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Libertem o Kyrie! (e outras histórias que fizeram a offseason da NBA)

Arranca esta madrugada a nova temporada da NBA, com um Cleveland Cavaliers-Boston Celtics (1h, na Sport TV1) e um Golden State Warriors-Houston Rockets. Boa altura para recordar estes meses de defeso, um dos mais animados dos últimos anos

Lídia Paralta Gomes

Maddie Meyer/Getty

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Comecemos por factos científicos comprovados por um recente estudo de uma universidade que agora não me recorda o nome. Há dois tipos de pessoas neste nosso mundo: as que aproveitam o verão para ir à praia, frequentar muitas festas, vivendo la vida loca, e aqueles que utilizam os meses entre julho e outubro para hibernar, quais cobra mas na estação contrária, acumulando horas de sono que serão posteriormente gastas nos restantes meses do ano, quando do outro lado do Atlântico se joga o melhor basquetebol do planeta.

Para estas últimas pessoas, as mesmas que davam um braço ou uma perna por um mundo sem fusos horários - e nas quais yours truly se inclui -, a diversão começa esta terça-feira, quando em Cleveland LeBron James e Kyrie Irving entrarem na Quicken Loans Arena (à 1h de Lisboa, Sport TV1) e desta vez não na mesma equipa.

Ah? O quê? What?

Já lá vamos.

Pois bem, LeBron e Kyrie estavam juntos, agora já não estão e essa é apenas uma das histórias desta offseason da NBA - e que offseason! Um defeso que teve trocas surpreendentes, reuniões, separações, algumas mudanças, histórias de pais megalómanos, de gente magnânima, de homens desesperados por ganhar um anel. Enfim, a NBA também é um show e estes últimos meses tiveram mais momentos uau! do que uma novela da Globo.

E agora que já chega de bastidores e é tempo da bola laranja começar a saltitar pelos pavilhões das 30 equipas divididas pelas duas conferências, nada como reunir em best of os acontecimentos da offseason.

Adeus LeBron, eu quero ser estrela

Quando em 2011 Kyrie Irving foi escolhido como n.º 1 do draft assumiu desde logo o papel de estrela dos Cleveland Cavaliers, mais por manifesta falta de qualidade dos colegas do que por outra coisa qualquer, diga-se. Os Cavs estavam então órfãos de LeBron James, que no ano anterior tinha optado por levar os seus talentos para o sol de Miami, espoletando uma das maiores queimas de camisolas do que há memória na história do desporto, não fosse o homem, ainda por cima, nativo do estado do Ohio.

Não me levem a mal: Kyrie sempre foi bom, mas sozinho nunca conseguiu levar os Cavaliers aos playoffs, lugar a que a equipa só voltou quando James se cansou dos daiquiris, da salsa e das praias e regressou a casa. A parceria Kyrie-LeBron deu bons e suculentos frutos, leia-se, três finais da NBA e um título.

Kyrie e LeBron James juntos: ora aí está uma imagem que este ano não vamos ver

Kyrie e LeBron James juntos: ora aí está uma imagem que este ano não vamos ver

Gregory Shamus/Getty

Só que Kyrie, agora mais maduro, achou que podia ser mais do que “o base de LeBron”. Ele quer ser a estrela, o líder. E de forma surpreendente anunciou ao mundo que queria ser trocado. Os Cavs não estavam muito para aí virados, mas ter um jogador contrariado na equipa também não faz bem a ninguém. Vai daí, os Celtics, que andam há anos em reconstrução e foram na última temporada a única real ameaça para os Cavs na Conferência Este, viram em Kyrie a peça que faltava num plantel que já tem Gordon Hayward e Al Horford e o rapaz nascido há 25 anos na Austrália (o pai jogava por lá) fez as malas para o Massachusetts.

Os Cavs, diga-se, não ficaram assim a perder tanto: na troca, receberam Isaiah Thomas, All-Star nas duas últimas temporadas depois de nos idos de 2011 ter sido escolhido na 60.ª e última posição do draft, culpa dos seus 1,75m, que é altura de pigmeu nos parâmetros da NBA.

