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Nicolau Santos

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Diretor-Adjunto

E à terceira jornada, queixa-se o Porto e vai-se embora o Adrien

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Ora à segunda jornada foi o Benfica e à terceira é o FC Porto: os árbitros já os estão a roubar e ainda só foram disputados 9 pontos, quando faltam ainda 93! Desta vez, Casillas e Nuno Espírito Santo deram o mote: houve faltas (mão na bola) nos golos do Sporting. É lamentável que nenhum jornal desportivo lhes dê razão nem nenhum ex-árbitro que escreve em jornais concorde com eles. No aspeto disciplinar, aí sim, o FC Porto pode ter alguma razão de queixa, mas comparar as faltas dos jogadores do Sporting com as entradas assassinas dos jogadores do Roma, que levou a que jogassem 50 minutos com nove no play-off de acesso à Champions, é como comparar a obra-prima do mestre com a prima do mestre-de-obras – ou o Germano com o género humano.

Anotemos, portanto, para que conste que, à terceira jornada, o Benfica já vetou o árbitro Manuel Oliveira e o FC Porto acaba de exorcizar o árbitro Tiago Martins. Pelo andar da carruagem, na segunda volta não há árbitros portugueses para apitar o Benfica e o FC Porto. E anotemos também que aquela retórica segundo a qual é o Sporting que passa as épocas a fazer choradinhos contra os árbitros parece estar a ser violentamente desmentida neste início de época. Mas é claro que, tenho a certeza, lá chegará o nosso dia. Só espero que aí tenhamos razões muito fortes para criticar o homem do apito.

Dito isto, para além da vitória sobre o FC Porto e a liderança isolada à 3ª jornada, com o total de pontos possíveis, o que não acontecia há 40 anos, o Sporting perde o seu principal goleador (Slimani), a avaliar pelo choro convulsivo com que deixou o relvado; e, pelos vistos, pode vir a perder o seu capitão, Adrien Silva, pois este veio dizer que recebeu uma proposta interessante do Leicester (supostamente também o destino de Slimani) e que espera que, depois de tanta dedicação ao Sporting e de ter o clube no coração, o Sporting não lhe corte esta possibilidade.

Ora vamos lá por partes. Ao dar uma entrevista ao jornal O Jogo, onde revela a proposta, Adrien faz duas coisas (e nenhuma delas é bonita): pressiona o clube a ceder e baixa o preço a pagar por quem o quer contratar. O capitão do Sporting errou duplamente. Não deveria ter ido para a imprensa falar do assunto sem acordar o tema com o presidente Bruno de Carvalho – e ouvir o que este tinha para lhe dizer. E não deveria colocar as coisas no género “deixem-me sair mesmo que não seja paga a cláusula de rescisão”.

Acontece ainda que, de acordo com um comunicado do Sporting, o substancial aumento salarial que Adrien teve visava precisamente a sua continuidade no clube, até este ser campeão; e que Adrien estava consciente desse compromisso e o subscreveu.

É claro que ficar com um jogador contrariado no plantel é sempre mau: veja-se o que aconteceu com Carrillo. E não por acaso, no jogo contra o FC Porto Adrien exibiu-se uns furos abaixo do que costuma fazer, talvez porque já estivesse afetado emocionalmente pela proposta que recebeu. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, como diz aquela tautologia popular que não quer dizer nada. Há um contrato de trabalho que tem de ser respeitado e há uma cláusula de rescisão que tem de ser paga. Pagam a cláusula, levam o jogador. Não pagam, não levam.

Faz bem o presidente Bruno de Carvalho em não ceder à pressão de Adrien – que, como capitão, está a dar um péssimo exemplo aos seus colegas. Ser capitão é também ter um comportamento exemplar fora do campo. E Adrien, por mais que eu goste dele como jogador e como pessoa, não está a ter esse comportamento exemplar. Penso, pois, que deve raciocinar ao contrário: ficar até ao final da época, ser campeão e então dizer ao presidente para o libertar. Assim, consegue seguramente a boa vontade de Bruno de Carvalho. De outro modo, não. E os jogadores do Sporting já se deviam começar a habituar a que agora as regras de negociação de jogadores são outras e não sai quem quer ao preço que quer – porque o clube está primeiro e o presidente tem vindo a sublinhar isso todos os dias.