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O treinador dos Warriors não estava a chegar aos seus jogadores. Então colocou-os a treinar-se a si próprios

As 13 derrotas que os Golden State Warriors somam este ano não são nada de grave para qualquer outra equipa. Só que os Warriors não estão habituados a perder tanto. Por isso mesmo, Steve Kerr irritou-se com a atitude dos jogadores e tomou uma decisão pouco ortodoxa: no jogo frente aos Suns, foram os próprios basquetebolistas a dar a tática e a desenhar as jogadas. E ganharam

Lídia Paralta Gomes

Rob Carr/Getty

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Desde que chegou aos Golden State Warriors, em 2014, que Steve Kerr deitou a mão a tudo o que é possível deitar a mão na NBA: foi campeão duas vezes, em 2015 e 2017, e treinador do ano em 2016, ano em que levou os californianos ao melhor registo de sempre na temporada regular da NBA, com 73 vitórias e apenas nove derrotas.

Mas até nos casamentos felizes há arrufos. Às vezes por desgaste, às vezes apenas por causa do rotineiro desenrolar dos dias.

Porque os Warriors continuam a ganhar. Lideram de momento a Conferência Oeste, com um registo de 44-13, que é bom, bastante bom. Só que os critérios dos Warriors, super-equipa que junta Stephen Curry, Kevin Durant e Klay Thompson são bem mais exigentes: a pouco mais de meio da temporada regular, os campeões em título têm já mais derrotas do que em toda a temporada 2015/16 e quase tantas como em toda a época passada, em que perderam apenas 15 dos 82 jogos.

Não é caso para falar de crise, mas os Warriors deste ano estão mais previsíveis, moles, sem chama.

E para grandes (vá, médios) males, grandes remédios. Descontente com o compromisso dos seus jogadores, Steve Kerr entregou-lhes o comando da equipa no encontro com os Phoenix Suns, na segunda-feira. O treinador colocou-se na retaguarda e durante os 48 minutos do jogo viu como Stephen Curry, Draymond Green, Andre Iguodala ou David West se revezavam na tentativa de desenhar jogadas, incentivar os colegas, afinar estratégias.

E, guess what?, resultou. O puxão de orelhas disfarçado de liderança comunitária valeu uma concludente vitória frente aos Suns, por 123-89, 46 pontos de diferença, portanto. Os Warriors voltaram a ser aquela equipa suave, em que tudo funciona, de tiro fácil e domínio da bola absoluto.

Steve Kerr era naturalmente um líder orgulhoso no final do encontro. Não só pela vitória, mas também por a lição ter claramente funcionado.

“Disse-lhes as minhas intenções no final do último jogo. Uma das primeiras coisas que tens de pensar quando és treinador é que a equipa é dos jogadores, não é do treinador, do proprietário ou do general manager. A equipa é deles e eles têm responsabilidades. O trabalho do treinador é colocá-los na direção certa, guiá-los, mas não os controlamos: eles determinam o seu próprio destino”, explicou o técnico, falando da sua pouco ortodoxa medida de gestão de balneário.

Sentindo a equipa “nada focada” no último mês, Kerr percebeu que tinha de fazer algo diferente e que marcasse uma posição. “Tinha de fazer alguma coisa para chegar aos jogadores. Algo que não tenho conseguido fazer no último mês. Eles estão cansados da minha voz e eu estou cansado da minha voz”, disse ainda o treinador, que admitiu que nas últimas semanas sentia que os seus jogadores olhavam para ele como se ele fosse “o professor ou os pais do Charlie Brown”.

“Tem sido uma longa caminhada nestes últimos anos. Percebi que a minha mensagem já não estava a chegar e senti que esta era uma boa noite para tirar um coelho da cartola e fazer algo diferente”, continuou, na conferência de imprensa após o encontro.

Era uma boa noite porque, desconfiamos, do outro lado estava uma das piores equipas da liga. E dentro da cúpula dos Suns, nem toda a gente levou a bem.

Um desrespeito?

Os Phoenix Suns são neste momento penúltimos na Conferência Oeste, com 40 derrotas e apenas 18 vitórias. Será certamente mais um ano sem playoffs para a equipa do Arizona, onde há jogadores cansados da equipa ser uma espécie de bobo da corte da NBA.

Stephen Curry, durante a vitória dos Warriors frente aos Suns por 123-89

Stephen Curry, durante a vitória dos Warriors frente aos Suns por 123-89

JOHN G. MABANGLO/Getty

“É desrespeitoso. Podes crer que é desrespeitoso”, sublinhou o base Troy Daniels no final do encontro. “Parece que não é difícil treinar estes tipos. Imagino que qualquer um possa fazê-lo”, continuou o jogador dos Suns, visivelmente irritado e acintoso. Perder por quase 50 pontos frente a uma equipa treinada pelos próprios jogadores deixa marcas.

Jared Dudley, veterano de 32 anos, também não foi meigo, mas também não se furtou à autocrítica: “O que eles fizeram mostra uma falta de respeito enorme pelo adversário. Mas neste momento talvez não mereçamos respeito. Quando és sucessivamente derrotado por 40 pontos, as equipas não te vão respeitar. E está nas nossas mãos mudar isso”.

Já Devin Booker, o miúdo de 21 anos que é uma das grandes esperanças de futuro dos Suns, preferiu ver os dois lados da história. “Por um lado podes dizer que qualquer pessoa pode treinar a equipa, mas também podes ver isto como um bom método”, disse Booker à ESPN. “Eu gostei da cartada, confesso. Se fosse treinador acho que o faria algumas vezes ao longo do ano. Assim deixaria até de parecer desrespeitoso”.

Indiferente às críticas, Steve Kerr defendeu-se, sublinhou que explicou toda a situação ao treinador dos Suns, Jay Triano (que disse mais tarde não ter qualquer problema com a “tática” de Kerr) e comentou por fim o desempenho dos seus jogadores no banco. “Estiveram focados e quando estamos focados somos uma equipa muito complicada de bater. Eles comunicaram muito bem uns com os outros e desenharam algumas belas jogadas”.

Bem, nem todos. Stephen Curry, por exemplo, confessou as dificuldades que teve em gerir a equipa. “Fui horroroso. Pensei numa jogada e depois esqueci-me da segunda opção. Noutra situação tinha dois jogadores em posições erradas no quadro”.

Não se pode ser genial a tudo, meu caro Stephen.