Tribuna Expresso

Perfil

NBA

As finais de conferência da NBA: nada de novo, tudo de novo, tudo é novo

É já no domingo que arrancam as finais das Conferências Este e Oeste (Boston Celtics-Cleveland Cavaliers e Houston Rockets-Golden State Warriors), de onde sairão os dois finalistas da NBA. Isto numa temporada que, mesmo com atores mais ou menos parecidos, tem sido menos previsível que as anteriores e ainda bem. Haverá LeBron James em modo 'eu contra o mundo', um grupo de garotos que tomou a responsabilidade das estrelas e duas equipas semelhantes no estilo e que serão, muito provavelmente, as grandes favoritas ao título - o problema é que só uma delas pode passar

Lídia Paralta Gomes

Matthew J. Lee/The Boston Globe via Getty Images

Partilhar

No início da última temporada, apostar numa final da NBA que não fosse uma final entre Cleveland Cavaliers e Golden State Warriors era assim mais ou menos o mesmo que apostar que a chave do Euromilhões seria 1-2-3-4-5-6-7. Se era possível acontecer? Sim, claro que era. Mas as probabilidades eram tão ínfimas que fazer uma aposta destas significaria apenas ter um gosto inexplicável por perder dinheiro. Ele há gostos para tudo, mas para este em particular, não acredito.

A lógica, sabemos hoje, prevaleceu: Cavs e Warriors efectivamente venceram as suas finais de conferência e discutiram o título da NBA pela 3.ª vez consecutiva, com vitória para a equipa da Califórnia. Foi a primeira vez na história da liga que as mesmas equipas jogaram três finais seguidas e, de repente, a malta que consagra esta altura do ano a deitar-se muito tarde, porque os fusos horários estão aí e são para todos, perguntou-se se a NBA não estava a ficar um pouco chata.

Não lhe chamemos chata, mas pelo menos mais previsível. E se este ano Cavs e Warriors partiam igualmente no grupo dos favoritos à presença nas finais, pelo menos não eram os favoritos, porque uma das equipas perdeu jogadores (Cavs), a outra ficou mais ou menos na mesma (Warriors) e, entretanto, aqueles que estavam à espreita reforçaram-se e entraram no grupo dos, quanto mais não seja, potenciais finalistas.

E desses, quem se muniu com mais qualidade e cabecinha foram os Boston Celtics, que até já tinham estado na final da Conferência Este em 2017, mas foram devidamente estraçalhados pelos Cavs - e os Houston Rockets.

Estas são as duas equipas que vão tentar que não haja um duelo entre Cavaliers e Warriors pela quarta vez consecutiva nas finais da NBA.

Na última temporada, os Warriors bateram os Cavs na final. Foi a 3.ª vez seguida que as duas equipas discutiram o título

Na última temporada, os Warriors bateram os Cavs na final. Foi a 3.ª vez seguida que as duas equipas discutiram o título

Kyle Terada/Pool/Getty Images

As finais de conferência arrancam já no domingo, com o jogo 1 entre os melhores do Este, Celtics e Cavs (transmissão em diferido na Sport TV1 a partir das 20h10 de Portugal Continental), e seguem no dia seguinte com os finalistas do Oeste, Houston Rockets e Golden State Warriors (em direto na Sport TV1, já às 2h de terça-feira em Lisboa).

E por aí adiante, até uma das equipas chegar às quatro vitórias, palavra-chave para a final.

ESTE: Acreditem no processo, I mean, no outro processo e depois da tempestade, vem LeBron James

Ora, a história de como aqui chegámos a esta final de Conferência Este tem mais twists que um thriller de ação e mais altos e baixos que uma montanha-russa. Boston Celtics e Cleveland Cavaliers arrancaram a temporada como principais favoritos à presença na final, ali a meio da época já ninguém acreditava em qualquer um deles para, já em plenos playoffs, voltarem a ressurgir, quais fénix, como as equipas mais fortes da mais fraca das conferências. Por motivos bem diferentes, diga-se, uns mais coletivos, outros mais individuais.

Mas vamos lá recapitular, porque isto tem muito que se lhe diga e começa bem antes da bola sequer começar a ser lançada ao cesto na nova época. Porque antes de tudo isso, Kyrie Irving, o base que os Cavs escolheram na 1.ª posição do draft de 2011, achou que já chegava de dividir o estrelato em Cleveland com LeBron James e pediu para ser trocado. O destino foi, lá está, Boston, que para lá da operação Irving - que, em sentido contrário, enviou Isaiah Thomas, Jae Crowder, Ante Zizic e uma 1.ª ronda de draft para Cleveland - ainda foram buscar uma das mais apetitosas trutas da free agency: o extremo Gordon Hayward, em final de contrato com os Utah Jazz.

