Tribuna Expresso

Perfil

Opinião

Nicolau Santos

Nicolau Santos

Diretor-Adjunto

É o engenheiro com o Moutinho e eu com o Keynes

Nicolau Santos

Partilhar

Depois do que vimos no Suíça-Portugal, chegamos a uma óbvia conclusão: o engenheiro Fernando Santos é um homem fiel. Fidelíssimo. Então não é que depois de tudo o que se passou no Europeu, o selecionador insiste em colocar o João Moutinho no onze inicial? E não é que, exatamente como aconteceu no Europeu, acaba sempre por substituí-lo na segunda parte? E não é que quem entra (no caso Quaresma) torna sempre a equipa bem melhor?

Logo, sabendo nós que Fernando Santos é um homem inteligente, só se pode entender esta fixação no Moutinho por amizade, uma grande, enorme amizade. E os amigos são fidelíssimos às amizades. Por isso, com Fernando Santos, a equipa de Portugal é sempre o Moutinho e mais dez. E mais nada!

Acontece que desta vez, contra a seleção de um país onde a vaca leiteira é uma instituição nacional (logo aí devíamos ter ficado de pé atrás, porque as vacas deles podiam ser melhores do que a do nosso engenheiro…), o selecionador nacional resolveu, já que não tinha Ronaldo nem Renato Sanches, tirar também o Quaresma e o João Mário. Ou seja, disse aos suíços: vejam lá se, ao menos contra a nossa equipa B, conseguem ganhar. E não é que conseguiram? Contra a equipa B ganharam 2-0. Contra a melhor equipa A de momento empataram 0-0, foram dominados e tiveram sorte naquela bola do Nani que foi ao poste.

Pois é. Não há volta a dar. Que bicho terá mordido o engenheiro para tirar o João Mário e o Quaresma e meter o Bernardo Silva e o Moutinho? É amigo do Alberto do Mónaco? Ou da Stéphanie? Tem conta num banco suíço? Gosta muito do chocolate helvético? Dos São Bernardos com um barril de chocolate quente ao pescoço?

Como seria de supor, foi o que se viu. Uma entrada dominadora, bola para aqui, bola para ali, mas como dizia aquele velho adepto do Belenenses quando o clube da Cruz de Cristo ainda jogava nas Salésias, “dribulam dribulam mas não marcam góis”. Ou seja, durante a primeira parte com os suíços, voltámos aquele futebol português muito rendilhado, muito rodriguinho, muito passe para trás, para o lado, para o outro lado, para trás, que leva um tipo a interrogar-se se aquela rapaziada sabe que o objetivo do jogo é meter a bola numa coisa chamada baliza (na do adversário, de preferência). Depois, os suíços marcaram dois de seguida e aquilo abanou tudo.

Vá lá, vá lá, que logo no início da segunda parte meteu o João Mário e o André Silva (mas em vez de ter tirado o William e o Éder devia era ter tirado o Moutinho e o Éder – será que ainda é necessário explicar que o Adrien, William e João Mário jogaram juntos duas épocas inteiras?) e quando finalmente tirou o Moutinho (haja Deus!), quem devia ter saído era o Bernardo Silva – e Portugal devia ter passado a jogar com o meio-campo do Sporting a apoiar o Nani, André Silva e Quaresma.

Mesmo assim, a partir daí só deu Portugal, tirando dois contra-ataques inevitáveis dos suíços, mas os rapazes da cruz branca sobre fundo vermelho acantonaram-se lá atrás e não mais voltaram a dar ideia de ser capazes de ganhar o que quer que fosse à melhor seleção que Portugal podia apresentar no dia (enfraquecida pelo facto de estar lá o Bernardo Silva em vez do William Carvalho).

Mas pronto, não há nada a fazer. O engenheiro é amicíssimo do Moutinho e há-de o colocar sempre a jogar desde que se consiga manter em pé. É o engenheiro com o Moutinho e eu com o Keynes. Mas enquanto o Keynes tinha excelentes ideias, a que volto com frequência, o Moutinho tem ideias que medem para aí não mais de dois metros. Mas Fernando Santos gosta. E amizade é dos sentimentos mais nobres do mundo.

Agora venham as perigosíssimas Andorra (7/10) – mas na nossa casa! – as Ilhas Faroé (10/10) – na casa deles. Já se sabe, engenheiro. É meter o Moutinho para dar cabo deles! E o André Gomes se estiver bom também! E o Bernardo Silva! Vai ver que conseguimos ganhar por um a zero e ficamos em ótima situação para no último jogo, em casa com a Suíça, nos apurarmos para o Mundial! E olhe, se não formos, já estou como o Eder: depois de termos ganho o Euro 2016, todos os que fizeram parte da equipa se tornaram imortais (Moutinho incluído)!