com eles, garantindo que a rotina mascarava as dificuldades. Até porque Wanda não tinha alternativa, visto que Wayne, o ex-companheiro e pai de KD, desertara quando a estrela da NBA tinha menos de um ano, deixando a mulher com duas crianças nos braços e contas por pagar.

“O meu pai tinha 23 anos. A Wanda era dois anos mais nova. Ele não estava preparado para as responsabilidades”, confessa-nos com ar nervoso, enquanto ajusta os óculos de massa. “A pensão de alimentos nunca faltou.” O mesmo não se pode dizer da companhia, um distanciamento que justifica pelo facto de o pai ter refeito a vida com outra mulher e mais dois filhos. Mesmo assim, permaneceu na vizinhança. Por vezes, cruzavam-se. Amante das velocidades, Wayne gostava de acelerar em descapotáveis ‘tunados’ nas oficinas locais. Kevin olhava estarrecido. Wanda ignorava.

Segundo o último censos, de 2010, um em cada três rapazes cresce sem pai nos Estados Unidos, “uma epidemia de que poucos falam”, afirmou Oprah Winfrey, a antiga imperatriz dos talk shows americanos, numa entrevista recente à “Vanity Fair”.

Vítima deste sistema, a mãe-coragem improvisava, mudando várias vezes de casa na procura incessante da renda mais baixa, algo que os depositava em zonas pouco recomendáveis. De tal forma, que os serões em família eram atormentados pelos tiroteios nas ruas, onde os gangues disputavam supremacia na rota do narcotráfico — “gente de fora” que se está a marimbar para a qualidade de vida em Seat Pleasant, garantem ainda hoje os moradores.

Naquela altura, o crime organizado ‘contratava’ os mais novos para operarem como ‘mulas’ no transporte de estupefacientes ou ‘sentinelas’ na deteção de “five O” — alcunha dada aos agentes da polícia. Quando sentia que o recrutamento dos filhos estava para breve, Wanda realojava a família.

Mas, ao contrário de Tony, Kevin não passava despercebido. Aos 10 anos já media 1,85m e o jeito desengonçado deixava-o na mira dos rufias, que se entretinham a gozar com ele, chamando-o potro, gazela, girafa… KD ficava calado. O trajeto casa, escola, ginásio fazia-o sempre cabisbaixo. E quando chegava tarde, já sabia que tinha de ‘sprintar’ em direção a casa, porque vinham atrás dele com pitbulls pela trela.

Refúgio no princípio, o basquetebol tornar-se-ia uma paixão. De tal forma que aos nove anos prometeu à mãe que tudo faria para entrar na NBA. Wanda avisou-o: “Queres ser o novo Michael Jordan? Percebes a vida de trabalho que tens pela frente? Prepara-te! Eu não te darei um segundo de descanso”, conta a própria num resumo de vida publicado no seu site ‘Wanda Durant, the Real MVP’.

De imediato, matriculou o filho no centro comunitário de Seat Pleasant, cujos treinadores da equipa de basquetebol, os Jaguars, tinham fama de polir talento em direção aos grandes palcos.

Chucky Craig era um deles. Aos 35 anos seria assassinado por aqueles malfadados gangues, algo que ainda hoje KD não esquece, fazendo questão de jogar com aquele número na camisola.

Taras Brown, ou “Coach” Brown, o mentor sobrevivente, ainda se lembra da primeira vez que deitou o olho ao diamante em bruto. “Ele entrava mudo no ginásio e desatava a fazer lançamentos de três pontos. Só partia para o próximo exercício depois de acertar dez consecutivos, o que acontecia em 99,9% das vezes”, diz-nos. “Era uma esponja. Todos os dias queria saber o que tinha feito de errado, mesmo quando ganhávamos os jogos com o dobro dos pontos da equipa rival.” Brown reparou também no corpo que poderia ser moldado em algo nunca visto: um atirador certeiro com mais de dois metros, agilidade, toque de bola e “uma envergadura de um caça F-16 (2,25m)”, parodia.

A entrega gerou um sucesso meteórico, de tal forma que até os chefes dos gangues se aperceberam que o tal trinca-espinhas carregava a equipa local às costas, ordenando a todos os membros para que o deixassem em paz.

Apesar do salvo-conduto, o jovem não se iludia e sonhava partir dali o mais cedo possível. De tal maneira que, nos dias em que conseguia sair um pouco mais cedo, viajava até ao final da linha do metro, até às profundezas do subúrbio de Washington, um trajeto que se assemelha a uma viagem num ascensor social.

Após passar-se pela cintura formada por cidades complicadas como Seat Pleasant, entra-se na América dos bairros cookie cutter, repletos de vivendas geminadas de estrutura prefabricada, copiadas umas das outras e rodeadas de campos de golfe.

Chegado ao destino, ele caminhava deleitado, fechando os olhos enquanto saboreava o perfume das flores frescas dos quintais. Depois parava para observar os miúdos brancos a jogar basquete, das poucas paixões em comum entre os dois mundos.

