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Martim Silva

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Diretor-Executivo

O videoárbitro não serve para nada

Martim Silva

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A primeira experiência em Portugal, mas ainda a brincar (ou seja, sem efeitos práticos no decorrer do jogo e só para ensaio) foi feita no último fim-de-semana, precisamente no jogo que deu o pontapé de saída na época de futebol, a Supertaça entre Benfica e Braga, e que permitiu aos encarnados conquistarem o primeiro troféu da época.

A simulação foi feita por Jorge Sousa, que a partir de uma cabine funcionava como árbitro alternativo, solicitando ao videoárbitro dúvidas em quatro situações concretas: penáltis, validação de golos, expulsões e identificação de jogadores. Quando o esquema estiver a decorrer em pleno, esse pedido de análise é feito diretamente pelo árbitro da partida.

A tecnologia, tantas vezes pedida e reclamada, não vai ser usada ainda no campeonato nacional, mas vai ter aplicação ainda este ano na final da Taça CTT (mais conhecida por Taça da Liga), bem como nos quartos de final, meias-finais e final da Taça de Portugal. Mas, mais dia menos dia, a ideia é que a tecnologia seja usada em todas as competições.

Sexta-feira começa mais um campeonato. É tempo de a bola rolar no relvado. E é, como sempre, tempo de começarem as polémicas com as arbitragens. Foi falta! Não foi nada! É penálti! Saltou para a piscina! Amarelo! Qual amarelo, expulsão! Ladrão! É o sistema! Etc, etc, etc.

Para quem segue minimamente o ‘fenómeno futebolístico lusitano’, tornou-se verdade universal que a utilização de novas tecnologias no futebol vai ajudar a que haja maior transparência, maior verdade desportiva e, no final de contas, menor polémica.

Errado. Falso. Mentira.
Passo a explicar.

Imagine o leitor um Sporting-Benfica (pode ser Porto-Sporting, Benfica-Porto ou outra combinação qualquer). A meio do jogo o árbitro tem dúvidas, será ou não penálti? Solicita a ajuda do videoárbitro. Passados uns segundos, e depois de ver as imagens de televisão do lance repetidamente, o vídeo-árbitro decide que afinal não é penálti. O jogo segue.

No mesmo dia, e nos dias que se seguem, esse mesmo lance será visto por imensos ‘videoárbitros’, em repetições sucessivas, nos programas desportivos na televisão. Eu pergunto: alguém acredita que os comentadores de um e outro clube alguma vez estarão de acordo em relação à decisão tomada na véspera? A resposta é fácil. Pois se já agora ao verem e reverem múltiplas vezes o mesmo lance chegam, invariavelmente, a conclusões opostas, por que raio é que com o recurso a um vídeo-árbitro no terreno, em direto, as polémicas cessariam?

Não, o que vai acontecer é outra coisa. É que em vez da suspeita estar toda em cima dos árbitros (e do sistema e dos dirigentes desportivos e dos delegados e dos conselhos de disciplina e arbitragem e outros que existam), a mesma suspeita estará agora sobre os ombros de uma nova entidade culpada de todos os males que fazem com que os clubes não cumpram o seu destino bíblico: ser campeão sempre, todos os anos, e quando tal não acontecer foi porque o mundo conspirou contra as nossas cores.

Que ninguém se engane, podemos pôr quantos videoárbitros quisermos para analisar penáltis e expulsões que as polémicas não vão terminar. Por uma razão simples: a polémica somos nós, está-nos no sangue, é o que faz vender jornais especializados e dá audiência aos programas da bola. Ou melhor, aos programas que se especializaram em falar das polémicas em vez de olharem para o jogo.

Videoárbitro! Bah. Se querem acabar com as polémicas o melhor é arranjarem outro país.