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Nicolau Santos

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Diretor-Adjunto

Os Jogos dos diplomas não foram assim tão maus

Nicolau Santos

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Terminaram os Jogos Olímpicos e a rapaziada que detesta atletismo, hipismo, natação, judo ou qualquer coisa que não seja futebol resolveu amuar e dizer que o Rio 2016 foi um fracasso para as cores nacionais. O Correio da Manhã, sempre atento ao Portugal cavernícola que existe em cada um de nós, vá de pespegar na primeira página que “Portugal pagou 17 milhões pela medalha de bronze”, “ Desilusão no Rio”, “Representação abaixo das expectativas” e por aí fora.

É sempre interessante reduzir o esforço de dezenas de atletas portuguesas (entre os 10.500 de todas as modalidades que estiveram presentes) à conquista de medalhas. Mas num país onde quase toda a gente só pratica desporto de bancada ou de sofá; onde o desporto escolar praticamente não existe; onde as condições de trabalho para os atletas de alta competição também sofreram severamente durante o programa de ajustamento (2011-2014, mas com sequelas que se continuam a verificar dois anos depois); onde os centros de alto rendimento são poucos; onde a capacidade de atrair treinadores internacionais de topo é reduzida e onde também os melhores técnicos nacionais são tentados por boas propostas vindas do estrangeiro – num país com este envolvimento desportivo a única conclusão que se pode tirar é que, apesar de tudo, os resultados foram muito satisfatórios.

É verdade que pódio só houve um, o bronze de Telma Monteiro (e mesmo assim o juiz que a puniu por falta de combatividade no combate que a podia levar a disputar a medalha de ouro pareceu claramente ter tomado uma decisão excessiva). Mas na canoagem (onde não éramos nada há dez anos) ficámos entre os seis primeiros em K2 (4º), K1 (5º) e K4 (6º). No trialto, João Pereira fez uma recuperação espetacular na última prova (atletismo) vindo do 37º lugar até ao 5º. No futebol, Sub-23, uma equipa montada à pressa e boicotada por todos (é ver, por exemplo, que Neymar pressionou o Barcelona para o deixar participar nos Jogos e o Brasil ganhou a medalha de ouro), acabou mesmo assim no quinto lugar. No ténis de mesa, Marcos Freitas também ficou entre os cinco melhores. Na marcha feminina, Ana Cabecinha esteve também muito bem e ficou num muito honroso 6º lugar. Nélson Évora, no triplo salto, foi o melhor europeu, conquistando a sexta posição. Também no triplo, mas feminino, Patrícia Mamona, ficou na mesma posição. No ciclismo Nélson Oliveira ficou em 7º. E mesmo Luciana Diniz alcançou um magnífico 9º lugar na prova de saltos de obstáculos individual, tendo feito um percurso limpo na segunda passagem.

Ok, é verdade que vivemos com saudades das vitórias de Carlos Lopes e de Rosa Mota na maratona ou de Fernanda Ribeiro nos 10 mil metros. Mas o nosso fundo e meio fundo tem vindo a afundar-se, desde que Moniz Pereira se afastou (e faleceu) e os seus mais diletos alunos foram treinar para outras paragens. Em contrapartida, passámos a ter esperanças em modalidades técnicas, coisa para o que não parecia termos aptidões especiais.

Digamos, pois, que estes foram os nossos Jogos dos diplomas olímpicos. Mas para a nossa tradicional desorganização, o reduzido apoio ao desporto de alta competição e os milhões de praticantes de desporto de sofá e de bancada que temos, o que é que queríamos mais?