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No banco com os misters

Rui Quinta: “A primeira vez que me sentei no banco do FC Porto, o gajo que estava ao meu lado bateu-me: 'Ei, tens de respirar, pá'”

Rui Quinta já era treinador principal há largos anos - no Paredes, no Gil Vicente, no Penafiel - quando, em 2011, Vítor Pereira lhe ligou para que fosse seu adjunto no FC Porto. "E eu disse assim: 'Ó Vítor, estás a brincar comigo?' [risos]". Atualmente, treina o Sporting de Espinho, clube histórico que está no Campeonato de Portugal, e não tem vergonha de dizer que aprendeu muito em mais de 20 anos de carreira: "Olho para trás e deito as mãos à cabeça. Digo assim: 'Ai meu Deus do céu, eu matei tanto jogador, dei tanto pontapé, Deus me acuda e guarde'"

Mariana Cabral e Rui Duarte Silva

Rui Quinta tem 57 anos e lidera o Sporting de Espinho, equipa do Campeonato de Portugal (equivalente à 3ª divisão), desde o início da época 2017/18

Rui Duarte Silva

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A degradação inexorável do Estádio Manuel Violas contrasta com o sorriso persistente do treinador do Sporting de Espinho. Rui Quinta sabe que, apesar de liderar o 2º classificado da série B do Campeonato de Portugal - na luta pelo acesso ao playoff de promoção à 2ª Liga -, só tem ali, à beira da praia, um único relvado irregular onde treinar o seu plantel, entre bancadas gastas e postes caídos.

E, quando chove, não há relvado para ninguém: os treinos passam a decorrer num pelado minúsculo, mais pequeno do que um campo de futebol de 7, entre as pedras e as paredes do antigo pavilhão do clube que declarou insolvência em 2014.

As condições não podiam ser mais distintas daquelas que Rui Quinta, o treinador principal, teve no Dragão, enquanto treinador adjunto de Vítor Pereira, na última equipa (bi)campeã pelo FC Porto, mas em Espinho as adversidades são vistas como maneiras de evoluir. É esta a vida de um treinador de futebol na 3ª divisão portuguesa.

Já que estamos aqui no seu banco, pergunto-lhe se gosta de estar no banco.
Adoro.

Mas sentado ou em pé?
É um bocadinho de tudo. Às vezes fico sentado, tranquilo, para transmitir essa tranquilidade à equipa, mas há outros momentos em que sinto necessidade de lhes transmitir mais qualquer coisa - ânimo, crença, entusiasmo - ou mudar uma ou outra situação, chamar um jogador... Há momentos em que também caminho na frente do banco. É um espaço de que gosto muito. Vivo o jogo com uma paixão muito grande e, neste caso particular, vivo a nossa equipa de uma forma única, porque conseguimos encontrar aqui um grupo de jogadores fantástico, que tem vivido um grande desafio de uma forma única, e essa crença que eles construíram faz com que eu, no banco, esteja como se fosse mais um deles.

Mas não é fácil ficar sentado no banco, pois não?
Aprende-se. Porque nós aqui temos de ser um bocadinho atores, no fundo. Temos de ver o que serve melhor os interesses da nossa equipa, apesar de haver momentos em que também somos ultrapassados pelas emoções e às vezes temos reações que, pronto, não têm muito a ver com a lógica, e eu sou muito genuíno nesse aspeto. Mas isso eu também lhes transmiti desde a primeira hora: eles sabem aquilo que sou como pessoa e que reações me identificam. Sabem que estou aqui exclusivamente para ajudá-los a terem o sucesso que merecem.

É nesses momentos em que se levanta e bate com a cabeça neste banco baixinho.
[risos] Já estou treinado. Já bati com a cabeça vezes suficientes para agora o automático já funcionar, ou seja, sempre que me levanto já vou assim [levanta-se curvado]. Há pouco tempo, o nosso vice-presidente, que estava a substituir o diretor num jogo, como não está habituado, levantou-se e rachou a cabeça.

Rui Quinta no banco do Sporting de Espinho, na pose que normalmente assume para assistir aos jogos da sua equipa

Rui Quinta no banco do Sporting de Espinho, na pose que normalmente assume para assistir aos jogos da sua equipa

Rui Duarte Silva

É como o treino, a certa altura os jogadores já executam quase sem ter consciência do que estão a fazer.
Claro, claro, é o hábito. Quando é que uma coisa passa a hábito? Quando deixamos de pensar nela. Neste momento, este gesto de me levantar já é treinado, porque antes levanta-me para cima e agora levanto-me para a frente. Como é que aprendi isso? Como é que treinei? A bater com a cabeça, como é evidente [risos].

Como é que se treina aqui, com tão poucas condições?
Essa é a arte do treinador. Ser treinador é ser o homem das soluções. Porque a vida foi-me mostrando que, por muitos argumentos que nós consigamos arranjar, e aqui não nos faltam argumentos, nós fomos percebendo que as pessoas dos argumentos nunca ganham nada, nunca chegam a lado nenhum. Estão sempre satisfeitas, porque encontram sempre boas desculpas, boas situações para se ancorarem. Nós temos uma visão diferente do processo: as coisas são difíceis? Ainda bem que são difíceis, porque as coisas difíceis ajudam-nos a ir buscar soluções que noutro contexto qualquer nem nos lembraríamos. Isso ajuda-nos a crescer, a sermos mais competentes, a conseguirmos inventar... Isso é a beleza das coisas difíceis. E nós somos uns aficionados dos desafios difíceis. A nossa vida tem sido construída sempre nesse contexto, com grande dificuldade, e é por isso que agradeço bastante as circunstâncias em que tenho trabalhado, porque têm-me ajudado muito a ser cada vez melhor e a olhar para as coisas de uma forma diferente. Penso que conseguimos aqui transmitir a estes jogadores tudo isso e tenho um orgulho neles que é uma coisa indescritível. Porque a Mariana viu - e não viu isto num dia de chuva, porque se visse aí então arrepiava-se - as condições em que treinamos, que são condições que mais ninguém tem. Mas nós conseguimos transformar, juntamente com os nossos jogadores, estas condições de trabalho na nossa força. Estes jogadores, por aquilo que têm vivido, as dificuldades que têm enfrentado, a forma como têm lidado com isso, vão ser felizes no final desta época.

Há um ou dois treinos "normais" no relvado principal e o resto naquele campinho pelado?
[risos] É assim, nós na primeira fase do campeonato treinávamos no nosso relvado, com qualidade, porque o tempo assim o permitiu. Isso também nos permitiu jogar de determinada forma. Nos últimos três meses, a chuva tem-nos acompanhado e isso implicou algumas mudanças naquilo que é a nossa forma de treinar. Ganhámos algumas coisas e perdemos outras que tínhamos, mas isso também nos vai permitindo crescer, fundamentalmente num dos aspetos que acaba por fazer a diferença, que é a forma como nós lidamos com a adversidade. E esta equipa tem lidado com muitas adversidades e tem lidado com elas com um sorriso nos lábios, porque este é o nosso dia-a-dia, é treinar em contextos de grande dificuldade. É evidente que quando chove e temos jogo em casa ao fim de semana nós só vimos ao nosso relvado uma vez. Uma vez, que é para não desgraçar muito o relvado. E depois treinamos quatro vezes lá atrás, no nosso 'Maracanãzinho', que é um espaço que tem vindo a ficar mais degradado, mas essa degradação também tem contribuído para que os nossos jogadores tenham melhorado bastante a sua necessidade de antecipar uma série de coisas antes que a bola chegue, porque é muito difícil controlar e conduzir a bola naquele espaço. Eles já antecipam o que é que vai acontecer e isto também os ajuda a desenvolver a tomada de decisão, a capacidade de lidar com a bola... Nós só olhamos para as coisas atrás daquilo que nos interessa, daquilo que nos faz bem, daquilo que nos ajuda a sermos melhores, porque se quiséssemos estender aqui o rol da amargura passávamos aqui três dias agarrados uns aos outros a chorar e não íamos a lado nenhum. Mas nós queremos ir, por isso temos de valorizar o que temos, para conseguir aquilo que queremos.