“Ele estava sempre a dizer que, quando chegasse à NBA e fosse pago condignamente, investiria em paz e sossego. Idealizava ter uma casa onde ele, os amigos e familiares mais próximos pudessem viver”, conta-nos Charlie Bell.

Há três anos, durante o discurso de entrega do prémio MVP da época regular, KD, que hoje vive numa mansão com vista para a baía de São Francisco, celebrou a realização desse sonho.“Desde sempre que eu e a minha família vivemos tempos difíceis. Mas todos resistimos. Todos continuamos de pé.”

A aberração

A bem dessa serenidade, aos 16 anos KD fez as pazes com o pai, numa altura em que já era conhecido como uma das maiores promessas do basquetebol americano.

Quando saltava sem impulsão para fazer o lançamento, as pontas dos dedos da mão direita, que normalmente aconchegam a bola, ultrapassavam os três metros. E na hora de correr fazia-o com a mesma rapidez dos bases, os ‘pequenotes’ de um metro e oitenta que, por norma, organizam o jogo e se mantêm ao largo do reino de gigantes que orbitam o cesto. Como fazia tudo bem, batizaram-no de “Freak” (aberração), a tal ponto que quando saiu do liceu Montrose Christian School, em Maryland, colocou metade do país a roer as unhas à espera de saber qual a sua próxima paragem.

Em 2006, escolheria a Universidade do Texas, seguindo-se o ano da explosão ao vencer o troféu National Player of the Year (melhor jogador do ano).

Entretanto, a NBA salivava e na noite de 28 de junho de 2007, durante o draft (um sistema de alocação de jogadores nas 30 equipas da liga profissional, que normalmente permite aos conjuntos mais mal classificados na época anterior acederem aos melhores jovens), foi selecionado pelos Seattle SuperSonics.

O dinheiro começava a jorrar. Logo após aquela noite, ele assinou o primeiro contrato de patrocínio com a Nike por 60 milhões de dólares.

Os cifrões não o distraíam, que o diga a concorrência, pois logo na época de rookie, a primeira, conquistou o prémio revelação. O percurso ascendente de Kevin contrastava com o da equipa, que procurava reorganizar-se numa nova cidade, visto que Seattle perdera relevância económica.

Oklahoma City acenou com os petrodólares e a estrutura mudou-se do verdejante litoral Oeste para um estado recôndito, conhecido pela gastronomia rica em fritos e pelo vale dos tornados que todos os anos gera mortes e estragos abundantes.

SOLIDARIEDADE. Kevin Durant em 2015 a participar num evento de “food and fun” para crianças de Oklahoma City

SOLIDARIEDADE. Kevin Durant em 2015 a participar num evento de “food and fun” para crianças de Oklahoma City

FOTO Layne Murdoch/NBAE/Getty Images

Nove anos mais tarde, depois de várias finais perdidas, a estrela questionava se algum dia seria coroado campeão, numa cidade que nunca vencera nada desportivamente e ao leme de uma equipa que, à exceção de Russell Westbrook, a quem ele chamava “irmão mais novo”, parecia não ter suficientes atores secundários. Em julho do ano passado, o herói de OKC anunciou a saída e transformou-se em vilão no estado cuja imagem no mapa se assemelha a um revólver.

Dono da Two Rivers Arms, uma empresa de armamento, o congressista Steve Russell, eleito pelo distrito que alberga Oklahoma City, explica ao Expresso como é que um fanático pelo clube viveu aquele momento. “Foi a cidade onde nasci e cresci. Foi aqui que comecei a minha carreira como militar e depois como político. Ver a nossa estrela sair, ver a possibilidade de vencer o campeonato desvanecer-se... Foi duro. Ele tinha posto OKC no mapa — bem sei que não é uma imagem muito simpática [risos]. A cidade nunca tinha sido tão falada. Sabia que a partir dali voltaríamos à estaca zero.”

No último campeonato, os “Thunder” não passaram da primeira ronda dos playoffs, apesar da ascensão de Westbrook, o ‘irmão’, entretanto, desavindo. KD revelou que se juntaria aos Golden State Warriors, a constelação de estrelas que deixara fugir o título para os Cleveland Cavaliers de LeBron James.

Charlie Bell recorda como o amigo optou por se isolar, preferindo o silêncio à polémica ou discussões públicas com antigos companheiros. “Ele veio para a zona da baía e instalou-se numa mansão no alto de uma colina com a Wanda e o seu empresário Rich Kleiman, e com um grupo restrito, do qual faço parte.”

No verão passado, num artigo do “The Players' Tribune”, um projeto digital cujo conteúdo é escrito, exclusivamente, por atletas profissionais, Kevin pôs uma pedra sobre o assunto: “Estou numa fase da vida em que preciso de uma oportunidade para evoluir e ganhar títulos. Sair da minha zona de conforto, para uma nova cidade, para uma nova comunidade, onde essa possibilidade é real, é muito importante.”

O monge

A solidão estendeu-se às redes sociais. Nada de Instagram ou Twitter, onde, entretanto, regressou para agrado dos cerca de 17 milhões de seguidores. Um ano antes terminara o noivado com Monica Wright, também ela jogadora profissional de basquetebol, culpabilizando-se pela rutura: “Não conseguia amá-la. Não a amava da maneira certa.”