LeBron e Kyrie: antes colegas, agora rivais

LeBron e Kyrie: antes colegas, agora rivais

Adam Glanzman/Getty

Vamos agora retroceder até ao dia 17 de outubro de 2017. Primeiro jogo dos Celtics na temporada, precisamente frente aos Cavs. Aos seis minutos de jogo, Hayward tenta apanhar um passe para alley-oop de Irving, cai mal, parte a tíbia da perna esquerda e ainda desloca o tornozelo.

Diagnóstico: de fora até ao final da época. Mesmo sem uma das estrelas. Kyrie Irving toma conta do assunto e a equipa assume sem dificuldades os primeiros lugares da conferência, com uma série de 16 vitórias seguidas à mistura. Até que em março Irving também cai. Operado ao joelho, é colocada de parte a sua participação nos playoffs.

E, do nada, Boston fica órfão de estrelas.

Do lado de Cleveland, os buracos na estrada não foram menores. No início da época, para lá do camião de jogadores que chegou de Boston, os Cavs ainda contrataram duas estrelas a caminhar para a decadência, Derrick Rose e Dwyane Wade, que assim se reencontrou com o amigalhaço LeBron James, com quem venceu dois títulos em Miami.

Acontece que no início de fevereiro os Cavs tinham um paupérrimo registo de 31 vitórias e 22 derrotas, estavam longe de ser a melhor equipa do Este, como toda a gente estava à espera; o balneário era um saco de gatos e, perante tal cenário, política de terra queimada: a 8 de fevereiro, no espaço de uma hora, Cleveland mudou meia equipa, mandando embora, entre outros, Isaiah Thomas, Jae Crowder, Rose e Wade.

LeBron apreciou, os Cavs melhoraram um bocadinho, mas as teorias do apocalipse apareceram, os rumores sobre a saída de King James para outras paragens também, e nunca mais os Cavaliers foram levados a sério - afinal de contas, mudaram meia equipa a meio de uma época que estava a ser um pouco anedótica, seria um milagre tudo de repente, como que por magia, funcionar.

Acontece que LeBron é LeBron e nestes playoffs tem sido LeBron contra o mundo. Ele, sozinho, com uma equipa às costas, com médias de 34,3 pontos, 9,4 ressaltos e 9 assistências, a distribuir game winners, buzzer beaters, o último dos quais num lançamento em transição, à tabela, de esguelha, a lançar com a mão direita, a aterrar sob a perna esquerda, dando assim, nesta posição - tão pouco natural para o ser humano na sua generalidade, quanto mais para um arremesso ao cesto - o 3-0 para os Cavs contra Toronto, a melhor equipa do Este na temporada regular.

Tão regular quanto os corretivos que LeBron lhes costuma dar nos playoffs - foi a terceira vez consecutiva que os Cavs bateram os Raptors na fase a eliminar, a 2.º seguida por 4-0.

Já os Celtics, sem estrelas, viram um conjunto de miúdos de quem só se esperava a glória daqui a um par de anos assumir a responsabilidade de levar de novo a equipa de Boston às finais de conferência e, quem sabe, ao infinito e mais além.

Terry Rozier, um miúdo que andou desaparecido nos dois primeiros anos na NBA, aproveitou a lesão de Kyrie Irving para explodir; Jaylen Brown, o rapaz que é demasiado inteligente para a NBA, depois de um primeiro ano mais discreto está finalmente a jogar como um n.º 3 do draft; e o rookie Jayson Tatum, também ele n.º 3 do draft, tem a consistência de quem anda há anos e anos na liga.

Esperava-se que os putos de Boston caíssem frente aos Bucks do ‘Greek Freak’ Giannis Antetokounmpo (nome que só se escreve após três consultas ao Google) na 1.ª ronda do playoff, mas os putos de Boston venceram por 4-3. E nas meias-finais, frente aos Philadelphia 76ers, uma das sensações da temporada, a equipa que anda há anos e anos a construir-se com miúdos bons e carismáticos, a pedir aos adeptos para “trust the process”, ou seja, "tenham paciência e acreditem no processo, que isto vai lá", foi vergada pelo outro processo. Mais discreto mas, pelos vistos, mais sólido, e que acontece ali para os lados do Massachusetts.