Rui Quinta no campo pelado de treinos do Sporting de Espinho

Rui Quinta no campo pelado de treinos do Sporting de Espinho

Rui Duarte Silva

Mas o que é que o Rui consegue fazer ali, então? Porque, por exemplo, à quinta-feira precisa de ter um treino de maior complexidade e ali é impossível.
Não, à quinta-feira nós inventamos sempre uma desculpa para podermos treinar no relvado. Quinta-feira é o dia em que nós não perdoamos. Esteja muito empapado ou não, à quinta-feira temos de ir ao relvado, porque precisamos de um espaço grande, precisamos de jogar 11 contra 11, para nós isso é muito importante. Nos outros dias, temos de gerir muito bem duas coisas: aquilo que queremos fazer, em termos de algumas particularidades do jogo que queremos ganhar para a equipa, mas também nunca esquecendo que, lidando com aquela superfície de lama, de água e de areia, temos de gerir essa carga adicional e gerir bem os tempos de treino, os tempos de recuperação. Tudo isso obriga-nos a uma grande adaptação à realidade e esta realidade é a que nós temos, não adianta estar aqui a falar de coisas que não temos. Nós temos de aproveitar, volto a dizer, aquilo que temos, para potenciar o que nós queremos. Se não tivéssemos vivido nesta realidade, não tínhamos encontrado as soluções que encontrámos. Já inventámos outros exercícios, eles estão a ter algum impacto na equipa e os jogadores entusiasmam-se com os desafios que nós propomos, porque tentamos manter uma competitividade entre jogadores. Os nossos treinos vivem muito disso, de quem ganha isto, de quem ganha aquilo, e é sempre estes contra aqueles. Penso que essa competitividade nos caracteriza como equipa, mas reconheço que entretanto fomos perdendo alguma qualidade, fruto do contexto que temos. Mas ganhamos noutras coisas, como já disse, e estamos muito virados para valorizar o que é bom para nós.

Como joga o Espinho?
Quando tem a bola, o Espinho quer construir de forma a poder chegar próximo da área do adversário e colocar a bola nas zonas de finalização, e temos conseguido isso, com regularidade, perante todos os adversários, criando bastantes oportunidades de golo. Em termos defensivos, quando perdemos a bola, queremos condicionar a construção do adversário e estar posicionados de forma a poder impedi-los de eventualmente aproveitarem o nosso balanceamento ofensivo, recuperando rapidamente a bola. Temo-lo feito na maior parte das vezes, noutras alturas também temos encontrados bons adversários, com muita qualidade, que nos obrigam muitas vezes a jogar próximo da nossa área, porque têm esse mérito. Mas nós também sabemos funcionar aí. Nesta altura temos sofrido alguns golos fruto das circunstâncias do terreno do jogo, porque há ressaltos, a bola que bate e, em vez de ficar, salta...

É que mesmo executar um passe de meia dúzia de metros neste relvado irregular não é uma tarefa fácil.
Pois não, é verdade. Mas nós olhamos para isso sempre nesta perspetiva: ainda bem que há esta irregularidade, porque os nossos jogadores quando chegam a um piso de qualidade têm sempre grandes desempenhos, porque a bola sai redonda. Aqui, nós normalmente gastamos dois tempos para dominar uma bola; num relvado em boas condições, nós jogamos a um toque, as coisas têm outra fluidez. Ok, vamos conseguindo resolver os problemas, dentro da realidade que vamos tendo, mas quando há um contexto melhor nós também nos adaptamos e acabamos até por mostrar melhor aquilo que somos como equipa, porque gostamos de jogar para a baliza do adversário, gostamos de jogar para fazer golos. No princípio não éramos tão capazes de fazê-lo desta forma, mas agora já estamos mais pacientes, já não forçamos o jogo de qualquer maneira, já temos a capacidade para perceber que os caminhos se vão procurando. No princípio da época forçávamos muito o mesmo caminho, entrávamos num corredor e a bola dificilmente saía dali, a não ser que houvesse golo ou bola para o adversário. Agora já somos capazes de trazer a bola a um corredor, ligar ao corredor contrário, ir à procura de espaços, obrigar o adversário a mexer-se para podermos encontrar os caminhos que nos levem à baliza.

Normalmente, em Portugal, dizemos que é muito difícil jogar na 2ª Liga, porque é um jogo muito físico e direto. E no Campeonato de Portugal?
Acho que dá para jogar...

Em qualquer lado?
Em qualquer lado. Eu acho isso. Isso tem sempre a ver com as ideias. Se a nossa ideia for uma ideia de jogar, a nossa equipa vai jogar, porque nós vamos treinar isso e se nós treinamos o jogo que gostamos... Eu falo por mim, eu não me posso adulterar, não posso andar a defender um tipo de jogo em que não me revejo, em que não acredito. O que passo aos nossos jogadores, aquilo que treinamos todos os dias, é um jogo que tem a ver com aquilo em que nós acreditamos, valorizando fundamentalmente as características dos nossos jogadores. É evidente que quando começámos a época as coisas estavam num determinado patamar, mas, com o treino, com os jogos, com a competição, é evidente que os jogadores foram crescendo, foram percebendo cada vez melhor o jogo que nós queríamos e nesta altura nós estamos muito bem identificados. Há uma ideia, não andam aqui duas ideias, há só uma ideia, que é a ideia de todos, em termos de atacar e de defender. A nossa ideia, independentemente dos sítios onde jogamos, é para manter. Nós tivemos aqui alguns jogos neste campo, com muita chuva, em que não abdicámos da nossa intenção de construir e de jogar. Penso que isso tem a ver com as ideias. Agora, cada treinador tem o direito de defender aquilo que entende, aquilo em que se sente mais confortável, eu só estou a falar por mim. Aqui valorizamos isso, gostamos disso e sentimo-nos bem assim. A nossa equipa tem defendido essa ideia como se fosse a ideia deles desde sempre, por isso estamos a fazer uma campanha extraordinária.

