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Warriors-Cavs IV, ou mais um tomo do interminável duelo entre a melhor equipa e o melhor jogador da NBA

A final da NBA de 2017/18, que arranca esta madrugada, é a mesma de há um ano. E de há dois. E de há três, coisa que nunca aconteceu em qualquer uma das quatro principais ligas desportivas norte-americanas. De um lado LeBron James, alma e motor praticamente único dos Cleveland Cavaliers, uma máquina de jogar basquetebol, que aos 33 anos parece mais forte que nunca. E do outro os Warriors, a superequipa de Kevin Durant, Stephen Curry, Klay Thompson e Draymond Green. É possível que a melhor liga de basquetebol do mundo esteja a ficar um pouco previsível, mas é inegável o privilégio que é assistir a esta história, que segue para o 4.º capítulo

Lídia Paralta Gomes

Ezra Shaw/Getty

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Os norte-americanos sabem que a emoção é o que move os adeptos do desporto. Bem, pelo menos dos verdadeiros amantes do desporto. Vai daí fizeram trinta por uma linha para evitar que os fortes fossem sempre fortes e que os fracos nunca saíssem da cepa torta: inventaram o draft, em que as piores equipas da temporada anterior podem escolher as melhores jovens esperanças e o tecto salarial, igual para todos.

Ainda assim é sempre possível fazer malabarismos como, por exemplo, pedir a várias estrelas que deixem de lado o ego e abdiquem de salários um bocadinho mais extravagantes do que, na verdade, já o são per se. Foi isso que os Golden State Warriors conseguiram fazer no defeso de 2016, ao convencer Kevin Durant, provavelmente o melhor marcador de pontos da NBA dos nossos dias, a deixar de lado os Oklahoma City Thunder, uma equipa do quase, para se juntar àqueles que eram então vice-campeões da liga, equipa essa onde já estava Stephen Curry, Klay Thompson e Draymond Green. E para muitos, assim se formou a melhor equipa da NBA da história.

A manobra, ainda que inteligente, veio desvirtuar o espírito competitivo da NBA: antes da chegada de Durant a Oakland, já se tinham jogado duas finais seguidas entre os Warriors e os Cavaliers de LeBron James. O ano passado jogou-se a terceira, então algo nunca antes visto na maior liga de basquetebol do planeta. E este ano vamos ter o tomo IV deste interminável duelo entre Golden State e Cleveland, algo nunca antes visto, imagine-se, nas quatro maiores ligas desportivas em terras de Tio Sam: NBA, NFL, NHL e MLB.

Verdade seja dita: este ano os playoffs foram francamente mais interessantes do que em épocas anteriores. Afinal de contas, há equipas a adaptar-se à total dominação mundial de Cavs e Warriors e prova disso é o facto de pela primeira vez em 39 anos as duas finais de conferência terem sido resolvidas apenas no derradeiro jogo 7. E, diga-se de passagem, nunca se sabe até que ponto uns Celtics e uns Rockets sem lesões teriam conseguido mesmo a surpresa de terminar com a hegemonia de Cavs e Warriors - Boston perdeu Gordon Hayward e Kyrie Irving ainda na fase regular e Chris Paul desfalcou Houston numa altura em que a equipa estava na frente da final da Conferência Oeste.

Na última temporada, os Warriors festejaram na terceira final consecutiva frente aos Cavs, recuperando um título ganho por Cleveland no ano anterior

Na última temporada, os Warriors festejaram na terceira final consecutiva frente aos Cavs, recuperando um título ganho por Cleveland no ano anterior

Ronald Martinez/Getty

Ainda assim, baralhou-se, partiu-se, voltou-se a dar e no final calhou de novo a mesma final dos últimos três anos. E, agora, podemos ver a coisa por dois prismas: ou nos queixamos por a NBA estar muito previsível ou apreciamos o momento, esta maravilha que é vivermos na mesma era de LeBron James, Kevin Durant, Stephen Curry. De pela quarta vez consecutiva seremos aqueles privilegiados que podem assistir a uma final entre a melhor equipa e o melhor jogador da NBA desta geração.

LeBron contra o mundo

Goste-se mais ou menos do estilo, é inegável que LeBron James é um tipo especial. Quanto mais não seja pela consistência. Senão, vejamos: a última vez que LeBron não esteve nas finais da NBA, seria impossível ao jogador deixar uma longa e sentimental mensagem no Instagram sobre a época que terminava e da desilusão que era não estar a decidir o título.

Simplesmente porque em 2010 ainda nem sequer existia Instagram.

Pois é, são oito anos consecutivos a chegar às finais, com três anéis pelo caminho, dois em Miami e um já no regresso a Cleveland, numas finais de 2016 em que os Cavaliers derrotaram os então já todo-poderosos campeões em título Warriors, final resolvida num jogo 7 em que King James terminou em versão Super Homem e com um triplo-duplo, algo que até então apenas dois jogadores haviam conseguido: James Worthy (1988) e Jerry West (1969).

Mas, nessa altura, James tinha ao seu lado um dos melhores bases da liga, Kyrie Irving, que esta época se mudou para os Celtics, e um Kevin Love em melhor forma. Este ano, com atores secundários tão irregulares (para não dizer fraquinhos) tem sido LeBron contra o mundo: se os Cavs estão nas finais tudo devem ao extremo, que chega à decisão com impressionantes médias de 34 pontos, 9.2 ressaltos e 8.8 assistências, um par de buzzer beaters (aqui e aqui) e muitos jogos em que levou a equipa às costas, a jogar todos os minutos, aos 33 anos.

