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O meu clássico na Tribuna

Toni: “Quando me aproximei e vi o estado da perna do Marco Aurélio pedi para sair”

Em semana de Benfica-FC Porto, a Tribuna Expresso tem uma história por dia sobre o clássico, contada por quem a viveu, na primeira pessoa. Esta é de Toni e de um jogo que o marcou pela negativa, quando em 1979 lesionou gravemente um jogador do FC Porto na Luz

TEXTO TONI (DEPOIMENTO RECOLHIDO POR LÍDIA PARALTA GOMES)

ARQ. A CAPITAL

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São muitos anos e muitos clássicos jogados. E há momentos bons e outros menos bons. Houve vitórias, houve derrotas, houve empates. Não só como jogador, mas também como treinador e mais tarde como diretor desportivo.

Mas lembro-me bem de uma situação de um jogo num dia de muita chuva [era janeiro de 1979], no Estádio da Luz. O árbitro era o Porém Luís, de Leiria, que já morreu. Tive um lance com o Marco Aurélio, que era um jogador do FC Porto da altura, um brasileiro, e desse lance resultou uma lesão grave do Marco Aurélio, que teve de ser operado à tíbia a ao perónio. E eu, ao aproximar-me e ao ver o estado em que estava a perna dele, pedi para sair. Uns dias depois, aquando da operação, fui ao Porto visitar o Marco Aurélio. Foi um episódio marcante porque sempre fui um jogador leal. Era viril a jogar, entregava-me à luta, mas sempre fui um jogador leal.

Recordo-me também de marcar num clássico, que era na altura o último jogo de um campeonato [de 1975/76] que já tínhamos ganho. Estivemos a ganhar por 2-0, o segundo golo fui eu que marquei, e depois, na 2.ª parte, o FC Porto deu a volta e acabou por ganhar.

Marquei também numa meia-final da Taça de Portugal, lá nas Antas, num jogo que acabámos por ganhar e passar à final. Marquei o terceiro golo. Quando eu jogava quem marcava os golos era, inicialmente, o Eusébio. Depois o Vítor Baptista, o Jordão, o Néné. Eram grandes avançados. Por outro lado tive bons duelos, mas infelizmente poucos - porque ele partiu cedo - com um jogador que marca a história do FC Porto, o Pavão, que morreu num jogo contra o Setúbal. Ainda jogámos na Seleção de esperanças juntos. Ele era, tal como eu, um jogador de meio-campo e tinha uma grande qualidade técnica - era um estratega. Foi uma grande perda para o FC Porto e para o futebol português. Joguei também frente a outra figura marcante da história do FC Porto, o guarda-redes Américo. O Rolando também. Há depois ali uma fase de transição em que apanho o Oliveira, um dos maiores talentos do futebol português. Grandes duelo, mas grandes amigos [risos].

ARQ. A CAPITAL

Vivi um período em que as relações com o FC Porto eram pacíficas. Havia rivalidade, mas as relações eram boas. A crispação começa ali a partir da década de 90, acentua-se e agora é aquilo que todos nós sabemos. Mas não era fácil para nós, Benfica, jogarmos no Porto, como também não era fácil jogar no Estádio da Luz. Esta semana é importante que as pessoas mais responsáveis não atirem mais achas para a fogueira, porque incendiado isto já está! É preciso é esperar pelo jogo, pela luta, pela emoção que o Clássico arrasta.

Na minha altura, nos Clássicos a norte, nós chegavamos a utilizar o autocarro do FC Porto nas deslocações do hotel para o estádio. Mas era mais pelo efeito dissuasor. Da mesma forma que o Benfica emprestava o autocarro ao FC Porto em Lisboa. Isso agora é impossível. Veja o que era, se eventualmente o que aconteceu entre mim e o Marco Aurélio fosse hoje, eu agora ir ao Porto, visitá-lo ao hospital.

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