O relvado do Estádio Comendador Manuel Violas, que já tem 90 anos e está visivelmente degradado

O relvado do Estádio Comendador Manuel Violas, que já tem 90 anos e está visivelmente degradado

Rui Duarte Silva

Mas a ideia atual que o Rui defende não há de ter sido a sua ideia desde sempre.
Não, claro que não [risos]. Há dez anos valorizava outras coisas. Olho para trás e deito as mãos à cabeça. Digo assim: 'Ai meu Deus do céu, eu matei tanto jogador, dei tanto pontapé, Deus me acuda e guarde'. Mas, naquela altura, era aquilo que eu pensava. Só que, entretanto, fui lidando com outras realidades, fui vivendo outras experiências, fui discutindo com pessoas com capacidade para falar de futebol... E eu adoro falar de futebol, sobretudo discutir tudo. Temos uma equipa técnica onde todos os dias discutimos tudo ao pormenor: treinos, exercícios, jogadores, situações... Esta é a nossa forma de trabalhar, é discutir e discutir. É evidente que sou eu que tomo as decisões finais, mas se elas forem mais discutidas, se nós escutarmos as diferentes perspetivas, temos mais opções. Mas aqui há 10 anos eu treinava de uma forma que hoje até tenho vergonha de dizer.

Por exemplo?
Sei lá... Por exemplo, naquela altura gastava muito tempo em treinos fundamentalmente físicos, valorizava muito mais as componentes físicas do que propriamente a ideia de jogo. Claro que a ideia de jogo estava sempre presente, mas eu estava muito preocupado com outras coisas. Valorizava outro tipo de jogo, um jogo muito mais direto, um jogo muito mais vertical. Hoje gosto de outro tipo de jogo, um jogo mais de domínio, de construção, em que a minha equipa tenha a iniciativa, que obrigue os adversários a sofrerem, a desgastarem-se... É desse jogo que eu gosto. É evidente que nós não temos os melhores jogadores do mundo, mas temos os jogadores comprometidos com essa ideia. Nós hoje treinamos fundamentalmente, para não dizer exclusivamente, o nosso jogo, aspetos do nosso jogo. E isso tem resultado muito bem. Desde que aqui estamos não houve um dia - nós já vamos em 190 treinos e treinamos todos os dias a partir das 18h30, e eu vou mostrar com que luz é que nós treinávamos, que nem dá para acreditar - em que um jogador tenha resmungado ou reclamado de qualquer coisa. E isso fez com que o mais importante do nosso jogo, nas particularidades individuais, grupais, setoriais, intersetoriais, a forma como nós construímos o jogo ofensivo e defensivo... Vemos todas essas situações. Nós nunca demos uma corrida à volta do campo, por exemplo, e não vi nenhuma equipa que corresse mais do que nós, que tivesse um desempenho, em termos de meter ritmo no jogo, melhor do que nós. Essa também tem sido uma das nossas armas, a forma como a equipa impõe um ritmo forte. Aliás, as nossas segundas partes até têm sido mais profícuas do que as primeiras partes, nas segundas partes temos sido mais exuberantes. Jogar neste campo depois de chuva não é muito fácil. Os nossos adversários, em termos de desgaste, ficam muito amachucados, além de que não conseguem construir bem. Nós vivemos nisto, nós vivemos e crescemos na lama. Apanhar um bocadinho de relva para nós é uma alegria. Isto tem a ver com a perspetiva, lá está. Como nós andamos naquele registo difícil, quando as coisas melhoram, nós disparamos. E nós metemos isto na cabeça dos jogadores, isto é uma crença que está instituída. Eles acreditam que estas dificuldades os vão projetar quando eles encontrarem situações melhores. E agora vem aí o sol e as coisas vão melhorar outra vez e nós vamos ser claramente uma equipa atrás do sonho. E não tenho dúvidas que vamos consegui-lo.

A ouvi-lo falar lembrei-me do Vítor Pereira, que também tem assim um discurso muito apaixonado.
[risos] O Vítor é um grande amigo, a quem ficarei sempre grato pelo desafio que me lançou de acompanhá-lo no FC Porto.

É incrível comparar essa realidade com a que tem agora.
[risos] É. Com o Vítor temos uma amizade fantástica e tenho um orgulho muito grande em tudo aquilo que ele tem feito. É evidente que nós nos completámos muito a esse nível, na paixão. Ele tem características de personalidade diferentes das minhas, mas é um extraordinário treinador. Tem uma paixão muito grande pelo jogo, olha para o jogo e decompõe-no. Consegue vê-lo de uma forma única. No fundo, isso que me diz... Não me dá novidade nenhuma, porque estive com ele particularmente dois anos seguidos e partilhámos essa paixão, esse entusiasmo, essa vontade de ganhar. E ganhámos. Ele foi campeão nacional dois anos seguidos e foram duas épocas extraordinárias.

Mas, na altura, não se deu a devida importância ao feito.
O tempo acaba sempre por fazer justiça às coisas. Penso que nem ele nem eu temos orgulho nenhum por termos feito parte das últimas equipas campeãs pelo FC Porto. Mas o tempo acabou por dizer que as coisas afinal não eram tão simples nem tão fáceis como se tentou passar cá para fora, porque acho que houve uma campanha orquestrada no sentido de denegrir a imagem do Vítor Pereira como treinador do Futebol Clube do Porto. E passou-se uma imagem que acabou na altura por deixar mesmo os próprios adeptos a olharem de soslaio para o Vítor e acho que ele demonstrou claramente, num contexto de grande dificuldade e adversidade, a qualidade que tinha como treinador. Também nunca deixando de salientar que nós vivíamos numa casa que tinha um extraordinário grupo de jogadores, com uma qualidade e ambição indescritíveis, e um staff que proporcionava todas as condições para que nós, ou melhor, neste caso, o Vítor, desenvolvesse o seu trabalho. Eu era simplesmente um dos adjuntos que colaborava com ele no sentido de ajudá-lo a ter sucesso. E tivemos sucesso, por isso nunca me poderei esquecer dessa oportunidade que ele me deu, de poder viver uma experiência única, que acredito que vou voltar a repetir.

Lembro-me de ouvir o Vítor dizer, no Congresso da Periodização Táctica, que o Rui era o gajo que o acalmava nos momentos de tensão.
[risos] Quando me convidou para ser adjunto dele, eu, a partir desse momento, passei a viver exclusivamente para ele. Para ele ter sucesso. A minha postura nesses dois anos, ao lado dele, foi a de ser alguém que o potenciasse, que estivesse ali permanentemente para que ele nunca tivesse nenhuma falha, para que ele tivesse sucesso. Algumas vezes, isso implicou discutirmos um com o outro, mas isso também era um indicador da nossa ligação e do respeito que tínhamos um pelo outro. Muitas vezes era no sentido de acalmá-lo, porque ninguém sonha o que é ser uma figura que todos os dias - todos os dias - é confrontado em termos de jornais, televisão e rádio com notícias sobre aquilo que é como pessoa, com tudo a fazer considerações sem sequer conhecerem a pessoa. Não é nada fácil nós encararmos isso sem ficarmos ali meio perturbados. A função de quem trabalhava com o Vítor foi sempre criar condições para que ele se sentisse o mais confortável possível, para que tomasse as melhores decisões e se sentisse o mais entusiasmado possível. Ele colocava sempre tudo à discussão, era hábito dele, porque queria ouvir a nossa opinião, e criámos ali uma dinâmica de equipa que nos ajudou a vencer. Volto a dizer: a nossa função, enquanto adjuntos, é servir o nosso treinador, para que ele tenha sucesso. Foi só isso que fizemos e fizemo-lo com um gosto e com uma paixão extremas. Ficou célebre entre nós uma frase que utilizávamos muito, que era: "Queres ter razão ou queres ser campeão?" [risos] Anda muita gente pendurada na razão, mas nós dizíamos assim: "Eh pá, quando formos campeões, vamos ter a razão toda do mundo." E foi isso que aconteceu [risos].

