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O meu clássico na Tribuna

Domingos Paciência: “Ganhámos um campeonato assim, com faltas e com penáltis”

Em semana de Benfica-FC Porto, a Tribuna Expresso tem uma história por dia sobre o clássico, contada por quem a viveu, na primeira pessoa. A última é contada por Domingos Paciência, que se lembra de um 2-3 no antigo Estádio da Luz, onde o antigo avançado até começou sentado no banco

Domingos Paciência (depoimento recolhido por Diogo Pombo)

Arq. Expresso

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Houve clássicos que, realmente, foram históricos. Aquele do qual me lembro mais, por ter participado, é um célebre 2-3, num Estádio da Luz completamente cheio [1992]. Foi um resultado discutido até ao final. Estivemos a ganhar 1-0, o Benfica empatou, fizemos o 2-1, eles respondem com o 2-2 e depois houve o 2-3. Acho que foi esse o jogo que mais me marcou.

Nesse jogo não marquei, dei a marcar ao Timofte. Tinha marcado no ano anterior. Nesse clássico, dei um golo ao Kostadinov e outro, depois, ao Timofte. Fiz duas assistências [em quatro minutos, já agora], claro que esse jogo foi marcante. Acho que é no tempo do Carlos Alberto Silva, salvo erro.

O Benfica também tinha uma boa equipa. Havia o Rui Costa, o Yuran, o Kulkov, o Isaías, o Veloso, o Vítor Paneira… Era uma equipa muito forte. Era a altura em que andávamos os dois a lutar pelo título. Lembro-me perfeitamente que foi um jogo com o estádio cheio. O que, na altura, implicava perto 120 mil pessoas. Era infernal.

Hoje também é, mas o estádio acaba por ser mais fechado e por criar um ambiente espetacular, porque o barulho se concentra muito. Mas, na altura, com 120 mil no estádio, era impressionante o que se ouvia naquele estádio.

Não sei se os centrais de então eram o Hélder e o Ricardo [foram Rui Bento e Veloso]. Não me recordo bem. Sei que houve um ano em que joguei contra o Mozer e o Ricardo. Com o Samuel, também.

Acho que o Mozer era o mais impetuoso, pela agressividade que impunha no seu jogo. Era um jogador muito alto em relação a mim, era aquele com quem sentia mais dificuldades quando estava mais próximo dele. É evidente que nunca me podia dar à marcação com esse tipo de jogador. Portanto, foi se calhar aquele, não digo assustar, mas que me impunha mais respeito.

Às vezes eu jogava sozinho, outras vezes com o Kostadinov, e éramos dois jogadores que tínhamos grande mobilidade. Isso criava muita confusão aos centrais do Benfica, o facto de não terem um ponta de lança para marcar e lideram com dois jogadores móveis.

Há um lance, noutro jogo, que me ficou na memória. Há um golo na Luz em que, antes, o Kostadinov apanha o Fernando Mendes numa linha de fundo. Ele simula, simula, cruza e não cruza, e volta a simular, e o Fernando Mendes ali. Acho que ficou completamente desaustinado, perdeu a noção da bola e do espaço. Depois, o Kostadinov cruza, eu saltei com o Silvino, ganhei a bola, a bola andou ali, bateu no poste e depois apareceu o Baltazar - que era ponta de lança - e acabou por fazer um golo. Acho que esse jogo ficou 2-2. Foi com o Artur Jorge, que até pôs o Baltazar e voltou a tirá-lo. Foi um jogo com uma história engraçada.

Eu era um avançado de bola no pé. Gostava de mobilidade, era razoavelmente rapidinho, mas sentia-me mais confiante com a bola no pé. A minha tendência era ir para cima dos centrais, enfrentá-los e driblá-los da maneira que pudesse. Esse era o meu forte. Depois tinha uma vantagem - se alguém me tocasse, era muito mais fácil derrubar-me. E se alguém me derrubasse havia faltas, e se havia faltas, havia o Branco e o Jardel. O que era um perigo.

Ganhámos um campeonato assim, com faltas e com penáltis. O Benfica sofreu com isso.