Tribuna Expresso

Perfil

O meu clássico na Tribuna

Paulo Futre e a Supertaça de 86: “Fiz dois golos na Luz e fiquei contente por mim e triste pelo Neno. Ele era, e é, um grande amigo”

Em semana de Benfica-FC Porto, a Tribuna Expresso tem uma história por dia sobre o clássico, contada por quem a viveu, na primeira pessoa. Esta é de Paulo Futre e da história dele na segunda mão da Supertaça de 1986, em que marcou dois golos pelo FC Porto, na Luz

Paulo Futre (depoimento recolhido por Diogo Pombo)

Arq. O Jornal

Partilhar

Opá, estive em clássicos bons, mas escolho, sem dúvida, a Supertaça [1986]. O jogo dos 4-2. Foi diferente, porque faço dois golos ao Neno, que teve uma noite infeliz. Como o Neno era, e é, um grande amigo meu, eu estava contente no balneário, mas também triste por ele. Tinha aquela mistura de sentimentos, que nunca me tinha acontecido – estar contente por termos ganhado um título, mas triste por um companheiro.

Tinha feito um jogo incrível, não é? Depois do jogo, de certeza que disse alguma coisa ao Neno. Não me recordo o quê, mas de certeza absoluta que fui ter com ele. Dei-lhe um grande abraço.

Foi um jogo mesmo incrível. Acho que também faço uma assistência para o Madjer, no primeiro golo. Depois, faço os dois golos na Luz, ganhámos ali o título. Foi um dia especial. Talvez tenha sido considerado o melhor em campo, não me lembro. Mas fazer dois golos no Estádio da Luz não é para qualquer um, não é fácil. Mas o Madjer também fez um jogo incrível.

Nós, no FC Porto, ficávamos ansiosos antes destes jogos, sem dúvida. Era um clássico, um jogo especial, claro que estávamos ansiosos e motivados já muitos dias antes. Isto é o a-b-c do futebol, era um jogo completamente diferente. Era, é e sempre o será para todos os jogadores.

Naquela altura, os jogos tinham mais emoção; eram muito mais portugueses de cada lado. A grande maioria da seleção também era feita de jogadores do FC Porto e do Benfica. Havia uma rivalidade tremenda, porque os jogadores viviam o clube de maneira diferente, não é? Então aquele núcleo duro do Barreiro era tremendo [Neno, Futre, Chalana e Diamantino, por exemplo]. E os clássicos eram logo incendiados, por assim dizer, na imprensa, também pela maneira como os jogadores viviam o clube.

No FC Porto, 95% dos jogadores eram do FC Porto. A nível de balneário, na seleção, enfim, eram outros tempos O treinador do FC Porto, na altura, era o Artur Jorge, que tinha tido uma grande história no Benfica, mas como jogador. Era um grande motivador, comigo especialmente. Sabia-me motivar como ninguém. Mais tarde, também tive outro mestre, o Luis Aragonés, outro grande motivador. Mas, claro, ele era um génio. Sabia-me motivar de uma maneira incrível – ora com uma palavra que tinha visto num jornal, ora com qualquer detalhe que visse no treino. Ou, se nessa semana chegasse atrasado a um treino, montava logo um número tremendo na minha cabeça para me motivar, nem que fosse um castigo.

Tive histórias incríveis com ele. Dizia-me: "Se ganharmos ou se fizeres x golos, deixo-te ficar dois dias em Lisboa”. Esta era uma motivação mais normal. Mas, outras vezes, já me dizia que me dava dois dias para ficar com a família e os amigos. Dizia, por exemplo: “Só vais para cima na quarta-feira”. Ouvires aquilo era uma maravilha. Era mais um plus.

Partilhar