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Benfica: a importância do factor pecuário na bola

Rui Cardoso

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Sinto-me obrigado a começar esta crónica com uma dupla declaração de interesses.

Em primeiro lugar, está escrito na minha nota biográfica no sítio electrónico deste jornal que espero conseguir reformar-me no dia em que o Benfica for tetracampeão para poder escrever mais uns livros e dar mais umas voltas pelo país. Logo, dar-me-ia jeito que fosse já este ano...

Em segundo lugar, quando nasci, a minha mãe deu-me à Luz e não às Antas ou a Alvalade, circunstância pela qual não poderia ser outra coisa senão benfiquista. O que não quer dizer sectário, ao ponto de desrespeitar os adversários, muito menos obtuso e incapaz de distinguir o bom do mau futebol.

Estive na bancada em dois jogos que me deixaram indicações contraditórias: a Eusébio Cup, na Luz, e a Supertaça, em Aveiro. Na primeira, um pândego, sentado ao meu lado, dizia para quem o quisesse ouvir, cada vez que o Raúl falhava um remate. “Reparem bem! E demos 22 milhões por ele…” Já no jogo com o Braga, quando Rafa, putativa contratação do Glorioso, falhou aquele golo de baliza escancarada, outro animador de bancada comentou: “Vinte milhões por este gajo? Chiça…”

Ou seja, há sempre risco de conflito entre os objetivos e as finalidades do futebol: o objetivo é encantar a bancada com fintas, desmarcações e remates; a finalidade é meter a bola lá dentro. Nem sempre andam a par.

Que me parece a equipa? Bastante razoável mas ainda um pouco trelemiques na defesa. A tripla segurança Ederson-Lindelöf-Jardel ainda não voltou. O meio-campo tem dias. Pizzi, tanto tira da cartola golos e passes geniais (revejam-se no Youtube os lances do 2-0 e do 3-0), como parece ter medo de disputar os ressaltos. André Horta, tanto entusiasma, como desilude. Fejsa está bom e recomenda-se e Samaris, nem que fosse só pela sua invejável fluência em português, merece um lugar no relvado. Cervi promete e quanto à dupla Mitroglou-Jonas está tudo dito. Não me esqueci do Zivkovic mas continua no estaleiro: houve um “camone” que lhe deu tal sarrafada que, se fosse árvore, o tinha arrancado pela raiz.

Quanto a Carrillo, corre que nem um cristão a fugir dos leões no Coliseu. Não se percebe é se sabe para quê…

Chega para o campeonato? Depende de muita coisa, mas é sempre melhor arrancar com alguma dinâmica de vitória e bons sinais em campo do que ao pé-coxinho como no ano passado. Há também o nada despiciendo factor pecuário: se a Vaca da Luz mantiver a pujança do ano passado que se parece ter estendido à Supertaça (os outros falham de baliza aberta e nós marcamos no último minuto) os augúrios não podiam ser melhores.

E quanto aos adversários? O FCP vive uma espécie de Queda do Império Romano que se arrisca ser tão longa e duradoura como a do século V (como é possível terem despachado o Aboubakar sem substituto garantido?). O Sporting é prisioneiro do paradoxo da manta: a equipa é boa mas curta. Dando-se o caso de faltar alguém por castigo, lesão ou transferência (ou cai uma chuva de dinheiro em Alvalade ou duas ou três figuras centrais terão que ser vendidas este mês) pura e simplesmente não funciona, como se viu na pré-época. Das restantes equipas, ou desponta um fenómeno improvável tipo Leicester, ou haverá três campeonatos: o dos primeiros, o dos últimos e o dos outros.

E pronto, que role o esférico!