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Kevin Love passou 29 anos a achar que a saúde mental era um problema dos outros. Até sofrer um ataque de pânico em pleno jogo

O jogador dos Cleveland Cavaliers colocou em palavras os minutos em que, naquela noite de 5 de novembro, frente aos Hawks, o seu corpo lhe pareceu dizer "estás prestes a morrer". Ele que pensava ser "a última pessoa a precisar de ajuda". A psicóloga Ana Bispo Ramires explica-nos que não tem de haver "uma razão evidente" para surgir um ataque de pânico, mas que estes tendem a manifestar-se em picos de stress, "sejam eles positivos ou negativos"

Lídia Paralta Gomes

Kevin Love, jogador dos Cleveland Cavaliers

Stacy Revere/Getty

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Kevin Love cresceu forte e saudável no simpático subúrbio de Lake Oswego, nos arredores de Portland. O seu pai, Stan, havia tido uma curta passagem pela NBA nos anos 70 para depois aproveitar a sua estampa física (2.06m e quase 100 quilos) para trabalhar como guarda-costas dos Beach Boys, banda da qual o seu irmão, Mike Love, era membro e fundador.

Numa família de atletas e músicos, a Kevin calhou-lhe o talento para saber lançar uma bola de basquetebol. Tornou-se rapidamente num dos melhores jogadores jovens do estado do Oregon, cresceu ainda mais que o pai (chegou aos 2.08m) e aos 18 anos recebeu uma bolsa para jogar pelos UCLA Bruins, a mais titulada equipa de basquetebol universitário dos Estados Unidos - Kevin confessou em tempos que só quando chegou a Los Angeles e toda a gente lhe começou a perguntar sobre o seu apelido é que percebeu a dimensão dos Beach Boys.

Após um bom ano na equipa da Universidade da Califórnia, seguiu com o colega Russell Westbrook para o draft da NBA: o base foi o 4.º a ser chamado, Love foi o 5.º. E ambos confirmaram as expectativas reservadas para quem é escolhido de forma tão prematura no draft. Se Westbrook é um dos bases mais entusiasmantes da liga e foi MVP na última temporada, Kevin Love é um dos melhores grandalhões da NBA, combinando um bom tiro com uma melhor capacidade de ir buscar ressaltos - que ajudaram e muito os Cleveland Cavaliers a serem campeões em 2016.

Parece tudo certo na vida de Kevin Love, não parece?

Ele também achava que estava tudo bem até ao passado dia 5 de novembro. Nessa noite, durante o jogo dos Cavaliers contra os Atlanta Hawks, Kevin Love teve um ataque de pânico.

Um pânico inesperado

Tudo aconteceu durante um time out, pouco depois do início do 3.º período de um jogo que não estava a correr nada bem a Love.

“Senti o meu coração a bater mais forte que o habitual. Depois comecei a ter problemas a respirar, tudo estava a girar, como se o meu cérebro estivesse a tentar sair da minha cabeça. O ar era denso, pesado e a minha boca parecia feita de giz”. Esta é a descrição do momento em que tudo lhe fugiu das mãos e foi feita pelo próprio Kevin Love no The Players Tribune', num texto a que deu o nome de “Toda a gente está a passar por algo”.

Kevin Love partilhou a sua experiência no site The Players' Tribune

Kevin Love partilhou a sua experiência no site The Players' Tribune

Al Bello/Getty

Percebendo que algo estava errado, Love pediu para sair de jogo. Começou então a deambular por entre as salas da Quicken Loans Arena, casa dos Cavs - “como se estivesse à procura de algo que não conseguia encontrar” -, esperando que o coração acalmasse. “Era como se o meu corpo me estivesse a dizer ‘Estás prestes a morrer’”, explicou ainda. Acabou deitado no chão de uma das salas de treino, de costas, “a tentar encontrar ar para respirar”. Nos exames médicos que fez de seguida, tudo estava bem.

Com o seu corpo. Não com o resto.

“Aquilo chegou do nada. Nunca tinha tido um ataque de pânico. Aliás, eu nem sequer sabia que era uma coisa real. Mas foi real - tão real quanto uma mão partida ou um tornozelo torcido”, continuou.

Seguiram-se semanas de confusão para Kevin Love. Durante 29 anos, Kevin Love tinha pensado que as doenças mentais eram um problema dos outros e que seria a última pessoa a precisar de um psicólogo. Afinal, ele era o rapaz que tinha crescido feliz, confiante, num ambiente estruturado, que tinha realizado o seu sonho de chegar à NBA. “Lembro-me de pensar: ‘Mas quais são os meus problemas? Sou saudável. Pagam-me para jogar basquetebol. Mas que raio me preocupa?’”.

Foi então que Love resolveu deixar de lado tudo o que pensava sobre si e começar a fazer psicoterapia. Foi também então que Love percebeu que a sua dificuldade em falar sobre o que lhe era mais íntimo tinha atingido um qualquer limite. “Nunca me senti muito à vontade para partilhar muito sobre mim. Fiz 29 anos em setembro e durante 29 anos sempre fui muito protetor de tudo o que tivesse a ver com o meu interior”, explica no texto. É uma coisa de rapazes, diz Love. “Enquanto cresces, ensinam-te o que é preciso para ‘ser um homem’: sê forte, não fales do que sentes, safa-te sozinho’”.

