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O meu clássico na Tribuna

Simões: “E eu pensei: ‘O Eusébio é o gajo que faz os golos. O Eusébio não está. Tenho de fazer mais qualquer coisa’”

Em semana de Benfica-FC Porto, a Tribuna Expresso tem uma história por dia sobre o clássico, contada por quem a viveu, na primeira pessoa. Esta é de António Simões e do jogo em que sentiu que se tinha de chegar à frente por Eusébio não estar lá

Diogo Pombo

Décadas 60/70: à conversa com António Simões, colega do Benfica, clube onde o "king" se tornou o maior ídolo de sempre

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Bem, há vários clássicos dos quais me recordo.

Tive a felicidade de fazer muitos golos nos clássicos. Benfica-FC Porto e FC Porto-Benfica. Joguei imensos, ainda por cima. E marquei muitos golos para aquilo que era o meu perfil como jogador. Acho até que foi o clube contra o qual marquei mais golos – com a cabeça, com o pé, com tudo.

Lembro-me de um, e esse ficou-me mesmo na memória, na Luz, em que fiz o golo de cabeça. Era uma coisa invulgar, apesar de ter marcado de cabeça a todos os grandes guarda-redes portugueses. É muito curioso, mas isso não é assim tão importante. O importante é que esse jogo foi determinante para o título e por outra coisa: o Eusébio estava magoado e não jogou.

Foi em 1972, um pouco antes de uma eliminatória com o Feyenoord, em que perdemos lá 1-0 e aqui demos 5-1. Entretanto, por acaso, até parti o braço. Outra coisa curiosa, porque assim não joguei num desses jogos. Mas estava numa grande forma. Há coisas que marcam e não vou aqui inventar nada.

Lembro-me perfeitamente, como se fosse hoje, de um sentimento. A ausência do Eusébio fez-me sentir, como capitão de equipa, que tinha de fazer mais qualquer coisa para além de jogar bem – chegar à frente, fazer golo, ser mais atrevido na zona de finalização, essa coisa toda.

Arq. A Capital/IP

Recordo-me da pensar antes do jogo: “Como vamos ganhar isto se o Eusébio não está?”.

Não digo que o resto da equipa tenha sentido isso. Foi um sentimento interior, foi no meu silêncio. Não foi da equipa. E eu pensei: “O Eusébio é o gajo que faz os golos. O Eusébio não está. Tenho de fazer mais qualquer coisa”. E parece que alguém me protegeu e me deu inspiração para fazer esse golo, porque ganhámos 1-0. Esse foi o jogo que mais me marcou.

Claro que, depois, houve muitos outros: um 6-2 no final de uma Taça de Portugal [1964], em que também fiz um golo de cabeça, curiosamente; outro jogo para a Taça, na Luz [1962], em que ganhámos 3-1 e eu fiz dois golos; depois fomos às Antas ganhar por 2-1 e também diz um golo de cabeça [1963].

Quando me começo a lembrar dos clássicos, lembro-me que me aconteceu muitas vezes isto, mas sempre com o FC Porto. Mas diria que aquele 1-0 na Luz, com o estádio cheio, em que fiz o único golo, e de cabeça - é por isso que não esqueci.

Arq. A Capital/IP