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GLOAT: Greatest LeBron of All Time

LeBron James jogará a oitava final consecutiva da NBA porque, basicamente, fez de si próprio. Ou da melhor versão de si próprio que vai melhorando a cada ano que passa. Já são 33 de vida e, no Jogo 7 da final da Conferência Este, esteve em campo durante os 48 minutos. A idade, o esforço e a grandeza fizeram-no acabar a partida com gelo amarrado a todas as articulações. Ser uma lenda é um cargo dos trabalhos para o corpo

Diogo Pombo

Maddie Meyer

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Houve um momento, à entrada do último minuto de jogo, em que LeBron James recupera a bola dentro do seu garrafão e tem uma decisão a tomar: como incontáveis outras vezes, decide arrancar contra o mundo. Vemos a monstruosidade física, corpo tão cheio de músculos, quanto de talento, a dose certa entre a aptidão inata e maturação feita com a idade, a precipitar-se em direção ao cesto dos Boston Celtics.

A besta a quem Marcus Norris se agarra, melhor, se pendura com as duas mãos sobre os ombros, a empurrá-lo para baixo com o seu peso assim que LeBron se projeta para cima. Tem o ímpeto afetado, é um salto com o dobro da carga, mas ele consegue lançar a bola que o desesperado Jaylen Brown tenta bloquear, com uma chapada contra a tabela.

São duas forças contra a força de uma natureza onde não há predadores, ou outro predador como ele, porque a bola, lá saberá LeBron como, entra no cesto. É a certeza de dois pontos e de um lançamento livre pela falta grosseira, e um grito. É um rugido de alguém com plena noção de que os limites do basquetebol, que limitam a maioria dos humanos, não têm poder sobre ele.

E James bate com os dois punhos fechados no peito, contrai a musculatura, cresce perante o público de Boston, deixa-se levar pelo momento que é só mais uma prova, no fundo, do quão infrutíferas são as tentativas de o contrariar quando está em risco a equipa em que ele joga – e, por arrasto, a época, um título, o sucesso e a glória.

Momentos como este pesado encavalitar, a acabar o derradeiro encontro da final da Conferência Este, em que os Cleveland Cavaliers resgataram uma presença na decisão da NBA com uma vitória (87-79) em casa dos Celtics. Em muito teve que ver com a marca de 35 pontos, 15 ressaltos e nove assistências, não a melhor das marcas que o todo-poderoso e bestial LeBron nos habituou nos últimos 15 anos, mas é mais do que isso.

Maddie Meyer

Ele é a prova mais atual e evidente de como basquetebol coletivo pode ser subjugado por um indivíduo, além de ultra talentoso, motivado e decidido.

LeBron James esteve em 743 dos 864 minutos que podia jogar, nestes playoffs. Não perdeu um segundo do Jogo 7 destas finais e, no anterior, contou apenas 114 segundos fora da quadra, mais ou menos o que já se vira nos anteriores encontros de uma batalha em que os Cavs chegaram a estar a perder 0-2, até ele, no auge dos seus 33 anos, se aperceber que chegar-se à frente era a única forma de alterar um destino que parecia traçado.

O encontro da última madrugada foi o 22.º a eliminar da carreira de LeBron, o 13.º que venceu. Já perdeu nove e verdade é que esta balança não lhe é assim tão favorável, até pegarmos no rácio de 6-2 que mantém desde 2014, quando regressou a Cleveland, de onde é natural, findas as quatro épocas da aventura auto-forçada em Miami. E foi também o sexto Jogo 7 consecutivo que James ganhou, com maior ou menor preponderância da sua genialidade, nos últimos 10 anos.

Aquando do Jogo 4, por exemplo, LeBron também marcou 44 pontos e manteve os Cavs ligados às máquinas. Nesse, e no sétimo, foi senhor de bloqueios imperiais, do tipo que fazem um statement, como os americanos tanto dizem no seu inglês, para a equipa dar mais e não se esquecer que, tendo-o em campo, é ter a esperança o mais próximo que pode estar da imortalidade.

James tem uma média de 34.1 pontos, 10.8 ressaltos e 7.4 assistências nestes playoffs, registos que se podem considerar normais vindos de quem vêm, culpa da capacidade de banalização que se está a tornar tão comum nas lendas desportivas atuais. Voltando a bater na tecla da idade, ele conseguiu-o com 33 anos e 194 dias de vida e 3,757 minutos de basquetebol jogados, mais do qualquer habitante da NBA esta temporada. Lebron James não descansa.

É a oitava época seguida em que chega à final da NBA (tem nove, no total). “Ele é inacreditável. Começámos a temporada a 25 de setembro e, literalmente, todos os dias foram de pura dedicação até aqui, 27 de maio. E ele foi mais longe do que isto já oito vezes seguidas. É ridículo”, disse o conformado Brad Stevens, treinador dos Boston Celtics, ao segundo ano em que vê a final da NBA barrada pelos Cleveland Cavaliers.

Logo por esta versão da equipa de Ohio, que chegada a fevereiro remodelou meia equipa, meio por culpa pelas quezílias que havia no balneário, e meio à pressa. “Foram três ou quatro épocas apertadas numa só”, resumiu LeBron, quando lhe perguntaram sobre esse período da temporada. A partir daí, a estrela dos Cavs comportou-se, definitivamente, como tal: foi decidindo jogos, melhorando o jogo dos companheiros da equipa e resgatando a equipa que ia com 31 vitórias e 22 derrotas aquando da tal remodelação improvisada a meio da época.

A consistência, a espetacularidade ou as jogadas de arregalar o olho podem não ser coisas que existem mais nos Cavs, do que em outras equipas da NBA. Mas neles há LeBron James e uma frase do texto que o site oficial da competição lhe dedicou, e à final, ajuda a perceber como isso é o bem mais valioso do basquetebol: “Jogadores icónicos como James e, antes dele, Michael Jordan e Kobe Bryant, são quem bloqueia gerações inteiras de jogadores de NBA de cumprirem os seus sonhos”.

Esses dois tipos, perdão, essas duas lendas, estão entre os motivos que tornam bastante debatível afirmar que LeBron James é o melhor jogador da história da NBA. Ou o Greatest Of All Time que forma o acrónimo GOAT, em voga aplicar em atletas que monopolizam o tipo de desporto que praticam.

Ele não é um GOAT, mas, ao menos, é muito provável que seja o GLOAT - a melhor versão de sempre dele próprio, o Greatest LeBron Of All Time.

P.S. Esta segunda-feira há o Jogo 7 da final da Conferências Oeste, entre os Houston Rockets e os Golden State Warriors. Ganhando, a equipa de San Francisco jogará a final da NBA pelo quarto ano seguido frente aos Cleveland Cavaliers.