Rui Quinta e Vítor Pereira, treinador adjunto e treinador principal, respetivamente, do FC Porto, em 2011/12 e em 2012/13

Rui Quinta e Vítor Pereira, treinador adjunto e treinador principal, respetivamente, do FC Porto, em 2011/12 e em 2012/13

MIGUEL RIOPA/GETTY

É difícil um treinador principal passar a ser adjunto?
Foi uma experiência nova. Não foi fácil. Pensei muito antes. Primeiro, fiquei surpreendido quando ele me ligou.

Já o conhecia?
Sim, conhecemo-nos num curso de treinadores em Ponte de Lima. Ele estava a tirar o 2º nível de treinador e eu era preletor, foi a primeira vez que tivemos contacto. Ficámos com uma relação e depois defrontámo-nos várias vezes, quando ele era treinador do Espinho e eu era treinador do Paredes. Depois eu estive no Gil Vicente e ele estava no Santa Clara. Entretanto ele vai para adjunto do FC Porto e nesse ano nós tivemos ali uma série de almoços com um amigo comum e fomos falando de tudo, criámos uma proximidade grande. Mas nunca me passou... Estou convencido que nem a ele sequer lhe passava pela cabeça que iria ser convidado para o FC Porto. Naquela altura, eu ia treinar o Varzim, tínhamos assumido um princípio de acordo. Mas ele ligou-me e disse: "Não vais nada para o Varzim, vai acontecer aqui uma situação... Em princípio, vou treinar o Porto e quero que venhas comigo". E eu disse assim: "Ó Vítor, estás a brincar comigo?" [risos] Mas depois disse-lhe: "Se me estás a ligar e a dizer que precisas de mim, então, amigo, conta comigo e só pode ser para uma coisa: é para sermos campeões e rebentarmos com tudo". Foi assim a nossa conversa e foi assim que as coisas aconteceram. Vivemos uma experiência fantástica, lidámos com uma realidade extraordinária, com jogadores fora de série, e aprendemos muito com eles. Conseguimos criar uma dinâmica de equipa tão grande que nos fez vencer.

Num contexto desses obviamente não há as dificuldades que tem aqui no Espinho. Então quais são as dificuldades? É convencê-los a acreditar numa ideia coletiva?
É um bocadinho isso. Para jogar naquele nível, todos eles se acham indispensáveis, todos eles são os melhores. Só que a concorrência naquele nível também é muito forte. Mas eles sabem que se não funcionarem coletivamente não conseguem conquistar nada. Naquele nível, só têm sucesso se funcionarem coletivamente, independentemente de socialmente se ligarem uns aos outros ou não. Naquele nível, o social conta pouco. O que conta é a forma como eles se ligam às ideias e esta é uma característica em que os jogadores de alto nível diferem dos outros, dos que andam nestas divisões. Os jogadores de alto nível só querem saber o que é que o treinador pretende deles e entregam-se a esse desafio de corpo e alma. Os jogadores de um nível mais baixo têm sempre opinião. "Eu acho isto..." Em todas as situações, a opinião deles é que tem de prevalecer perante o resto. Nesta dimensão, esse é um desafio diferente. Naquele patamar de topo, os jogadores sabem que têm de ter dedicação completa, por isso é que a maior parte deles está em grandes campeonatos. E estão ricos e mais que ricos [risos]. Mas porque merecem, porque se dedicam. Nós tivemos a sorte de encontrar um grupo de jogadores muito bom. Houve jogadores que nos marcaram pela simplicidade, pela humildade e também pela qualidade. Isso, na altura, foi determinante para sermos campeões.

Houve alguém especialmente marcante?
[risos] Se falar de um vou estar a esquecer os outros...

Quando entrevistei o Vítor [pode recordar AQUI] ele destacou o João Moutinho como um treinador em campo, por exemplo.
O João? Oh, é uma enciclopédia de futebol. O João vê o jogo todo. O Fernando era a alma, era o jogador que ligava toda a gente, o Lucho era o comandante do processo, o Jackson era um estadista, o Otamendi via o jogo três segundos antes dos outros, o Alex Sandro era uma coisa deliciosa de ver jogar, nós sentávamo-nos a olhar para aquilo... Está a ver um condutor no meio do trânsito? Era o Alex Sandro. Depois o Danilo, o Maicon daquela altura, o Helton, que era uma figura incontornável, o James, que era um menino rebelde mas que foi percebendo a importância de outras coisas, porque só estava focado no processo ofensivo e naquele nível não dá... Se o virmos jogar hoje no Bayern já está com outra abrangência de movimentos. Eu sei lá, tivemos essa sorte, juntou-se ali um grupo de jogadores extraordinários e todos eles focados numa coisa: ganhar - e sabendo que só podiam ganhar se fossem equipa, se o fizessem juntos. Então o sorriso com que eles encaravam os jogos teoricamente mais difíceis, a forma como eles iam... Davam-nos uma grande tranquilidade. E puseram uma crença incrível nos últimos sete jogos, quando já ninguém acreditava em nós. Na altura ficámos a quatro pontos do Benfica e o Vítor foi muito inteligente, muito inteligente mesmo na gestão desses sete jogos. Transmitiu-lhes sempre a crença de que se nós vencéssemos os sete jogos, iríamos ser campeões. E também lhes disse que cada vez que ganhássemos um jogo, ele dava-lhes dois dias de folga.

E deu?
[risos] Deu. E nós, na fase em que se estava a decidir o campeonato, ganhávamos ao domingo e só íamos treinar novamente na quarta-feira. Segunda e terça era em casa. Só para perceberem isso. E também houve aquela estratégia de entregar o campeonato, quando o Vítor disse que já não havia hipótese e tal. Não sei se teve ou não impacto naquele fatídico jogo com o Estoril. E depois, claro, acontece o minuto 92, que é uma coisa que nos vai acompanhar até ao outro lado.

