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Jaylen Brown, o miúdo que é “demasiado inteligente” para a NBA

Estudou numa das mais prestigiadas universidades dos Estados Unidos, fala espanhol, aprendeu árabe. Toca piano, guitarra e joga xadrez. Está a caminho de se tornar vegetariano. Fala com a mesma destreza de soccer, Donald Trump, racismo ou educação. Ah, e também é um dos melhores jovens jogadores da NBA. Este é Jaylen Brown, 21 anos apenas, o basquetebolista mais interessante do mundo

Lídia Paralta Gomes

Maddie Meyer/Getty

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A primeira vez que Jaylen Brown esteve em Londres foi no verão passado. Mal aterrou na capital britânica, uma das primeiras paragens foi o Big Ben. Nada estranho, se tivermos em consideração que o Big Ben será muito provavelmente o mais icónico dos símbolos de Londres e, causa-consequência, um dos monumentos mais visitados da cidade, do mundo até. Mais curioso se lermos as razões que levaram o basquetebolista dos Boston Celtics a escolher o Big Ben como ponto essencial no roteiro londrino.

“Fui ao Big Ben porque um dos meus ídolos é o Benjamin Banneker”.

Benjamin Banneker foi um inventor e cientista afro-americano, filho de escravos, que no século 18 terá construído o primeiro relógio em território norte-americano. Não é, convenhamos, o mais comum dos ídolos para um jogador de basquetebol de 21 anos. Mas Jaylen Brown também não é o mais comum dos desportistas.

Aliás, Jaylen Brown é bem capaz de ser o basquetebolista mais interessante do mundo.

Brown recordou a história do Big Ben numa recente entrevista ao “The Guardian” por ocasião do seu regresso a Londres, desta vez para jogar. Esta noite, os Celtics defrontam os Philadelphia 76ers na já habitual paragem da mais importante liga de basquetebol do mundo pela Europa.

O miúdo que cresceu em Marietta, um dos maiores subúrbios de Atlanta, vive com tranquilidade o seu segundo ano na NBA, depois de ter sido escolhido na posição 3 do draft de 2016. Uma posição alta e um risco que os Celtics tomaram por um jogador que não era consensual entre os executivos das equipas de uma liga em que qualquer decisão vale milhões de dólares. Ganhos ou perdidos.

Por isso mesmo, é importante minimizar a margem de erro: o passado de todos os candidatos a caloiros é passado a pente fino e tenta-se prever com a maior exatidão possível o seu futuro, numa avaliação em que o lado mental é tão ou mais importante que o talento desportivo. Era precisamente no quesito “atitude” que Brown deixava dúvidas, mas não pelas questões habituais da falta de ética de trabalho ou propensão para arranjar problemas.

O que assustava os executivos era que o rapaz parecia “demasiado inteligente” para a NBA.

O académico Jaylen

Tipos que fogem ao estereótipo do atleta grandalhão que só pensa em enfiar a bola dentro de um cesto sempre existiram. Não é estranho ver críticas de cinema de Kareem Abdul-Jabbar em publicações norte-americanas. Chris Bosh sabe programar. Pau Gasol chegou a estar inscrito na Faculdade de Medicina da Universidade de Barcelona - aos 11 anos, quando soube que Magic Johnson era VIH-positivo, meteu na cabeça que ia encontrar a cura para a SIDA. Depois de sair dos Lakers, e com um ror de equipas atrás de si, Gasol optou pelos Bulls justificando a escolha com a vida cultural de Chicago, nomeadamente a extensa programação da Ópera da cidade.

Jaylen Brown tem 21 anos e foi a 3.ª escolha do draft em 2016

Jaylen Brown tem 21 anos e foi a 3.ª escolha do draft em 2016

Maddie Meyer/Getty

Não consta que Jaylen Brown goste de ópera, mas toca piano e guitarra, instrumentos que começou por aprender sozinho. Durante o ano que passou na Universidade de Berkeley, na Califórnia, aprendeu espanhol, algum árabe e quer estudar mais um par de línguas nos próximos quatro anos. Na tal entrevista ao “The Guardian”, sublinhou que o basquetebol é apenas um de muitos interesses e que sente falta do estímulo intelectual que tinha todos os dias em Berkeley, uma das melhores universidades do mundo e onde escolheu estudar e jogar em detrimento de programas históricos no basquetebol universitário como Kentucky, Carolina do Norte ou Kansas, normalmente eleitos por aqueles a quem se augura uma carreira de sucesso na NBA.

“Estou bem em Boston, mas em Berkeley aprendia uma coisa nova todos os dias”, lamentou ao jornal britânico. Na faculdade, por entre os jogos e os treinos dos Golden Bears, estudou temas como a pobreza global ou ativismo político, porque um dia quer deitar abaixo muitas ideias feitas sobre “as pessoas que são pobres ou sem-abrigo”, disse ainda antes de chegar à NBA, numa entrevista à ESPN, em que garantiu que o curso em Berkeley está apenas em banho-maria e que é para acabar quando deixar de jogar.