LeBron sozinho deu para Indiana, para Toronto e para os Celtics também deu. Mas LeBron sozinho dificilmente dará para Golden State, porque mesmo o melhor jogador da NBA atual não é suficiente para a melhor equipa desta geração. Ainda para mais uma equipa que tem aquele que é, muito provavelmente, o segundo melhor jogador dos dias que correm, Kevin Durant, e também muito provavelmente o melhor triplista da história do jogo, Stephen Curry, que, curiosamente, não só nasceu na mesma cidade de LeBron James (Akron, no Ohio) como no mesmo hospital.

King James, preparando-se para mais um afundanço durante as finais da Conferência Este, em que os Cavs derrotaram os Boston Celtics

King James, preparando-se para mais um afundanço durante as finais da Conferência Este, em que os Cavs derrotaram os Boston Celtics

Gregory Shamus/Getty

Não só os números de LeBron servem de prova para o quão dependentes estão os Cavs da sua estrela como, naturalmente, os números dos seus colegas: em duas das três séries anteriores ganhas por Cleveland no Este, nenhum jogador não chamado LeBron James marcou em média mais de 12.5 pontos. O que é pouco, muito pouco para uma equipa que se diz candidata ao título, mesmo com um extraterrestre entre eles.

Talvez por causa disso, nas casas de apostas e em termos de odds, esta aparece não só como a mais desequilibrada das quatro finais entre as duas equipas, como a mais desequilibrada final dos últimos 16 anos.

Mas LeBron é um homem que gosta de contrariar as probabilidades. Nos três campeonatos ganhos pelo extremo, em dois deles a sua equipa não era favorita nas casas de apostas: em 2012 frente aos Oklahoma City Thunder e em 2016 precisamente frente aos Golden State Warriors. Aliás, no que a probabilidades diz respeito, a final de 2016 tem muito que se lhe diga, na medida em que foi a primeira vez na história da NBA que uma equipa virou uma desvantagem de 3-1 para uma vitória por 4-3. E Cleveland fê-lo contra uns Warriors que vinham de 73 vitórias na fase regular, o melhor registo de sempre. Na altura, o Basketball Power Index da ESPN calculou em 4% as hipóteses de LeBron e os Cavs baterem Golden State, mas o impossível é coisa que não existe para King James.

E por isso, convém nunca afastá-lo da luta pelo título.

O que poderá travar os Warriors

Olhando para os plantéis, para a temporada, para as odds - e mesmo com um LeBron em superforma -, parece meio arrojado arriscar em algo que não seja uma vitória dos Warriors, em mais ou menos jogos.

É claro que há sempre variáveis e Golden State já as sentiu na pele durante a temporada: os quatro All-Stars da equipa (Durant, Curry, Thompson e Draymond Green) perderam todos vários jogos devido a lesões e a própria concentração dos jogadores também já teve melhores dias. Ao ponto do treinador Steve Kerr ter chegado a colocar os jogadores a treinar-se a si próprios num jogo, depois de sentir que, basicamente, ninguém lhe estava a ligar nenhuma.

Kevin Durant e Stephen Curry, as imparáveis estrelas-maiores de uma equipa maior chamada Golden State Warriors

Kevin Durant e Stephen Curry, as imparáveis estrelas-maiores de uma equipa maior chamada Golden State Warriors

Lachlan Cunningham/Getty

Quando se tem uma equipa como a dos Warriors, em que toda a gente já ganhou tudo, o desafio é mesmo manter toda a gente focada. O que nem sempre aconteceu numa época em que Golden State não foi, de forma surpreendente, a melhor equipa do Oeste: esse posto foi para os Rockets, que se reforçaram com Chris Paul no início do ano e chegaram a estar em vantagem por 3-2 na final de conferência, acabando por perder os dois últimos jogos. Precisamente os mesmos que o base falhou por lesão.

A verdade é que nos últimos quatro anos, nunca os Warriors estiveram tão perto de não conseguir chegar à final - no jogo 7 frente aos Rockers, estavam a perder por 11 pontos ao intervalo. Ajudou a ausência de Paul e a completa quebra dos Rockets na 2.ª parte, num jogo em que a equipa de Houston falhou um total de 37 triplos (!). E ajudou os Warriors terem uma equipa de estrelas que de um momento para o outro consegue transformar um mau momento numa vitória.

Assim, neste momento a única coisa que tirará o sono ao técnico Steve Kerr é mesmo o joelho de Andre Iguodala. O nome de Iguodala parece perder-se no meio de tantas estrelas, mas Iguodala é tão-só o MVP das finais de 2015, defensor exímio e um dos homens mais habilitados para parar LeBron James. Perdeu os últimos jogos da final de conferência - e Kerr diz que se estivesse bem os Warriors tinham arrumado a questão mais cedo - e não tem ainda data para voltar. E aqui pode estar uma pequena janela de oportunidade para os Cavs.

Ainda assim, no papel só um cataclismo equilibrará as forças. Seria preciso uma onda de lesões na equipa de Oakland e que jogadores como Kevin Love e J. R. Smith dessem um grande salto qualitativo para servirem de aliados de luxo a LeBron.

Tudo isto poderá ser conferido a partir das 2h desta madrugada em Lisboa, quando a bola for ao ar no primeiro jogo das finais de 2018, na Oracle Arena de Oakland, pavilhão dos Golden State Warriors, que partem para a decisão do título com a sempre importante vantagem de começar em casa.