Mas, lá está, por muito que um treinador faça e pense e treine e organize da melhor maneira possível, depois há um golo que surge do nada, do lado caótico do jogo.
É, é. É aquilo que digo muitas vezes quando vou às formações de treinadores: nós, treinadores, vemos algumas coisas, mas os jogadores veem outras. E nós temos muito a tendência de querer limitar os jogadores com a nossa forma de ver as coisas. E os jogadores muitas vezes olham para determinadas situações de jogo e veem saídas que nós nunca conseguiríamos ver. E a pergunta que faço muitas vezes é: quem é que tem razão neste processo? Estavam 50 mil pessoas nesse dia no estádio do Dragão. Dessas 50 mil, 48 mil, pronto, eram portistas. Todos eles disseram ao Kelvin para cruzar. Inclusivamente nós. Mas ele viu uma coisa que mais ninguém viu. E que treinador é que vai dizer alguma coisa a um jogador? Nós temos de encontrar este equilíbrio, entre dar as pistas para sermos uma equipa orientada, com uma ideia para atacar e defender, mas os jogadores têm de ter esta capacidade de, em determinados momentos, dentro daquilo que são as ideias que nos orientam, tomar decisões em função daquilo que eles são. Eu, treinador, nunca fui um jogador como é o João Moutinho. Agora imaginemos eu a dizer ao João Moutinho: "Mete-me a bola ali na direita". E ele diz-me assim: "Na direita? Mas eu vou meter a bola na esquerda e vão aparecer dois gajos isolados." E eu: "O quê? Na esquerda?" E ele, pumba, mete na esquerda e estão dois gajos isolados. Foi isto que eu aprendi e que também me mudou um pouco a forma de olhar para o jogo, não é? Porque eu também era um bocadinho determinista: "Eh pá, tem de ser por ali, e depois aquele vai para dentro e outro passa nas costas"... Não, não, o jogo não é nada disso. O jogo, à medida que se vai jogando, quanto mais libertos nós estivermos para olhar e decidir, até mesmo emocionalmente, melhor. Porque aos 15 minutos eles sentem-se de uma forma e decidem de uma maneira e aos 30 já se sentem e decidem de outra maneira. E isto tudo influencia o desempenho e o desfecho. Foi também neste sentido que mudei bastante a minha forma de treinar, a forma como direciono os exercícios, a forma como comunico com os jogadores... É no sentido de ir criando contextos que lhes vão apresentando situações que os ajudem a decidir melhor, dentro daquilo que é a ideia que nos guia, no ataque e na defesa.

Rui Quinta tem 57 anos e é treinador desde 1992/93, época em que coordenava a formação do Penafiel

Rui Quinta tem 57 anos e é treinador desde 1992/93, época em que coordenava a formação do Penafiel

Rui Duarte Silva

Então, tentando pôr isto num contexto mais prático: se um central do Espinho inicia a construção, o Rui vai dizer "as tuas opções são o médio, o avançado e o lateral"? Hierarquiza as opções dele?
"Encontra". Não lhes dou nada hierarquizado, digo: se puderes encontrar os médios, encontra os médios. Quero que o meu central, em primeiro lugar, se puder encontrar os médios, encontre os médios. Agora, o meu central, às vezes, recebe a bola e não vê médios nenhuns. Eu vou obrigá-lo a fazer isso? Sabe o que é que eu estou a fazer? Estou a pô-lo numa situação de desconforto completo. E isso é importante para a minha equipa. Então o que faço? Se ele só consegue ver avançados... Estou a dar-lhe um exemplo que é real. Então, ok, é assim: "Malta, já sabemos, ali, bola para o avançado, cresce lá e começamos a jogar a partir daí". Ou seja, isto, no fundo, é a riqueza da nossa equipa. Em função ou do jogador ou das circunstâncias, jogamos, sim, mas também temos capacidade para... Opá, imaginemos que dá para explorar as costas da equipa adversária. Nós também sabemos fazê-lo. Não somos uma equipa formatada. Temos capacidade para lidar com um adversário que nos vem pressionar alto, com um adversário que fica posicionado atrás, com um adversário que fica intermédio... Perante as diversas adversidades, temos de ter as soluções ajustadas e essas soluções, no meu entender, não podem ser deterministas, não podem ser marcadas. Têm de ser transmitidas, mas quem toma as decisões...

São os jogadores.
São eles. Eu lembro-me de uma história que o Rui Faria [adjunto de José Mourinho] contava, que era a seguinte: o John Terry [ex-jogador do Chelsea] detestava construir. Detestava jogar a partir de trás. Então eles pensaram: como é que nós vamos pôr o John Terry a fazer uma coisa que só o deixa desestabilizado? Então, sempre que a bola entrava no John Terry, toda a gente sabia que a solução seguinte ia ser o Drogba, por exemplo, e o jogo depois seguia a partir dali. Pronto. Ou seja, porque se nós só conseguirmos chegar lá à frente se começarmos ali por trás, a jogar por trás e a rodar e não sei quê, se só soubermos fazer isso, então nós também vamos ter dificuldades para outras coisas. Queremos predominantemente fazê-lo, mas, se não conseguimos fazê-lo, seja por que circunstância for, então o nosso jogo também contempla a possibilidade de quê? De nós jogarmos logo pela frente, de nós jogarmos na profundidade. Ou seja, com várias nuances, em função do que está a acontecer naquele momento, é isso que determina. Porque uma coisa é eu dizer: "Eh pá, tu vê isso!" Mas ele não vê nada. A bola vai-lhe aos pés e ele nem se lembra que tem de respirar, está ali [imita respiração ofegante]. Ah pois é. Não é? E é assim, mesmo nesse contexto, o jogo tem de continuar a fluir, não é? Então, eh pá, se temos um avançado que segura bem a bola, então é para lá que se joga. Ele segura, apoio, os médios aparecem de frente e já estamos a jogar no meio-campo ofensivo. Envolvência dos laterais, os alas, um por dentro e outro por fora, eh pá, um lateral por dentro e outro por fora... E depois há outra coisa determinante quando estamos a atacar, que é o posicionamento de equilíbrio. É o fechar as soluções do adversário para ligar o contra-ataque. Isso tem sido muito importante para nós.

Se não acontece como o Manchester City com o Liverpool, na Liga dos Campeões. Canto ofensivo para o City, golo do Liverpool na transição.
É, é. Então a esse nível... Você deixa um jogador ali... Você está com três defesas atrás, mas há um jogador adversário, um só, que está três metros adiante e recebe a bola. Ele vira-se para os três e, naquele nível, adeus. Isto também é uma coisa que eu fui aprendendo. Fui olhando e refletindo. E é o seguinte: se estamos em superioridade numérica, então temos de fechar individualmente a solução de passe. A solução de passe, tau, tem de estar fechada por um, e, se estamos em superioridade numérica, depois há sempre alguém que contempla o espaço. Mas o adversário que está ali para receber tem de estar com gente a dividir com ele. Não pode receber sozinho e eu estar aqui na zona, tudo bem, tranquilo, e ele pega, vira-se para nós, aparecem três gajos a correr lançados e ele com a bola controlada no mínimo um ou dois tomba e nós, que estávamos numa posição vantajosa em termos numéricos, acabamos por ser surpreendidos. Isto, para nós, é um aspeto determinante e têm-nos mantido muito competitivos, porque nós lidamos muito com adversários a tentar explorar o contra ataque, sempre que ganham a bola a preocupação é sempre essa. Mesmo o nosso lateral muitas vezes vem pressionar onde?

No corredor central?
Aí mesmo, no meio, no meio do meio-campo. Isso dá-nos um conforto, porque rapidamente voltamos a recuperar a bola e continuamos na mesma a jogar no meio-campo ofensivo. Volto a dizer: este ano encontrámos aqui um grupo de jogadores que são uns campeões em termos de atitude, de disponibilidade, de ambição e de sacrifício em termos da ideia de jogo, de entenderem o que cada momento exige deles. É um orgulho trabalhar com estes jogadores. Ainda ontem lhes dizia isso mesmo: eles são a alegria com que acordo todos os dias de manhã, para fazer aquilo que adoro. Estou com eles sempre no meu pensamento, a pensar de que forma é que os podemos ajudar, porque eles merecem ser felizes.

