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Ex-NBA, homem que casou consigo próprio, amigo de Kim Jong-un e de Trump: sabemos o que fizeste, mas não sabemos quem és, Dennis Rodman

É talvez a única pessoa que pode privar, quando lhe apetece, com os dois líderes mundiais que, por estes dias, andam a medir egos e a ameaçarem-se mutuamente com armas nucleares. Retratar Dennis Rodman, de 56 anos, como o excêntrico, tatuado e com piercings em sítios improváveis ex-basquetebolista, que está entre Donald Trump e Kim Jong-un, é pouco. Ele é muito mais do que isso. E a melhor prova é contar a vida que levou até agora

Diogo Pombo

JEFF HAYNES

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É de noite, ele está em Detroit e o parque de estacionamento à beira da arena dos Pistons está vazio. Caminha até ao jipe de caixa aberta, alheado do que o rodeia, imerso no pensamento que o cerca há muito. Abre a porta, senta-se no banco da frente. Tem uma caçadeira no colo, carregada, e permanece imóvel, a contemplar se é assim, e ali, dentro do carro no estacionamento e nessa noite de fevereiro de 1993 e com 31 anos que pretende acabar.

Horas passam e alguém o encontra no mesmo sítio, sentado, a arma pousada sobre as pernas, peso do corpo encostado ao banco e os olhos fechados. Não está morto, apenas adormecido.

Dennis Rodman não acabou com a vida.

Nesta altura, Rodman é basquetebolista tímido e impulsivo, envergonhado e que ferve a baixa temperatura. Está traumatizado por um divórcio recente, acaba de ser multado por falhar a pré-época da equipa. É um dos melhores defesas da NBA, já tem dois anéis nos dedos. É talvez o maior a reclamar ressaltos de bola para as próprias mãos. Quase não tem família. Sendo como é, fechado, pouco confiante, introvertido, e estando como está, pensou no suicídio.

Não o comete, mas diz que morre sentado no carro. Não pelo cano da caçadeira, sim por outro gatilho que prime e ninguém vê:

“Em vez de me matar, ia matar o impostor que estava a guiar o Dennis Rodman para um sítio que ele não queria ir. Por isso, disse: ‘Vou viver a minha vida da forma que a quero viver e ser feliz a vivê-la’. Nesse momento, domei toda a minha vida. Matei a pessoa que não queria ser”.

Ele diz-nos, na autobiografia que escreveria mais tarde, "As Bad as I Wanna Be", que morreu e renasceu. Foi aí que começou a crescer até ser o único, pelo menos conhecido, habitante deste mundo, que se diz amigo de Donald Trump e Kim Jong-un - os dois homens mais capazes de destruírem este mundo. Dois líderes egocêntricos, mimados, intolerantes, crianças presas em corpos adultos que, nos últimos meses, têm trocado ameaças de ataque e testes de armamento para verem quem recua perante o outro.

O mundo, sendo mais ou menos seguro generalizar neste caso, está em suspense por causa deles. E talvez um pouco por Dennis Rodman ser o único a estar entre ambos.

KIM WON-JIN

Ele é uma espécie de diplomata forçado sobre todos nós, um tipo instável que, por acaso, priva com os líderes atómicos quando quer. Uma evidência muito preocupante porque, da tal noite em diante, o americano tornou-se volátil, imprevisível, expansivo e extrovertido até cruzar a fronteira do excêntrico. Respondão e pouco submisso a regras. Um alcoólico com recaídas do que recuperações.

E o que Dennis Rodman é hoje nada tem a ver com a pessoa que suprimiu dentro dele.

Dennis cresceu num dos bairros mais pobres de Dallas, cidade no estado do Texas, abandonado por um pai fugido para as Filipinas que, com o passar dos anos e das indulgências, lhe deu uns “26 ou 28 irmãos”. O adolescente que, aos 16 anos, apenas media 1,68m e vivia como um suplente em qualquer modalidade que experimentava. O recém-adulto que se sentiu um estrangeiro no próprio corpo quando a genética, atrasada, o fez pular para lá dos dois metros em altura, quando já estava na faculdade e era homem das limpezas nas horas vagas.