A vida regrada com pouco para contar além dos treinos e das tardes a descontrair no gigantesco terraço com um churrasco em inox do tamanho de um autocarro, granjeou-lhe uma nova alcunha: o “monge”. Apesar do luxo acumulado, do Tesla preto estacionado na garagem à piscina com vista para o Pacífico, a rotina, mas não só, lembrava-lhe a vida em Seat Pleasant.

Sempre que descia lentamente no carro elétrico de sonho pela avenida 73 em Oakland, junto à interceção com o MacArthur Boulevard, os miúdos do sopé da colina largavam tudo, pegavam nas bicicletas e ensaiavam corridas com ele. Dada a má fama, nem todos gostam de passar por aquela zona da cidade. KD, pelo contrário, sente-se em casa. “É como se tivesse regressado às origens”, considera Bell.

Com mais de 150 milhões de dólares amealhados até hoje na NBA — cerca de 200 milhões estão a caminho fruto da ligação aos Warriors —, juntou o útil ao agradável na Califórnia, somando aos títulos no campo a oportunidades de negócio em Silicon Valley, assegurando-se que Seat Pleasant é apenas uma memória terna do passado e não um plano B de futuro.

Vários jogadores profissionais de basquetebol arruinaram fortunas e acabaram no buraco de onde saíram. Allen Iverson, por exemplo, o base dos Philadelphia 76ers, que brilhou na NBA entre 1996 e 2010, queimou 200 milhões de dólares, a tal ponto que durante uma audiência em tribunal em 2012, a propósito de um divórcio litigioso, o juiz concluiu que o indivíduo não tinha dinheiro nem para comprar um cheeseburger.

KD entrou em Silicon Valley aconselhado pelo colega de equipa Andre Iguodala, um dos mais temidos defesas da liga, astuto no roubo de bola, mas também na gestão de poupanças, investindo no Twitter, Facebook e na Tesla. A ligação entre ambos estreitou-se a tal ponto que, após a conquista do campeonato em junho, a estrela decidiu baixar o salário de 36 milhões anuais para 26, de maneira a que os gestores da equipa pudessem manter peças como Iguodala.

Numa entrevista ao site da NBA justificou a decisão. “Quero que esta equipa se mantenha. Quero também ter a certeza que o Andre, o Shaun (Livingston) e o Steph (Curry) recebem o que lhes é devido. Todos tinham salários inferiores ao que mereciam e a certa altura é natural que eles queiram mais. É legítimo. Portanto, decidi dar um passo atrás, deixar cair os cifrões e ajudar a direção a manter esta equipa. Além disso, a decisão é minha, o dinheiro é meu e faço com ele o que bem entender.”

Os conselhos de Iguodala foram o primeiro capítulo da aventura empresarial, algo que fez com que ele reconstruísse o seu grupo de amigos, hoje repleto de titãs do sector tecnológico.

São os casos de Ben Horowitz e Ronald Conway, dois dos mais conhecidos venture capitalists americanos (investidores que fornecem capital a startups ou pequenas empresas com necessidade de expansão), Joe Lacob, sócio maioritário dos Golden State e investidor em Silicon Valley, e Tim Cook, o diretor executivo da Apple.

Aparentemente oriundas de universos distintos, as faunas de techies e de atletas misturam-se com facilidade. “Talvez porque, em alguns casos, partilhamos origens humildes e sabemos o trabalho que deu chegar aqui”, esclareceu Durant, numa entrevista ao canal desportivo ESPN. Cook, por exemplo, nasceu em Robertsdale, no estado do Alabama, no seio de uma família humilde, cujo parco orçamento forçava-o a estudar e a trabalhar.

Com pouco para oferecer, a povoação celebra, ainda hoje, o filho pródigo, tendo oficializado a data de 10 de dezembro como “o dia do senhor Timothy Cook”. Seat Pleasant também não esquece KD.

No passado dia 17 de agosto, realizou-se na Cidade da Excelência a Parada do Dia de Kevin Durant. A banda do liceu Montrose Christian School agitou as ruas e pôs toda a gente a dançar, acompanhada por músicos locais espalhados por uma dúzia de palcos, ligados por bancas de comida, onde imperavam a galinha frita, os hambúrgueres e os cachorros quentes. A melhor, aparentemente, estava montada em frente à casa da avó Barbara, que, embora já não viva ali (aluga a casa a amigos), fez questão de marcar presença, mostrando-se incansável sempre que alguém lhe pedia uma foto ou um autógrafo.

Bell representou KD, explicando que ele estava numa ação de promoção da NBA, na Índia. Quando lhes contou pormenores de outras longas viagens em nome do basquetebol americano, os presentes arregalaram os olhos, embevecidos. No final, recordou-lhes as palavras do astro em 2014, na entrega do prémio MVP: “Não se esqueçam: apesar das dificuldades, todos iremos resistir e todos continuaremos de pé. O Kevin recorda Seat Pleasant todos os dias. Ele tem muito orgulho em vocês.”