São todos profissionais?
[risos] Não. Metade deste plantel jogava no distrital na época passada [risos]. Foram campeões distritais, numa realidade completamente diferente. No princípio, não foi muito fácil eles ouvirem-nos, o que é normal, porque quem é campeão é sempre dono da verdade, acha que tem razão. E depois chega aqui um gajo a dizer umas coisas e não sei quê... Tivemos ali um embate, mas eles acabaram por se juntar a nós, sem levantarmos ondas nenhumas, foi sempre aproveitando aquilo que eles valorizavam, no sentido de trazê-los para o nosso lado. Conseguimos isso e por isso é que o Espinho está a fazer o campeonato que está, fruto dessa simbiose, dessa forma como os jogadores se entregaram aos desafios que nós lançámos. Tenho a certeza que no final desta época eles vão ser reconhecidamente valorizados por isso.

Então estão apontados a subir à 2ª Liga?
Não, não estamos apontados a subida nenhuma. Estamos apontados é a ganhar jogos. É esse o nosso foco. Sem diferenciar adversários. Porque sabemos que quando diferenciamos adversários, o nosso rendimento também se diferencia, porque a nossa mentalidade muda. Para nós, é sempre a disputa de uma final. Não tem nada a ver com o adversário, tem a ver connosco, a essência está virada para nós, para o nosso desempenho. Porque nós acreditamos que as coisas que se passam no jogo dependem de nós. Se nós temos esse poder de conseguir influenciar as coisas que se passam num jogo, então não faz sentido andarmos a desgastarmo-nos noutras coisas. Nós nunca nos queixamos se não ganhamos este ou aquele jogo. Foi aquilo que conseguimos fazer. Se não foi melhor, foi porque ainda não tivemos aquele poder de influenciar as coisas que queríamos. Então isso vai fazer com que esta semana trabalhemos nas coisas que não correram tão bem, para que no próximo domingo elas corram como nós queremos.

Essa mensagem tem passado para eles?
Acho que tem passado. Porque se nós pensarmos "eh pá, este jogo agora é que é", isso normalmente dá asneirada. Porque nem toda a gente lida com as situações limite da mesma maneira. Há uns que até se potenciam, mas há outros que se diluem completamente. Ainda há dias lhes dizia, porque há muita gente à volta deles que não tem esta visão do processo, não é? E isso acaba por ter algum impacto. Porque só os alucinados dos treinadores é que lhes falam nesta forma de olhar para a competição. Nós, desde que chegámos, pedimos em cada treino exigência máxima, concentração máxima, disponibilidade máxima. Ou seja, não há dia nenhum que seja diferente disto. Nós vivemos neste registo. Portanto, os jogos valem o que sempre valem todos, desde sempre. Nós vivemos nesta realidade, não há motivo nenhum para nos alterarmos seja por que jogo for. É nisto que vivemos: lutar para ganhar, para que não fiquem arrependimentos no final do jogo. Porque já nos aconteceu. Tivemos aí um jogo em que valorizámos muito a posição do nosso adversário e perdemos. Porque achámos que só o nosso estatuto bastava para resolver. Transformámos essa desilusão e essa amargura em aprendizagem. É essa a nossa visão: olhar para aquilo que nos acontece e ver de que forma podemos utilizá-lo para crescer. Mesmo que a maioria pense que foi uma coisa má. Não sei se foi má, se calhar até acaba por ser uma coisa boa, porque crescemos.

Antes de ser treinador, Rui Quinta foi jogador profissional de futebol

Antes de ser treinador, Rui Quinta foi jogador profissional de futebol

Rui Duarte Silva

Qual é a composição da sua equipa técnica?
O clube já cá tinha o treinador de guarda-redes, o Nuno Anselmo, e não coloquei nenhum entrave a isso, até porque o Nuno tem uma paixão muito grande pela atividade e é muito competente. Comigo veio o Miguel Lopes, que já me acompanha há algum tempo, desde que fomos para o Penafiel na 1ª Liga, e é ele o meu braço direito, no fundo, em termos de metodologia e das discussões sobre o treino. E depois veio o Bruno Amaro, que é um jovem que fez uma carreira ímpar e que eu conheci aos 12 anos, na formação do Penafiel, e que esteve connosco como jogador até aos 18. É um líder, foi capitão em todas as equipas em que passou e é alguém que tem uma participação em tudo e tem um grande sentido crítico e que traz também uma coisa que considero muito importante, que é a proximidade com o sentimento do balneário, porque ele deixou de jogar há um ano. A forma como ele lida com os jogadores também acaba por ser muito importante na nossa dinâmica de liderança no balneário.

E nos treinos?
Nos nossos treinos, a maior parte das vezes são eles que estão a dirigir os exercícios. Eu intervenho muito pouco. É também uma gestão da minha comunicação, se não, a partir de determinada altura, deixo de ter impacto e passo a ser ruído e não quero ser ruído. Quando tenho necessidade de intervir, tem de ser uma coisa marcante, portanto a maior parte das vezes são o Miguel e o Bruno a dirigir o treino. Temos uma dinâmica fantástica, às vezes o nosso diretor até se passa, porque nós discutimos tanto uns com os outros que parece que estamos todos zangados [risos]. Mas é a nossa forma de trabalhar e temos uma relação de grande cumplicidade e penso que isso se reflete na forma como os jogadores também lidam com as coisas. Obviamente também já tivemos jogadores com fases melhores e piores, situações também complicadas, mas a nossa dinâmica de falar com eles sempre com abertura acabou por trazê-los para o nosso lado e deixá-los confortáveis, porque em primeiro lugar estamos é preocupados com o desempenho deles, para que eles sejam reconhecidos. E acho que vão ser reconhecidos pelo grande desempenho que estão a ter.

E o Rui também?
Eu vou à boleia. Comecei a minha atividade de treinador na formação de jogadores e desde cedo a minha preocupação sempre foi encontrar pessoas para trabalhar no sentido de exclusivamente valorizar os jogadores, era essa a nossa preocupação. Viver para os jogadores e não para os resultados, porque ir para os resultados é ir atrás da promoção do próprio treinador. Estivemos dez anos no Penafiel e três anos no Paços de Ferreira e o nosso trabalho foi sempre direcionado para os jogadores, e por isso acabámos por ser reconhecidos, porque os próprios jogadores acabaram por nos levar atrás deles. A minha preocupação é valorizar os meus jogadores. O que é que nós podemos fazer por estes jogadores, para que eles, no final do processo, quando deixarem de trabalhar connosco, tenham ali uma marca que tenha ficado. É evidente que no futebol sénior há muitos jogadores em muitos contextos. E tenho de dizer aqui uma coisa: encontrámos aqui em Espinho um conjunto de pessoas - o presidente, o vice-presidente, o diretor do futebol e o departamento médico - que vivem o Sporting de Espinho de uma forma única. E vivem o Sporting de Espinho independentemente das pessoas. Vivem para o Sporting de Espinho. E nós sentimos sempre este suporte, este conforto, de que tudo o que estamos a fazer é para o melhor para o Sporting de Espinho, e as pessoas ficam do nosso lado e os jogadores também percebem que a única saída que têm é entregarem-se aos desafios. Noutros sítios, a estrutura é muito mais alargada, há muita gente a ter opinião e aí, nessa divisão, os jogadores às vezes ficam confortáveis e não se entregam, e isso muitas vezes marca os desfechos das equipas. Tivemos a sorte de ter aqui um presidente que é a figura do Sporting de Espinho, é uma personagem única que tivemos a sorte de encontrar e que vive este desafio num clube com extremas dificuldades, mas que ele conseguiu criar... Está a ver ali aqueles holofotes ali? Nós tínhamos ali uns holofotes, antes, em que se via um círculo de claridade à beira deles, o resto do relvado esqueça. Os nossos guarda-redes levavam com a bola no focinho. O clube não desapareceu porque apareceram estas pessoas, e o clube anda a tentar sobreviver. E tem cumprido connosco religiosamente, o que é uma coisa fantástica. É evidente que nós temos só um orçamento minimamente aceitável, mas, volto a dizer, conseguimos encontrar jogadores com o perfil que queríamos, de caráter, comprometidos e ambiciosos, e temos uma estrutura pequena à nossa volta, que funciona bem e que vive para o clube.