Entrou no basquetebol como escolha de draft do Detroit Pistons, equipa da cidade da indústria e dos carros da América, onde fica sete anos. É um monstro sem a bola, ganhador nato de ressaltos, registo em que bate e estabelece recordes, tão anulador de craques adversários que é votado, em dois anos, como o MVP (most valuable player) defensivo da NBA. Chamavam-lhe "The Worm", a minhoca, o jogador que aparecia em todo o lado para anular o que fosse. Vence o título duas vezes, embora apenas seja indiscutível na última temporada, em 1993.

Até que o jipe, a caçadeira, a morte de algo que não ele, o muda.

Logo na época seguinte, pede para sair dos Detroit Pistons para se juntar aos San Antonio Spurs. Vai aparecendo com o cabelo rapado e descolorado, indeciso entre o vermelho, o azul e o púrpura, ou misturando todos no mesmo visual. Dá cabeçadas a dois adversários distintos ao longo da temporada. Tem um romance de quatro meses com Madonna quando a cantora era muito mais do que a residente mais famosa em Portugal. Faz duas épocas e muda-se, em 1996, para os Chicago Bulls, cognome para o aglomerado de jogadores que tinham o privilégio de partilhar equipa e quadra com Michael Jordan.

Era ele e mais quatro, um quarteto em que Rodman estava quase sempre, tal como Scottie Pippen. As espetacularidades e voos dos outros dois, combinados com a muralha de blocos e ressaltos de Dennis, fundiram-se para todos vencerem três anéis da NBA. Prosperavam, dominavam a liga, chegaram a vencer 72 dos 82 jogos de uma fase regular.

Mas Rodman já era Rodman, o espalhafatoso e excêntrico personagem que dava um pontapé nas jóias da coroa de um fotógrafo num dia, e uma cabeçada no árbitro no outro, rasgando a camisola de jogo em protesto por ser expulso logo a seguir. O mesmo que, anos antes, referiu-se a Larry Bird, um dos melhores e mais condecorados jogadores da NBA de sempre, como um basquetebolista sobrevalorizzado “por ser branco”. Irreverências que, na autobiografia, descreveu assim: “Apenas aproveitei a oportunidade para ser eu próprio. Se não gostam, kiss my ass”.

Os ressaltos, as vitórias, os títulos e a fama avançaram com a idade que o apanhou. Quando as restantes estrelas dos Bulls também envelheceram e saíram da equipa, Rodman foi cumprir uma época nos LA Lakers e outra nos Dallas Mavericks. Ambas foram erráticas, com lesões, poucas aparições e acentuaram o declínio que, em 2000, o fez acabar a carreira, aos 39 anos. Não contam as peripécias que inventou já quarentão, em equipas de ligas secundárias americanas, da Finlândia e do México.

JEFF HAYNES

E eis que começou outra vida de Dennis Rodman, a vida pela qual o reconhecemos. Melhor escrevendo, acentuou-se.

Fora o basquetebol, este homem de grande porte, densamente tatuado, cabelo sempre colorido e argolas a furarem-lhe o corpo em inesperados e visíveis sítios, foi sempre um reboliço. Ao romance com Madonna seguiu-se um casamento, de escassos meses de duração, com Carmen Electra, a celebridade bonita e da moda da década de 90, catapultada pela série "Baywatch".

Ao lado cor-de-rosa da vida que levava, Rodman acrescentava participações ocasionais em programas de wrestling, onde podia ser exuberante enquanto teatralizava combates com, e contra, Hulk Hogan; papéis em dois filmes de ação - “Double Team” (1997) e “Simon Sez” (1998) - sofríveis e com prestações dignas de vários Razzie Awards, os anti-Óscares de Hollywood; um reality show da MTV que o perseguia no dia-dia; uma autobiografia, já por aqui citada, para cuja apresentação resolveu vestir-se de mulher, anunciando ao mundo que era bissexual e optara por um santo matrimónio com ele próprio.

O excêntrico, com os anos, evolui para o bizarro e o auto-destrutivo. Continua a fazer o que quer e lhe apetece, querendo quase sempre ingerir álcool ao ponto de ser internado em clínicas de reabilitação.