Jayson Tatum é um dos rostos do "processo" dos Boston Celtics

Jayson Tatum é um dos rostos do "processo" dos Boston Celtics

Adam Glanzman/Getty

O obreiro deste processo, do outro processo, dá pelo nome de Brad Stevens, 41 anos, também conhecido por futuro-melhor-treinador-da-NBA, especialista na arte dos esquemas defensivos, do basquetebol solidário, em tirar da cartola jogadas altamente complexas e eficazes em descontos de tempo - e, mais importante, em trazer ao de cima todas as potencialidades dos jogadores que tem à disposição, sejam eles caloiros ou veteranos como Al Horford.

Mesmo que os putos dos Celtics caiam frente a LeBron, o todo-poderoso, convém não esquecer: além destes garotos e deste treinador, no próximo ano haverá, à partida, Gordon Hayward e Kyrie Irving saudáveis.

Portanto, tenham medo, muito medo.

E assim, foi de forma tão pouco expectável que se chegou a uma final expectável. É a mesma do ano passado - os Cavs venceram tranquilamente há um ano por 4-1 -, mas será, seguramente, muito diferente. Até porque dos 24 jogadores que estiveram nas finais do ano passado, só nove resistem nos dois plantéis. A Este nada de novo, a Este tudo de novo.

OESTE: Golden State e a equipa que foi construída para destruir Golden State

A história do Oeste, à sua maneira, é bem menos intrincada que a do Este. Toda a gente estava à espera que Houston Rockets e Golden State Warriors chegassem às finais de conferência sem grandes dificuldades e assim aconteceu: ambas as equipas despacharam os adversários que lhes apareceram pela frente sempre com o mesmo resultado (4-1), que é aquele resultado que por um lado diz “esta malta não é invencível”, mas ao mesmo tempo não deixa dúvidas que “estes tipos são os melhores, não se deixem enganar”.

De Golden State não há muito a dizer face à última temporada. A equipa mudou pouco e só os problemas físicos de Stephen Curry deram uma pitada de imprevisibilidade ao que já se sabia que iria ser um passeio até aos playoffs, que é basicamente onde as épocas têm começado para esta rapaziada de Oakland. Mas quem não tem Curry, caça com Durant, e entretanto Curry até já está bom, portanto, no alarms and no surprises.

Kevin Durant e os dois rapazes que o querem abater: James Harden de um lado e Chris Paul lá atrás

Kevin Durant e os dois rapazes que o querem abater: James Harden de um lado e Chris Paul lá atrás

Bob Levey/Getty

Mas acontece que esta temporada, mais do que qualquer uma das anteriores desde que começou esta dinastia de Golden State no Oeste, há um rival à altura. Um rival construído com o único propósito de destruir os Warriors, imitando-lhe até um pouco o estilo e intensidade.

Os Houston Rockets, note-se, já eram bons. Tinham em Mike D’Antoni um treinador adepto do run and gun (conceito que se explica a si próprio, é correr muito e lançar ainda mais) e um dos jogadores com mais pilosidade facial e faro para o cesto da liga, James Harden. Mas faltava-lhes o pragmatismo para bater equipas mais organizadas (como San Antonio, há um ano).

A chegada de Chris Paul, que se mudou para o Texas farto do ‘quase’ dos LA Clippers, terá dado aos Rockets essa consistência. Nestes playoffs o experiente base, um dos melhores jogadores da NBA a nunca ganhar um título, tem contrariado a ideia feita de que tende a claudicar na fase a eliminar. Prova? A stat line inédita na história dos playoffs da NBA que assinou no jogo que levou os Rockets à final do Oeste: 41 pontos, 10 assistências, 7 ressaltos e zero perdas de bola, para fechar a eliminatória frente aos Utah Jazz.

Na temporada regular, os Rockets já deixaram o aviso: venceram dois dos três duelos com os Warriors. Mas os playoffs são outra história e se Chris Paul está a fazer números nunca antes vistos, Durant, Curry, Draymond Green e Klay Thompson são... campeões.

E isso conta muito.

Talvez o factor X destas finais esteja nas mãos dos big men e naquilo que Clint Capela, rapaz nascido na Suíça há 23 anos mas de sangue angolano, possa fazer contra os grandalhões mais experientes de Golden State. No caminho até à final, Capela meteu no bolso dois dos melhores postes da NBA, Karl-Anthony Towns, de Minnesota e Rudy Gobert, de Utah.

Porque de resto, haverá jogos com muitos pontos, muitas tentativas de triplos, muita correria. E deles sairá o favorito a campeão da NBA 2017/18.