A única questão é que o pequeno base, além de não ter achado muita graça à mudança para Cleveland, anda a contas com uma lesão na anca e só deve conseguir dar uma mãozinha a LeBron lá para janeiro. Vai assim perder o jogo que abre a época, precisamente um Cavaliers-Celtics, um jogo cheio daquilo que os nossos amigos espanhóis chamam de morbo, palavra que com pena minha não tem tradução para português, mas que significa assim uma espécie de expectativa altamente exacerbada, culpa de tudo o que se passou nos últimos meses.

É já esta noite, à uma da manhã de Lisboa. Yeah!

“I’m coming to LeBron’s home”, disse Wade

Ah, como foram eles felizes em Miami! Quando em 2010 LeBron James aterrou na Flórida, já Dwyane Wade tinha feito dos Heat campeões. O título de 2006 acabou por não ter continuidade, mas com James a equipa de Miami conseguiria assim de chofre quatro idas às finais, em que venceria dois títulos. Depois LeBron voltou a casa e também o próprio Wade pegou nas malinhas e foi no último ano jogar para a sua cidade natal, para os Bulls de Chicago. A coisa correu mal. Bem, correu mesmo bastante mal: além das lesões,o ego de Wade colidiu com o ego de Rajon Rondo e foi quase sempre uma dor de alma ver os Bulls jogar.

Já esta imagem vai voltar a repetir-se, mas com cores diferentes: as dos Cavaliers

Já esta imagem vai voltar a repetir-se, mas com cores diferentes: as dos Cavaliers

Mike Ehrmann

E se o I’m coming home de Wade não correu bem, nada como bater à porta do amigo e abancar em sua casa. E esta época teremos o Acto II da parceria LeBron-Wade, naquela que será uma das últimas oportunidades para o base atirador juntar novo título aos três que já tem. Isto se o físico deixar: aos 35 anos, Wade tem tido recorrentes problemas com lesões.

A contratação de Wade teve pelo menos o condão de deixar LeBron feliz, numa altura em que tanto se fala da possibilidade do extremo zarpar para Los Angeles, mais propriamente para os Lakers, no próximo ano. E sobre a chegada de um dos seus melhores amigos, LeBron disse o seguinte. “Isto é um bocado como quando estás no primeiro dia de escola, entras na sala de aula e não sabes muito bem quem são os teus colegas. Até que reparas que um dos teus melhores amigos está lá e pensas: ‘Oh yeah, isto vai ser divertido, vai ser uma boa aula’”.

Resta esperar pelas lições que os dois buddys vão dar aos adversários.

Kevin My money, my decisions Durant, o magnânimo

As duas últimas offseasons mostraram um lado de Kevin Durant que muito boa gente teve dificuldades em aceitar.

Há um ano, o menino de oiro da NBA decidiu deixar os Oklahoma City Thunder, equipa de mercado pequeno, numa cidade em que era um verdadeiro herói, para procurar a glória fácil nos já pejados de talento Warriors. Discutível ou não, o certo é que a opção revelou-se certeira: logo no primeiro ano em Oakland, Durant foi campeão.

Já nesta offseason, Durant foi obrigado a desculpar-se publicamente depois de se descobrir que mantinha perfis falsos nas redes sociais, com o objetivo de atacar os seus críticos. Mais uma vez, o carácter do extremo foi questionado.

Durant é bom a afundar, mas também sabe abdicar do seu para dar aos outros

Durant é bom a afundar, mas também sabe abdicar do seu para dar aos outros

FOTO Jesse D. Garrabrant/NBAE/Getty Images

Ter perfis falsos nas redes sociais é, de facto, um bocadinho agarotado. Só que depois há decisões que só nos fazem tirar o chapéu e que confirmam que Durant é um jogador especial. Como a de aceitar renovar com os Golden State Warriors por um valor bastante abaixo do que poderia pedir, para permitir que a equipa mantivesse todas as peças que tornaram possível o título no último ano.