Entra e sai delas enquanto soma uma variedade de outros programas televisivos, entre os quais o “Celebrity Apprentice”. Importante por ser obra e graça de Donald Trump, então ainda só um magnata megalómano, que chega a despedir Dennis do programa (funcionava como uma espécie de empresa) por o ex-atleta errar ao escrever o nome da Senhora Trump num cartaz.

É nessa altura, em 2013, que Dennis Rodman conhece e fica próximo do atual presidente dos Estados Unidos da América.

É o ano em que faz a primeira visita à Coreia do Norte.

É o tempo em que um dos tipos mais desequilibrados se começa a intrometer em coisas como geopolítica e diplomacia internacionais. E nem ele deve saber bem como tal sucedeu.

A VICE News teve a ideia de se juntar a três jogadores dos Harlem Globetrotters, equipa que viaja mundo fora para jogar basquetebol espetáculo, em troca de muitos dólares, e convencer Dennis Rodman a acompanhá-los. Ele achou boa ideia.

A estadia em Pyongyang, capital da Coreia do Norte, servia para eles partilharem quadra com uma seleção local, perante milhares de pessoas a aplaudirem e comportarem-se mecanicamente, e pronto. Mais houve, contudo, e Rodman e os amigos acabariam por ser os primeiros cidadãos americanos, que se saiba, a conhecerem o novo líder do país, Kim Jong-un.

Alguém tão imprevisível, volátil, mimado e estranho como ele.

Dennis Rodman regressou da visita à nação mais fechada ao mundo dizendo que fizera “um amigo para a vida”. Convenceu-se de uma amizade com a pessoa que, respeitando o legado opressor do pai e do avô, antagoniza o ocidente. Em especial os EUA, com um discurso militar, de guerra e de hostilidade, teoria que passa à prática com frequentes testes de mísseis balísticos e armas nucleares.

O presidente baixote com um ego enorme queria falar com Barack Obama - “queria mesmo, mesmo, falar com ele”. Rodman descreveu-o assim:

“Quando ele está com a sua gente, é como qualquer outra pessoa. É brincalhão e adora basquetebol, ténis de mesa e bilhar. Já estive com a família toda dele, peguei no bebé, nunca alguém o tinha feito antes. Ele não quer bombardear ninguém, não quer matar americanos. Ele diz que têm bombas nucleares porque sabem que os americanos pensam que podem aparecer e tomar conta de tudo. Eles só querem que as pessoas na América, e o governo, saibam que eles não odeiam americanos.”

Palavras de difícil crença por se centrarem na pessoa em questão, e muito por virem da pessoa que as disse. O mesmo cinquentão ex-basquetebolista que, na mesma entrevista à Dujour, uma revista de moda americana, defendeu, perante a incredulidade do jornalista, que a Coreia do Norte “é como qualquer outro país, se fores à Rússia e à Alemanha também vês soldados por todo o lado, com armas”. E, questionado sobre os campos de trabalho que recuam séculos no desrespeito pelos direitos humanos, respondeu que “todos os país têm isso”.

Rodman alega que apenas 15 meses e seis visitas depois é que discutiu assuntos políticos com Kim Jong-un, com tudo o que se perde e deforma no filtro dos intérpretes necessários para compensarem o inglês que o líder norte-coreano nem arranha. “As pessoas colocam-me na categoria de um diplomata, ou embaixador, que não quero ser. Isto é uma coisa de desporto”, resumiu.

Mas Dennis Rodman é o único humano conhecido que tem acesso à pessoa que mais poder tem e de quem se conhece tão pouco - e inacessível - do mundo. Uma preocupação para os restantes biliões que habitam no planeta que a revista Vanity Fair resumiu, numa frase, ao criticar “Dennis Rodman’s Big Band in Pyongyang”, um documentário centrado nesta amizade: “O líder do país mais controlado do mundo e a celebridade americana mais descontrolada, a rirem e trocarem piadas como velhos amigos da faculdade”.

O alto, grande e forte que especializou a vida a ter uma bola entre as mãos e a tirá-la das mãos dos outros - encestar não era, de todo, o seu forte - não quer ser associado a política, mas associou-se.