Isso quer dizer que o Rui já passou por clubes em que os dirigentes...
Não se comprometem. Há alguns assim em Portugal. Porque o futebol já se transformou, hoje em dia. Para o treinador, ainda é um jogo, mas, para as pessoas, é um negócio. E isto adulterou completamente a essência daquilo que nos movia. O treinador, hoje em dia, quase nem é tido nem achado nas opções que se tomam, nas contratações, nas dispensas... A facilidade com que se troca de treinador hoje em dia é uma coisa que a mim me faz muita confusão. Por exemplo, na nossa série, só seis equipas não trocaram de treinador - e são as que estão mais para cima na tabela. Há equipas que já trocaram quatro vezes de treinador e que estão com a vida muito complicada. O futebol não é mais do que nós lidarmos com pessoas e as pessoas não são máquinas. Aquilo que a vida me foi ensinando é que as pessoas quando andam satisfeitas, felizes, rendem o dobro. E esse é o nosso desafio, é criar condições para que eles se sintam felizes, entusiasmados com aquilo que andam a fazer. Mas, hoje em dia, com os influenciadores dos presidentes... Há uma série de treinadores que estão ligados a um conjunto de jogadores, por exemplo, e as coisas andam assim neste registo. É uma nova fase do futebol. O futebol já passou por muitas fases, agora estamos nesta e a seguir há de vir outra. Mas acredito que o jogo, a essência do jogo, vai acabar por vencer. Sempre. Porque o negócio e o golpe podem funcionar num primeiro momento, mas na continuidade...

É mais fácil sentir a essência do jogo aqui, numa divisão inferior?
É, é. Há menos visibilidade, não é um campeonato profissional, é amador, temos na nossa equipa quase metade do plantel a trabalhar e a jogar, portanto é um registo diferente. Claro que aqui é um espaço ótimo para alguns jogadores se promoverem, porque têm a possibilidade de jogar, de competir com regularidade, o que se calhar poderia não acontecer se estivessem numa 2ª Liga - e eu penso que os jogadores evoluem é a competir, é na regularidade da competição. E depois nos nossos jogos temos sempre aí uns dez olheiros a ver os jogadores. Claro que muitos deles são assediados, mas temos cuidado para que eles não se deslumbrem, para que mantenham o foco. Por exemplo, eu, treinador, nunca contrato nenhum jogador sem falar antes com o treinador que já trabalhou com ele. Os treinadores falam entre eles. De treinador para treinador, a linguagem é diferente. Os intermediários querem promover um produto. Um treinador diz outras coisas, num registo totalmente diferente.

Rui Quinta e o campo pelado de treinos do Sporting de Espinho, junto ao antigo pavilhão do clube

Rui Quinta e o campo pelado de treinos do Sporting de Espinho, junto ao antigo pavilhão do clube

Rui Duarte Silva

O Rui continua a dar aulas?
Nesta fase, estou a dar aulas durante o dia, sim.

Então está como os jogadores: trabalho e treino.
Exatamente. Quando estava a trabalhar enquanto profissional, meti licença sem vencimento na escola. Só que as remunerações agora não o permitem. Aqui no Espinho nem são bem ordenados, são subsídios de transporte e afins. Não se consegue viver exclusivamente disto. É uma fase da vida. É evidente que acredito que vou voltar a pisar palcos que me vão dar oportunidade de me dedicar exclusivamente a isto, que é uma paixão de vida para mim. Claro que tenho algumas situações que... Não é que me inviabilizam, mas que me atrasam o processo, pronto. A falta de representatividade, se calhar. Ainda não me tornei num produto apetecível. Estou a trabalhar, todos os dias, para me tornar mais apetecível. Para que eles olhem para mim e se ponham à porrada para me contratar. Há de chegar esse dia.

O Vítor também não era um gajo muito apetecível, não se sabia vender a ele próprio.
Nada, nada. Mas ele granjeou agora uma boa dimensão.

Fez algumas escolhas duvidosas...
É verdade. Mas a vida... Não posso conduzir a minha vida a olhar para o retrovisor, porque a vida é o que vem para a frente, mas o que vem para a frente ninguém sabe nem sonha. Há três semanas, o Porto ia com cinco pontos de avanço, ia ser o próximo campeão e não havia hipótese nenhuma. Agora isto mudou tudo. Tudo pode acontecer. Claro que nós podemos influenciar o que pode acontecer e é isso que temos de tentar.

Pronto, está vendido.
[risos] Pronto.

Ainda não me contou como é que entra o professor Vítor Frade na sua carreira.
Ah, é verdade. É assim, fui um estudante emérito do secundário, tinha uma paixão muito grande pela matemática, por isso andei quase cinco anos só a fazer matemática do 12ª ano. Queria mesmo saber a matemática bem, hein? Eu e a matemática... foi uma paixão muito grande. Entretanto, a meio do percurso, candidatei-me à faculdade de desporto, porque antes pensava ir para arquitetura.

Arquitetura?
Sim, porque tinha a mania que sabia desenhar e gostava de projetar e tinhas ideias e não sei quê. Mas entretanto apareceu-me um amigo que estava a estudar educação física, na altura, na primeira turma do ISEF no Porto, e ele apresentou-me o professor Vítor Frade, porque eles tinham aulas de futebol com ele e havia um dia na semana, salvo erro, à sexta-feira, em que eles se juntavam para jogar e ele levava-me com ele. Conheci o professor Vítor Frade aí. Joguei futebol na formação mas também joguei voleibol, apesar de ser este rapaz de 1,75m, e era um atacante muito forte. E essa paixão pelo jogo e pelo desporto foi tomando conta de mim e eu lá fui. Acabei a matemática e entrei na faculdade em 1986, com 26 anos. Saí licenciado aos 31, porque o meu curso era de cinco anos, e durante esse percurso era jogador de futebol profissional. Era isso que me permitia pagar a universidade. Na faculdade, tive então a sorte de ser aluno do professor Vítor Frade durante três anos. Nós hoje, claro, rimo-nos muito, porque tenho o privilégio de ser amigo particular do professor, tenho uma amizade muito forte com ele e é uma pessoa que admiro e a quem devo muito. Rimo-nos porque naquela altura íamos para a cadeira de futebol cheios de expectativas em falar de futebol e o professor, de futebol, nas primeiras aulas, não falava nada, só falava do cérebro, do cérebro, do cérebro, e nós andávamos ali todos a olhar uns para os outros. "Mas o que é isto, pá?" Não percebíamos nada daquilo.