Na NBA, tal como em boa parte das ligas norte-americanas, cada equipa tem de respeitar um tecto salarial, o que obriga a uma verdadeira ginástica orçamental para dar aos jogadores aquilo que eles querem e merecem. E numa equipa cheia de talento como a dos Warriors, isso pode ser um verdadeiro pesadelo.

Durant quis então dar uma ajudinha, recusando um contrato máximo e abdicando de qualquer coisa como 11 milhões de dólares. Uma atitude que não é propriamente habitual entre os milionários jogadores da NBA.

“Sou um tipo inteligente e quero manter esta equipa a rolar. E o Andre Iguodala, o Shaun Livingston e o Steph Curry merecem ser bem pagos, porque todos estavam a ser pagos abaixo daquilo que valem. Por isso apenas dei um passo atrás. Quero manter esta equipa junta e pensei que assim poderia ajudar os proprietários a manter todos os jogadores”.

Não só ajudou, como ainda permitiu que os Warriors contratassem Nick Young e Omri Casspi, tornando a equipa ainda mais profunda em termos de talento.

Curiosamente, a atitude de Durant valeu-lhe críticas - sim, é verdade. Tudo inveja, seguramente.

“É o meu dinheiro, são as minhas decisões. Posso fazer o que quiser com ele!”, barafustou o MVP das últimas finais ao jornal “The Athletic San Francisco”. “Só criticam porque são os Warriors e toda a gente adora odiar tudo o que fazemos. As pessoas achavam que o dinheiro nos ia separar e eu não quero que isso aconteça”.

E pronto, assim levámos todos uma lição de Kevin Durant, que se tivesse tido uma banda em Manchester nos anos 80 estaria neste momento a cantar: Money, money won’t tear us apart, again.

Carmelo e Paul: em busca de últimas oportunidades

Carmelo Anthony está muito perto de se tornar no Charles Barkley dos nossos tempos. Ano após ano um dos grandes jogadores da liga, mas títulos, nem vê-los. Aconteceu em Denver e depois em Nova Iorque, onde inicialmente fez uma bela dupla com Amar’e (não é gralha, o nome do homem escreve-se mesmo assim) Stoudemire, mas sem nunca sequer aproximar-se do anel.

Nos últimos anos, com a chegada de Phil Jackson aos escritórios do Madison Square Garden, a coisa ficou ainda mais patética: o talento matador de Carmelo foi aparecendo apenas a espaços e os Knicks passaram a lutar para não serem uma das piores equipas da NBA.

Pois bem, Carmelo tornou-se assim uma espécie de ativo tóxico dos Knicks e aos 33 anos percebeu que não era ali que ia ganhar fosse o que fosse. Falou-se insistentemente numa troca para os Cavs de LeBron, mas de forma algo surpreendente, Anthony aterrou em Oklahoma City, para reforçar uns Thunder que além do Sr. Triplo-Duplo, Russell Westbrook, têm agora ainda outro talento, o ex-Pacers Paul George. Chega para o título? Numa era em que existem os Warriors, provavelmente não, mas finalmente sem ser a estrela da equipa, Carmelo ficará mais perto do anel do que na Big Apple.

Carmelo na foto oficial dos Thunder sem tirar o capuz. Às tantas estava frio

Carmelo na foto oficial dos Thunder sem tirar o capuz. Às tantas estava frio

Cooper Neill/Getty

Quem também resolveu começar de novo foi o base Chris Paul, 32 anos e outro dos grandes jogadores da liga que nunca venceu um anel. Um título que muito provavelmente lhe foi roubado quando em 2011 a NBA vetou a transferência de Paul para os Lakers de Kobe Bryant, alegando “basketball reasons”, seja lá o que isso for. Paul seguiria para Los Angeles, mas para os Clippers, equipa que a partir daí se tornaria um habitué nos playoffs, mas a quem faltou sempre um bocadinho assim.

Cansado desse bocadinho assim, Paul vai agora tentar o título em Houston, ao lado do barbudo Harden, naquele que será um dos backcourts mais entusiasmantes da liga.

