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O meu dérbi

Jorge Cadete: “Não me recordo de ver um jogador do Sporting que não estivesse a chorar”

Em semana de Sporting-Benfica, a Tribuna Expresso tem uma história por dia sobre o dérbi, contada por quem a viveu, na primeira pessoa. Esta é a de Jorge Cadete, avançado leonino (e mais tarde do Benfica) que marcou o primeiro golo daquela derrota por 6-3 do Sporting na época 1993/94

Jorge Cadete (depoimento recolhido por Lídia Paralta Gomes)

Andre Kosters

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O primeiro dérbi marca-nos sempre. Ainda por cima foi em Alvalade, eu tinha subido da equipa de juniores e ter pela frente um jogador com a experiência de um Álvaro Magalhães foi assim… complicado.

Mas outro dérbi que marcou, pela expectativa em si, foi o 6-3 em Alvalade, porque poderíamos ter quebrado um jejum de quase 12 anos sem ganhar o campeonato, mas que depois acabou por ser um dérbi de grande tristeza.

Marquei aos 7 minutos de jogo. Passado um bocado o João Pinto empata o jogo e o Figo depois faz o 2-1: acreditámos que mesmo que o Benfica voltasse a marcar nós marcaríamos também. Mas a alteração de estratégia da equipa mudou isso e o Benfica acabou por fazer mais golos.

Foi uma noite única do João Pinto. Uma exibição fantástica. Marcou três golos, sempre que tocou na bola fez golo e cada vez que o Benfica foi à baliza fez golo. A nossa equipa técnica decidiu alterar o sistema: tirou o Paulo Torres de defesa-esquerdo e colocou o Capucho. Estava 3-2, tinha acabado a 1.ª parte e depois veio o 4-2, o 5-2 e o 6-2. Foi uma alteração que acabou por sair errada: a ideia era termos mais poder ofensivo e com o poder físico do Capucho conseguir defender e ao mesmo tempo dar mais força ao ataque. Só que o Benfica aproveitou e procurou a ausência de experiência do Capucho como defesa-esquerdo para atacar sempre por aquele lado.

É um dérbi marcante porque é na fase final do campeonato, se ganhássemos ao Benfica passávamos para a frente do campeonato e, com tão poucos jogos pela frente, seria uma muito provável vitória no campeonato para o Sporting, ao fim de 12 anos.

No final do jogo o ânimo era de tristeza e choro. Uma desilusão autêntica. A nossa média de idades na altura era de 25 anos e ainda havia alguma imaturidade. Mas acima de tudo ficámos desiludidos porque o estádio estava completamente cheio, com os adeptos incansáveis no apoio à equipa. A nossa tristeza também tinha a ver com isso: por vermos os adeptos que estiveram ali do início ao fim saírem do estádio desiludidos.

Houve lágrimas, não só no balneário, mas mesmo quando acabou o jogo. Não me recordo de ver um jogador do Sporting que não estivesse a chorar.

Não sentimos que a aquela geração tinha perdido ali uma última oportunidade para ser campeã. Eu na altura tinha 25 anos, o Peixe e o Figo estavam nos 20/21 e no plantel ainda estavam vários jogadores que tinham sido campeões do Mundo em Riade ou Lisboa. Criou-se uma grande expectativa de que aquela equipa poderia durante os cinco anos seguintes dar vários títulos ao Sporting, coisa que acabou por não acontecer. Com o despedimento do Bobby Robson, a equipa é desfeita no espaço de duas épocas.

Sérgio Granadeiro

Há também um jogo em 92, que ganhámos por 2-0, com o primeiro golo aos 30 segundos de jogo, pelo Balakov. Um golo aos 30 segundos quando o pontapé de saída é dado pela equipa adversária é uma proeza assim grande! Recordo-me que alguém passa para o Abel Xavier e eu intercetei a bola para o Balakov. O Balakov chutou com o pé direito e a bola entrou ao ângulo da baliza do Silvino, que com o nevoeiro não viu nada. O 2-0 foi do Iordanov, recordo-me bem, foi uma entrada minha ao primeiro poste em que levo comigo o Paulo Madeira e o Hélder na marcação e o Iordanov fica sozinho e de cabeça, em voo, faz golo.

Quando se representa um clube o importante é sermos 100% profissionais. Por vezes conseguimos juntar as duas vertentes: sermos profissionais e a paixão que temos pelo clube. Eu felizmente consegui fazer isso durante 12 anos. Como a minha carreira não podia terminar aos 27 anos, quando o Sporting já não me queria, decidi ir por outro rumo. Estive no Celtic, no Celta de Vigo e depois acabei por assinar pelo Benfica. Coincidiu que o jogo de estreia fosse em Alvalade, contra o Sporting [em janeiro de 99, Benfica venceu por 2-1].

Não faço questão de dizer que fui eu que marquei o último golo do jogo [autogolo atribuído a Beto], mas o que certo é que na ficha do árbitro está que fui eu o marcador e na imagens da televisão vê-se perfeitamente bem eu a cabecear. Posteriormente o Beto vem dizer que não fez dois autogolos. Mas isso não é o importante. Acima de tudo foi uma vitória do clube que representava na altura, um clube ao qual me entreguei a 100%.

O dérbi de Lisboa poderá comparar-se um pouco ao de Glasgow, em virtude do entusiasmo que tem um jogo de futebol. Mas o Old Firm entre o Celtic e o Rangers vai muito além do futebol e da rivalidade clubística. Está envolvida a religião, porque o Celtic é católico e o Rangers protestante e é um dérbi entre o sul e o norte da cidade. Além de que o Celtic foi fundado por imigrantes irlandeses, o que faz com que os adeptos não sejam grande apoiantes da seleção da Escócia, enquanto o Rangers tem muitos adeptos na Irlanda do Norte. Há ali um mix muito especial, não é só futebol.

De há 20 anos para cá o comportamento dos adeptos mudou muito: antes, devido às questões da religião havia muitos confrontos, mas os clubes tiveram a inteligência de se reunirem e fazerem campanhas sobre a violência e outras situações que gostariam de não ver mais naqueles jogos. E essas campanhas tiveram o seu efeito.

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