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O meu clássico na Tribuna

Maniche: “No autocarro, fazíamos apostas na vitória, para verem a moral”

Em semana de Benfica-FC Porto, a Tribuna Expresso tem uma história por dia sobre o clássico, contada por quem a viveu, na primeira pessoa. É a vez de Maniche e do passe que deu para Deco fazer o 1-0 com que o FC Porto venceu na Luz, em 2003, um jogo que diziam ser do título, mas que já não o era

Maniche (depoimento recolhido por Diogo Pombo)

Ana Baião

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O jogo que mais me marcou, efetivamente, foi quando fomos à Luz ganhar 1-0. O Deco fez o golo. Apesar de já termos alguma distância em termos pontuais na altura em relação ao Benfica, foi por causa de todo o envolvimento que criaram.

Diziam que era o jogo do título, porque, se ganhássemos o jogo, ficava arrumada a questão, digamos assim. Se perdêssemos, ainda havia alguma esperança de o Benfica recuperar alguns pontos e nós, animicamente, podíamos quebrar – o que não aconteceu. Acabámos por ganhar e fiz, inclusivamente, o passe para o golo do Deco.

Foi a primeira vez que regressei à Luz após a minha saída do Benfica.

E esse foi o jogo do qual eu senti mais impacto. Imaginava, mas não sabia aquilo que ia encontrar, estando a jogar pelo FC Porto. Não tinha a perceção. Foi bom, porque as coisas aconteceram da melhor forma, já que ganhámos, fiz o passe para o golo e distanciamo-nos ainda mais do Benfica.

O facto de, antes, ter jogado no Benfica, não mexeu comigo. Pelo contrário, já estava habituado aquele ambiente. Quando jogas um clássico, mesmo estando do outro lado, a pressão existe sempre. No meu caso, a pressão era mais em termos de desestabilização. Sabia que ia ouvir quando entrasse para o aquecimento, ou quando tocasse na bola.

Durante essa semana, os meus colegas e o mister Mourinho fizeram o retrato para me abstrair dessas situações todas. Eu próprio o fiz. Já estava à espera, é normal. Houve adeptos que não assobiaram, mas os mais fervorosos fizeram-no. Isso iria sempre existir, independentemente dos jogadores que lá estão, porque era um Benfica-FC Porto. Mas, com um jogador da casa que foi para o rival e regressa ao Estádio da Luz, era perfeitamente normal que isso fosse acontecer. E eu já estava preparadíssimo para isso.

Eu tinha sido capitão do Benfica, até com o Mourinho, e isso também deu mais ênfase para se criar aquela situação à minha volta. Mas, como profissional, tinha que estar à espera que isso acontecesse. O Mourinho usou esse lado para puxar por mim, como usa sempre nos seus discursos. Falou comigo diretamente, disse-me para ter cuidado.

A preocupação era para eu não ser expulso por causa de alguma entrada ou de alguma boca que um jogador me pudesse mandar, também por ordem das pessoas do Benfica, que já conheciam o meu temperamento em algumas situações. Podiam jogar com isso. O Mourinho mostrou-me, e à equipa, que estávamos à frente por 10 pontos e estavam a criar um jogo do título, com tantos pontos de diferença, quando, para nós, realmente não o era. Já estávamos tantos pontos à frente que ele usou isso.

Sinceramente, fomos para esse jogo como íamos para todos os jogos. É muito fácil dizermos que somos uma família quando, às vezes, não se passa nada disso dentro do balneário. O que é certo é que, realmente, tínhamos uma grande família. E isso verificou-se durante os anos em que estivemos juntos. No autocarro, aliás, fazíamos apostas na vitória que iríamos obter. Nunca uma derrota, como é óbvio, mas se iria ser um 1-0, um 2-0 ou um 3-0. Isto para verem a confiança que tínhamos entre nós.

Era moral, porque sabíamos a nossa realidade. Sabíamos que, se estivéssemos bem, íamos ganhar aquele jogo de certeza. Não há certezas no futebol, mas ficaríamos muito mais perto de vencer, do que de perder. Não me lembro de quem acertou no resultado. Se um dizia que ia ser 3-0, os outros talvez desconfiassem, por ser um jogo na Luz. Havia sempre uns mais otimistas que outros. Lembro-me que houve muitos a dizerem 2-0.

O mais importante era ganhar, nem que fosse por 1-0. O que acabou por acontecer.

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