Jaylen é ainda um ávido leitor e jogador de xadrez, um jogo que, diz “é comparável à vida”. Depois de aprender o básico com o avô, chegou a ser capitão do clube da sua escola secundária. Em Berkeley aproveitou para ter aulas. “Quando entrei na aula de xadrez, toda a gente olhou para mim como se eu estivesse perdido e na sala errada”. Provavelmente a surpresa é a mesma quando chega a um restaurante e pede um dos seus pratos favoritos, arroz vegetariano com extra de coentros, que acompanha com smoothies de manga. Há muito que Brown riscou carne vermelha e de porco da sua dieta.

Política, Donald Trump e a “máquina” americana

O “demasiado inteligente”, antes de entusiasmar, intimida. Porque quem se move nos meandros do desporto está pouco habituado a atletas que olhem para o mundo, que sejam curiosos e que pensem pela sua cabeça. Alguns, e basta olhar para o caso de Colin Kaepernick, são vistos até como perigosos.

“É muito inquisitivo sobre tudo. E porque é muito inteligente, isso pode intimidar algumas equipas. Quer saber qual é a razão de se estar a fazer uma coisa, em vez de apenas fazê-la. Não acho que isso seja mau, mas é uma forma de questionar a autoridade”, confessou à ESPN um general manager da liga, dias antes do draft de 2016. Esse executivo, uma das tais figuras que tem de avaliar os prós e os contras de todas as decisões de uma equipa, esclareceu ainda, sempre sob anonimato, que Brown é um rapaz “sem malícia”, mas que a sua atitude poderia não ser compreendida pelos treinadores da velha guarda.

Os Boston Celtics, que curiosamente têm um dos treinadores mais jovens da liga, Brad Stevens, de 41 anos, não se atemorizaram e o nome de Jaylen Brown foi chamado logo à terceira. E depois de um ano de rookie interessante, mas discreto, Brown está no segundo ano a melhorar em todas as estatísticas de jogo e a sua inteligência e poder atlético fazem dele um dos jogadores mais fiáveis da nova geração.

Opiniões e preocupações, essas continuam fortes, ainda para mais numa América altamente dividida desde a chegada de Donald Trump à presidência. Relembrando a sua infância na Georgia ao “The Guardian” e apesar de reconhecer que as suas oportunidades são hoje muito maiores do que aquelas que existiam há 50 anos para os afro-americanos, Brown sublinha que “definitivamente ainda há muito racismo” nos Estados Unidos. “Está escondido nos lugares mais estratégicos. E Donald Trump tornou mais aceitável que um racista fale sobre as suas ideias”. Sobre o presidente dos Estados Unidos, Brown diz, sem papas na língua, que é “incapacitado para liderar”.

A educação, por exemplo, é um desses lugares estratégicos onde o racismo ainda é perpetuado. “Em Berkeley aprendi mais sobre aquele racismo subtil e de como ele está presente no nosso sistema educativo através de currículos que escondem informação”. Antes de decidir fazer uma pausa nos estudos e apresentar-se no draft da NBA, Brown escreveu uma dissertação sobre o impacto do desporto no sistema educativo e sobre a engrenagem norte-americana, “uma máquina que, para colocar pessoas no topo, tem de colocar outras para baixo”.

E antes de fazer a diferença lá fora, Brown que, não esqueçamos, tem apenas 21 anos, quer ter o seu papel na NBA: um dos seus objetivos é tornar-se representante no sindicato dos jogadores.

A ética de Kobe

Na tal visita a Londres do último verão, Jaylen Brown conheceu Thierry Henry e entre ambos nasceu uma relação de muita proximidade. “Tive a oportunidade de falar com ele num evento e continuamos a trocar ideias. Ele dá-me muitos conselhos, sobre o desporto e sobre a vida. Para mim é um dos melhores de sempre”, disse ao “The Guardian”. Brown adora futebol e sempre foi um adepto do Barcelona - “por causa de Ronaldinho e Messi” -, mas agora, culpa de Henry, também é adepto do Arsenal. Aliás, aproveitando a passagem por Londres, esteve na quarta-feira no encontro entre os gunners e o Chelsea, da Taça da Liga Inglesa.

Brown fala espanhol, sabe árabe, toca piano e guitarra e ainda joga xadrez: este não é o seu jogador da NBA comum

Brown fala espanhol, sabe árabe, toca piano e guitarra e ainda joga xadrez: este não é o seu jogador da NBA comum

Maddie Meyer/Getty

A paixão pelo soccer partilha-a com outro dos seus ídolos, Kobe Bryant, com quem aprendeu o que é ética de trabalho. Foi Brian Shaw, uma das pessoas do círculo de confiança de Brown - que não tem agente mas rodeou-se de alguns conselheiros com passado de peso na liga -, que lhe contou tudo sobre os métodos de Kobe, com quem Shaw ganhou cinco títulos nos Lakers: três como colega de equipa e dois como treinador adjunto.

“Contou-me que o Kobe acordava às 4 ou às 5 da madrugada e que às 5h30 já estava no pavilhão. Às 6h30 já estava ensopado em suor, às 8h já estava a levantar pesos e às 10h voltava ao pavilhão. Tudo o que o Kobe conquistou deveu-se a uma incansável e imparável ética de trabalho”, confessou à ESPN. “Acredito piamente que são precisas 20 mil horas para se ser grande. O Kobe fê-las e eu quero seguir esse modelo”.

E é um belo modelo.