Quase todos os alunos dele dizem isso mesmo.
Mas isso marcou-nos a vida, porque o professor marca-nos a vida. Ele ajudava-nos e se o encontrássemos num corredor da faculdade, às tantas já estávamos ali três horas seguidas a conversar. E entretanto tudo aquilo que na altura não fazia sentido para nós, à medida que íamos avançando, já fazia sentido. Começámos a olhar para as mesmas coisas com outra forma de ver. Isso acaba por ser marcante, também na forma de ver o jogo, de treinar... E pronto, acabámos a faculdade, fomos para o terreno e se calhar fomos os primeiros alunos do professor a assumir. Eu era o coordenador da formação do Penafiel e levei os meus amigos todos da faculdade para o Penafiel, juntámos ali um grupo de alucinados e começámos todos ali, se calhar fazendo uns disparates. Hoje olhamos para trás e... Mas, naquela altura, era aquilo que era a nossa perceção. Fomos crescendo, experimentando e discutindo. Seguramente se daqui a dez anos nos encontrarmos, a Mariana vai-me dizer: "Ah, mas lá atrás, há dez anos, você dizia-me isto assim e assim". Opá, mas eu há dez anos era um ignorante, meu Deus do céu, até tenho vergonha [risos]. Quando vou às formações de treinadores ressalvo sempre isso: o processo, o conhecimento, está sempre em andamento, não podemos estar fechados. Isso também foi uma coisa que o professor nos ensinou: sempre flexíveis e a perceber o que se está a passar no processo, para podermos ajustar dentro do que achamos importante.

Vai dependendo do conhecimento e dos contextos.
Se calhar agora no Espinho há aqui coisas importantíssimas em que no ano em que estive no Penafiel, nesta mesma divisão, e depois acabámos por subir para 2ª Liga, eram diferentes, porque o contexto era diferente. Não posso chegar aqui, neste contexto, neste clube, com estes jogadores, e querer ter a exigência que tinha quando, por exemplo, estava a treinar na 1ª Liga. São coisas distintas. Nunca nos podemos desligar do sítio onde estamos. Os treinadores têm de ter esta capacidade, sem nos adulterarmos. Se vir os jogos que as nossas equipas jogavam há dez anos, a essência está ali. Pode ser diferente em certas coisas, mas o jogo está lá. Quando vou às formações de treinadores normalmente mostro imagens de quando comecei a treinar a equipa sénior do Paredes, depois de quando estive no Gil Vicente, depois no Penafiel... Há ali coisas semelhantes, que têm a ver comigo, com o jogo que eu gosto, porque gosto de ver um jogo positivo. Por exemplo, uma coisa que me agonia mesmo muito: às vezes encontramos aqui situações em que os árbitros são muito passivos, porque os adversários, se estão em vantagem no marcador, às vezes, dos 45 minutos que há para jogar, jogam-se 15 minutos, porque os outros são passados com jogadores caídos no chão. Nós já tivemos aqui jogos em que estivemos a ganhar por um golo de diferença e nenhum jogador - nenhum! - se atirou para o chão para tentar passar o tempo. Nós queremos jogar. Vamos tentar conquistar as coisas a jogar. Não podemos andar a apregoar uma coisa e depois andar a fazer outra. Há treinadores que dizem que vale tudo para ganhar. A minha natureza é sempre lutar pela vitória, mas não vale tudo para ganhar. É a minha maneira de ser, não posso fugir a isso.

Temos equipas na 1ª Liga que têm um futebol predominamente positivo, mas que depois são criticadas se tentam pô-lo em prática contra os três grandes, por exemplo.
Nós temos o poder de valorizar aquilo que entendemos. Você conhece aquela história do velho, do burro e do miúdo? Ele mudou três vezes quem ia no burro, mas para as pessoas estava sempre tudo mal. Se nós conduzirmos a nossa vida pela opinião dos outros, então nunca vamos ser felizes na vida. Isto, para mim, é que é determinante. Queres agradar a quem? [bate no peito com força] Em primeiro lugar, a mim e aos meus. E eu às vezes discuto com os meus e eles não deixam de ter razão...

Mas queres ter razão ou queres ser campeão?
[risos] Tem de ser assim. Se não, é: "Eiiii, os índios... Eiii, não percebes nada". Ou me atiro para a valeta a chorar, porque não gostam de mim... Não posso ligar a nada disso, como é evidente. Oiça, Mariana, vou-lhe contar: a primeira vez que me sentei no banco, no Porto... (pausa) O gajo que estava ao meu lado bateu-me e disse assim: "Ei, tens de respirar, pá". Eu até me tinha esquecido [risos]. Percebe o impacto, não é? O que é que eu aprendi? Rui, tu tens o poder de valorizar só as opiniões que queres. Se valorizas a opinião daquele gajo, é porque lhe atribuis algum valor. Se não, corta. Quero lá saber se os gajos me assobiam ou não, meu Deus do céu. Já lidei com os gajos a atirarem-me petardos e paralelos e sei lá mais o quê. Opá, as pessoas são livres de terem a sua opinião. Agora, quem tem o poder de valorizar isso ou não sou eu. Há uma outra história por causa disso, que é a história do anel. Nunca ouviu?

Não.
Então vai registar estar. Havia um rapaz que andava muito preocupado com a opinião dos outros. Então o amigo mais velho dele disse-lhe: "Tenho aqui um anel e preciso que vás à feira e vendas o anel por duas moedas de ouro. Por menos do que isso não podes vender". E ele lá foi. Depois voltou, triste, e disse: "Não consegui. O melhor que me deram foi duas moedas de prata". Então o amigo disse-lhe para ele ir ao ourives só para avaliar o anel e saber ao certo quanto é que aquilo valia. E ele quando volta do ourives: "Ó amigo, sabe o que ele disse? O anel vale 65 moedas de ouro". E o amigo diz: "Aprendeste a lição? Quando tu valorizaste a opinião dos gajos que não percebem nada disto, eles só davam duas moedas de prata. Mas quando consultaste o especialista, o gajo que sabe e conhece, ele já dizia 65 moedas de ouro. Portanto valoriza a opinião de quem tu reconheces importância. Não percas tempo com os outros." É uma coisa simples.

Já contou isso aos jogadores?
[risos] Já, já. Uma vez, em Penafiel, em 2008, também contei outra. Tinha lá uma secção de gajos que só reclamavam, iam para a internet e não sei quê, apesar de eu não ligar nada à internet. Então, contei no balneário a história dos sapinhos, que estavam a tentar subir ao campanário. Os sapinhos começaram a subir e começou-se a juntar muita gente à volta, e todos a dizer: "Uiiiiii que eles vão esborrachar-se". E eles iam caindo, não conseguiam subir aquilo. "Uiiii, outro". Mas houve um cabrão que foi por ali acima, sem parar, tau, tau, tau, até lá acima. Sabe o que é que ele era? Era surdo [risos]. Não ouviu ninguém, só se focou em subir. E subiu. Contei essa história lá no Penafiel e depois saiu no jornal. E nos jogos depois disso lá vinham os adeptos atrás de mim: "Anda lá, ó sapinho. Anda lá, ó surdo" [risos]. Mas focámo-nos no que interessava, que era ganhar. Deixe lá a opinião dos outros. Cada um vê o que quer. E eu valorizo o que quero.