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Regresso à escola: professor? Treinador? Ambos!

Ana Bispo Ramires

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No meu trajeto na área da performance, acabei por ter o privilégio de me cruzar com um sem número de pessoas em contexto de sala de aula/formação (alunos ou formandos). Invariavelmente, em algum momento da minha intervenção, procurava saber quem tinham sido as pessoas que mais tinham inspirado os presentes na sala... pessoas que, de uma forma ou de outra, tinham deixado aquela “marca indelével” que transportamos para a vida.

Durante muitos anos, frequentemente, ouvi: “Pode ser um exemplo pela negativa?” Exemplos “negativos” que diziam respeito a professores, treinadores, gestores, líderes... enfim, pessoas que, de uma forma ou de outra, teriam como missão mostrar um caminho, apontar uma direção, fazerem-nos acreditar que “é possível” e que somos “um produto viável” (ou, por assim dizer, fazerem-nos acreditar que temos o que é necessário para alcançar as metas traçadas).

Felizmente, hoje em dia, fruto da inovação pedagógica e de uma maior consciencialização da importância das práticas positivas, a realidade é bem diferente e, frequentemente, abundam os exemplos positivos neste tipo de exercício.

Falemos, então, desses “supersseres”: os professores.

Desde sempre acreditei que a possibilidade de trabalhar com professores traria, como por magia, a possibilidade de “tocar” centenas de alunos (através do comportamento do professor) de uma só vez, pois, quando trabalhamos com o “maestro” (ou, no desporto, com o treinador) estamos, na realidade, a “interferir” positivamente com toda a sua “orquestra”.

A experiência (e os anos) trouxeram-me essa possibilidade e, em parceria com alguns professores, o transfer das aprendizagens entre contextos de performance (desporto e escola), foi-se tornando cada vez mais intuitivo.

Alguns dos exemplos mais óbvios de skills partillhados entre treinadores e professores, poderiam ser (entre tantos outros):

- Prazer em partilhar/comunicar o conhecimento com outros

- Ser confiante

- Possuir competências elevadas de planeamento e organização

- Trabalhar de forma eficiente com grupos

- Gerir eficazmente conflitos

- Ser capaz de motivar os outros para a aprendizagem e superação

- Possuir skills de empatia

- Ser capaz de dar feedback em "tempo real"

(Até parece fácil, certo? Imagine fazê-lo com 4h de sono ou ao final de cinco turmas!...)

Paradoxalmente, apesar deste tipo de competências ser reconhecidamente associada a comportamentos de sucesso, por parte de professores e/ou treinadores, ainda assim, a percentagem de horas que são atribuídas ao treino deste tipo de skills, naquele que é o percurso formativo deste tipo de profissionais, é francamente diminuta (quando comparada com a aprendizagem de skills técnicos).

Então, se as chamadas "soft skills" (que acabámos de enunciar), são apontadas na literatura científica como fator determinante para o sucesso (alguns estudos apontam para um “peso” de cerca de 80%!) e, diria até, para a saúde mental e bem estar, se o seu “TREINO” não se efetiva no percurso formativo, como atuar?

Bom, a expressão usada, no que respeita aos professores, de “supersseres” não transporta nenhum tipo de ironia, antes ADMIRAÇÃO...

Getty

ADMIRAÇÃO por uma classe profissional que, maioritariamente, não possui as melhores condições para “competir” mas, que ainda assim, pode desempenhar (e desempenha) um papel fundamental na preparação das próximas gerações.

Sabemos que as condições nem sempre são as melhores, a precariedade de trabalho é uma ameaça, a pouca mobilização dos alunos para a aprendizagem e a sua deficiente capacidade de resistência à frustração, são uma realidade... Enfim, um sem número de “obstáculos”.

Contudo, neste mesmo enquadramento, às vezes, mesmo nas condições mais desfavorecidas, encontramos professores “envolvidos e envolventes”, geradores de motivação, alavancas de confiança... e sim, são normalmente, estes que aparecem retratados quando coloco a questão, no dito exercício, de “quem mais vos inspirou?”

Diz-me a experiência que a sua existência mostra a possibilidade de mudarmos um pouco o atual paradigma, assumindo o professor o papel de “treinador” em sala de aula... desafiando, empatizando, reforçando confiança, gerando compromisso, modelando comportamentos, que o ajudam a conquistar um lugar na memória dos seus “pupilos”.

Curiosamente, a sua forma de atuar, o exercício das suas competências, resulta de um longo PROCESSO de TREINO (muitas vezes, inconsciente e involuntário - quase “mágico”), que vão atuando (ou “escolhendo” atuar) no seu quotidiano.

Processo de TREINO este que, cada um de nós, pode ESCOLHER VOLUNTARIAMENTE ativar... e, às vezes, não precisamos de “ativar o complicómetro”... Basta fazer um pequeno exercício e "visitar" os “supersseres” que estão na nossa memória... E, diariamente, usá-los como inspiração das nossas ações.

Designo-os de “supersseres” porque transformam, transformando-se, porque são curiosos no processo de mudança (seu e do outro), porque se focam nos pequenos nadas que controlam e que, repentinamente, se transformam em grandes mudanças. “Supersseres” porque, acima de tudo, nos inspiram através do exemplo, a procurar respostas, a focar soluções, a buscar novo e mais atualizado conhecimento, a não desistir de quem já desistiu e a acreditar em capacidades que nem sabemos que possuímos.

“Supersseres” porque mostram que, apesar de tudo, é possível!

Já agora... Quem foi o seu “supersser”?

Be the change that you wish to see in the world.” ― Mahatma Gandhi