Naquela noite de 5 de novembro, criou-se aquilo que Kevin Love chamou de “a tempestade perfeita”. Aos anos e anos de silêncio, de encerramento em si próprio, juntou-se a conjuntura: “Andava stressado por causa de umas questões familiares. Não andava a dormir bem. E no campo, as expectativas para a temporada, combinadas com o arranque fraco da nossa equipa, estavam a pesar-me muito”.

Sem perceber, Kevin Love tornou-se numa bomba-relógio - que explodiu naquela noite.

“É como se disparasse a sirene dos bombeiros dentro do quartel e não sabemos onde está o fogo”, responde-nos a psicóloga clínica Ana Bispo Ramires à pergunta “Mas afinal, o que é um ataque de pânico?”. “Há uma desorganização de resposta fisiológica, de repente o corpo entra todo ao rubro”, diz à Tribuna Expresso, frisando que essas manifestações fisiológicas não são iguais “de pessoa para pessoa”.

Habituada a trabalhar com atletas de alto rendimento, Ana Bispo Ramires explica que, ao contrário do que normalmente acontece num pico de ansiedade, um ataque de pânico não está “necessariamente direcionado para alguma coisa” e pode acontecer “sem haver uma razão evidente”. Tendem, no entanto, a manifestar-se em picos de stress “sejam eles positivos ou negativos”.

Falar para que os outros possam falar

A NBA é um desporto de homens rijos e no balneário não há muito espaço para desabafar as dores. E para Kevin Love pedir ajuda parecia, inicialmente, uma forma de fraqueza. “Algo que podia tolher o meu sucesso ou fazer-me parecer estranho ou diferente. Não queria que os meus colegas olhassem para mim como alguém menos confiável em campo”.

Mas agora, meses após ter iniciado psicoterapia, Love finalmente percebeu o poder que é começar a conhecer-se a si próprio e livremente confessar os seus medos, falar sobre eles. Para mais num ambiente como a NBA, em que nem sempre a saúde mental é levada a sério. Por isso, o jogador dos Cavs confessou a sua luta, para que no futuro outros o possam fazer, sem receios ou resistências.

O empurrão que faltava para Kevin Love falar da sua experiência foi dado por um colega de profissão. Pouco tempo depois da paragem para o All-Star Weekend, DeMar DeRozen, base dos Toronto Raptors, falou brevemente sobre a sua luta contra a depressão, sobre aquele sentimento de, como explicou o jogador, ter “o mundo inteiro em cima de si”.

Quando olhamos para desportistas de alta competição bem-sucedidos esperamos ver mulheres e homens de ferro. Mas, como escreveu Kevin Love, toda a gente está a passar por algo. Como Chris Hoy, um dos melhores ciclista de pista da história, dono de sete medalhas olímpicas. Também ele admitiu sofrer de ataques de pânico. Ou Missy Franklin, a nadadora-estrela dos Jogos de Londres, em 2012, que começou a ter ataques de pânico quando, de repente, se viu a lutar pela qualificação em provas em que anteriormente quebrava recordes mundiais. Bubba Watson, golfista, vencedor de dois majors. Também ele admitiu ter tido ataques de pânico ao longo da carreira.

Ana Bispo Ramires sublinha que os ataques de pânico “não são assim tão comuns”, mas que na população geral há uma cada vez “maior propensão para tudo o que tem a ver com sintomatologia ligada à ansiedade e que, por isso, também os atletas sofrem mais deste tipo de manifestações”. Mas recusa que o desporto de alto rendimento, apesar da sua exigência, tenha características que potenciem episódios de ataques de pânico.

O extremo conquistou o título em 2016, ao lado de LeBron James

O extremo conquistou o título em 2016, ao lado de LeBron James

Mitchell Leff/Getty

“Depende sempre da pessoa que vive essas características e a forma como as vive. Há determinadas características de um desporto que podem ser vividas como stress negativo e eu posso vivê-las como stress positivo. Há quem lide mal com um estádio cheio e há quem adore e se supere nesse determinado contexto. A resposta é muito individualizada. Cada atleta deve procurar quais os interruptores que o tornam disfuncional e os interruptores que o tornam funcional”, explica a psicóloga, que diz que “em Portugal, tendencialmente os atletas procuram apoio psicológico já em crise”, quando estão já com questões de ansiedade instalada. “E esse não é o plano ideal. O plano ideal é um atleta desenvolver as suas competências mentais tal como desenvolve as técnico-táticas”, frisa.

E antes de surgir uma situação limite, como a de Kevin Love naquele dia 5 de novembro. “Se estiver a ler isto e a passar um mau bocado, não interessa quão grande ou pequeno lhe pareça, eu queria lembrá-lo que não é esquisito ou diferente por partilhar o que vai aí dentro”.

Ele partilhou e tirou um enorme peso de cima.