Lonzo Ball, o rookie de quem todos falam

Foi uma das novelas mais animadas da offseason. Onde iria parar Lonzo Ball, o prospect mais mediático dos últimos anos na NBA? Pois bem, apesar do crescimento pouco convencional, das estratégias de marketing e do linguarudo pai (falámos de tudo isso aqui), os Lakers arriscaram e escolheram Lonzo no 2.º posto do draft, para alegria do pai LaVar, que sempre sonhou ver o miúdo, o mais velho de três irmãos, com as cores da equipa de Los Angeles.

Minhas senhoras e meus senhores, Lonzo Ball, filho de LaVar

Minhas senhoras e meus senhores, Lonzo Ball, filho de LaVar

Ethan Miller/Getty

Depois de recusar milhões de todas as mais importantes marcas de sapatilhas e de optar por usar uns ténis de fabrico próprio (da sua marca, a BBB), Lonzo brilhou na Summer League e a expectativa para ver o que vale nos jogos a sério é um dos maiores atrativos desta nova temporada da NBA. E os que desejam secretamente que falhe serão talvez mais do que aqueles que gostariam de ver Lonzo tornar-se uma das estrelas da liga. A culpa, essa, é do pai.

Publicidade nas camisolas? Sim, é uma realidade

Já falámos aqui em dinheiro, ele continua a ser deveras importante no desporto, ao ponto de tradições milenares deixarem de ter muita importância perante um chorudo cheque. E depois do Barcelona começar a ter publicidade nas suas camisolas de futebol, também as camisolas das equipas da NBA terão este ano pela primeira vez anunciantes.

A medida terá um período experimental de três anos e, de acordo com o comissário da liga, Adam Silver, poderá gerar qualquer coisa como “100 milhões de dólares”. O que é muito dólar para deixar as camisolas da NBA imaculadas e livres de qualquer publicidade, como continuam a defender os mais puristas.

Aqui está o espanhol Ricky Rubio, luzindo uma camisola Jazz já com um pequeno logo publicitário. Habituem-se

Aqui está o espanhol Ricky Rubio, luzindo uma camisola Jazz já com um pequeno logo publicitário. Habituem-se

Gene Sweeney Jr.

Mas no fim do dia, a NBA também é um negócio.

Nada disto se faz sem regras e por isso não temam que as camisolas da NBA de repente se tornem uma espécie de carro de ralis, com emblemas por todo o lado. Só poderá haver um logo e este não deve ter mais de 6,5 cm por 6,5 cm. Mal se vai ver, portanto.

Das 30 equipas da liga, 17 já vão luzir uniformes com publicidade a partir desta madrugada.

Um All-Star versão salada de frutas

A planeta está em constante evolução e, diga-se de passagem, a NBA será porventura uma das ligas mais abertas a mudanças no panorama do desporto norte-americano. E além da questão dos patrocínios nas camisolas, há mais alterações para a nova temporada, nomeadamente no All-Star Game, que deixará de ser jogado entre uma equipa de jogadores da Conferência Este e outra da Conferência Oeste.

Jogos entre o Este e o Oeste passam a ser coisa do passado na NBA

Jogos entre o Este e o Oeste passam a ser coisa do passado na NBA

Elsa/Getty

Assim, numa tentativa de tornar o jogo mais interessante, numa altura em que boa parte do talento da NBA está concentrado a Oeste, o formato do All-Star Game, que se jogará em Los Angeles a 18 de fevereiro de 2018, vai passar a ser uma espécie de draft, sem que o público deixe de ter peso na escolha dos jogadores.

Haverá dois capitães, que serão os jogadores de cada conferência mais votados pelo povo e caberá a esses dois capitães escolher de um conjunto de jogadores previamente eleitos. E aí sim, essa escolha será independente das conferências onde estes atuam.

Como habitualmente, os 10 jogadores que serão titulares vão ser eleitos numa combinação de voto popular (50%), jogadores (25%) e jornalistas (25%). Já os suplentes serão escolhidos pelos dois treinadores das equipas.