Em 2013, após realizar as primeiras visitas à Coreia do Norte, anunciou no Twitter que ia “fazer o possível” para Kenneth Bae, um cidadão americano condenado a 15 anos de prisão, em Pyongyang, ser libertado. Demorou um ano a sê-lo e, entretanto, Rodman voltou a visitar o país com uma dezena ex-jogadores da NBA, para mais uma partida de exibição.

Já na capital norte-coreana, a CNN pediu-lhes uma entrevista. Eles concederam. Dennis apareceu embriagado, a segurar um charuto entre os dedos e sem encontrar o norte na bússola do bom comportamento.

Quando lhe perguntaram se ia, ou não, mencionar o assunto do prisioneiro quando estivesse na companhia do amigo totalitário, Rodman levantou a voz, praguejou e berrou. “O Kenneth Bae fez uma coisa. Sabe o que ele fez neste país? Entende porque está ele retido neste país?”, perguntou, exaltado, ao jornalista. Dois dias passam e pede desculpa pelos comentários, justificando-se com as bebidas que tinha ingerido e o stress que estava a sentir.

KIM WON-JIN

O episódio dá-se em janeiro.

Em novembro, Bae é libertado, enquanto diplomatas e responsáveis do governo americano vincam que o membro da Hall of Fame da NBA em nada influenciou o processo. “Quero agradecer ao Dennis Rodman por ter sido um catalisador da minha libertação. Foi o seu discurso que aumentou a atenção mediática à minha causa. Por isso, só quero dizer obrigado pelo que fez”, diria, contudo, Kenneth Bae.

Já este ano, em junho, num tempo em que os EUA desaconselham qualquer cidadão do país a deslocar-se à menos amiga das Coreias, o antigo jogador fê-lo, outra vez. No dia em que entrou na Coreia do Norte, o regime anunciou a libertação de Otto Warmbier, um americano também condenado a 15 anos de prisão por arrancar um cartaz de propaganda do hotel em que estava hospedado. Warmbier estava preso há 17 meses e em estado de coma profundo, por causas desconhecidas. Seis dias volvidos da sua libertação, morreria, já em solo americano.

Tinha 23 anos.

De novo, diplomatas americanas disseram que Rodman nada teve a ver com a libertação. O agente do basquetebolista virado celebridade, Chris Volo, revelaria, poucos dias depois, que pediu por três vezes a representantes do regime da Coreia do Norte que libertassem Warmbier. “Disse-lhes que precisávamos disto, de uma libertação, um sinal de boa fé, caso viéssemos a ter qualquer tipo de relação para organizar eventos desportivos. Eles disseram que compreendiam”, explicou, à televisão USA Today.

No mesmo programa, Dennis Rodman informou que não chegou a encontrar-se com Kim Jong-un.

WANG ZHAO

Dennis Rodman acredita, piamente - lendo pelas entrevistas que, ocasionalmente, concede -, que está a contribuir para estreitar as relações com a Coreia do Norte. Defende que essa é a vontade do país que, esta semana, comparou os discursos de Donald Trump ao “som de um cão a ladrar” e ameaçou testar uma bomba de hidrogénio sobre o Oceano Pacífico, como resposta ao discurso que o presidente dos EUA realizou do alto do púlpito das Nações Unidas (o presidente que Rodman apoiou durante a campanha,

Advoga que as viagens e as visitas que faz estão a fazer o bem. Deve pensar que oferecer uma obra escrita por Donald Trump, um livro de “Onde Está o Wally?”, uma coleção de sabonetes e um puzzle com a imagem de uma sereia ao “amigo para a vida” está a ajudar.

Ele continua a não descortinar a ironia: presentear Kim Jong-un com algo criado por quem o líder norte-coreano definiu, há dias, como um “velho demente”; e dar a quem manda no país onde pessoas desaparecem como fantasmas um livro onde o objetivo, e a piada, está em descobrir onde se encontra o personagem principal.

Talvez este Dennis Rodman, que subsistiu aquele carro, naquela noite no parque de estacionamento e evoluiu para tatuagens, piercings e excentricidades, pai de duas filhas e um filho, esteja mesmo a ajudar: "Estou a tentar abrir uma porta".

Mas não parece estar a ter piada.