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O lado “invisível” da performance de um atleta: o papel dos pais

Ana Bispo Ramires

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O papel das famílias no desempenho dos atletas de alta performance é um tema comummente abordado pela Psicologia do Desporto (uma área mais específica da Psicologia da Performance e, de uma forma generalista, de onde esta emerge), em contexto internacional.

Com alguma regularidade, os psicólogos a intervir no desporto não ajudam apenas os atletas pois, em alguns casos, estendem os seus serviços às famílias dos seus clientes, no sentido de ajudar a encontrar a “dinâmica familiar mais propícia a um setting de superação.

O principal desafio é encontrar qual o nível ótimo de envolvimento, para além do apoio financeiro e logístico (se calhar, um dos principais motores da evolução do desporto em si!), no que respeita a suporte emocional, perante um percurso de elevadíssimo investimento no que respeita à otimização da performance em treino e competição.

Neste enquadramento, e assumindo-se como uma das principais alavancas da participação (bem sucedida) dos jovens em contexto desportivo, os Encarregados de Educação, devem estar perfeitamente integrados no fenómeno desportivo, até porque, muitas vezes, dedicam-se quase em exclusivo (abdicando de muitos dos seus próprios projetos pessoais) ao “sonho” desportivo do seu filho(a).

Demasiadas vezes se fala no papel negativo que alguns pais atuam no percurso desportivo dos seus filhos, contribuindo como fonte de desmobilização e perturbação da performance dos mesmos. Neste âmbito, a literatura científica tem identificado diferentes formas de pressão que, atuadas voluntariamente ou involuntariamente (sem intenção), acabam por conduzir ao sub-rendimento ou abandono precoce.

Demasiadas vezes porque, à semelhança de outras situações que poderão impactar negativamente a performance dos jovens atletas, aponta-se o “erro” mas não as soluções.

E que soluções?

JIM WATSON/Getty

Salvo alguns trabalhos que vão sendo desenvolvidos esporadicamente nos contextos que acolhem profissionais da psicologia do desporto e/ou comunicações que são apresentadas em congresso por estes mesmos profissionais ou, ainda, temáticas abordadas em cursos dirigidos para treinadores (sobre como interagir com pais e encarregados de educação), julgo não ser desajustado dizer não haver uma “proposta formativa” sistematizada para pais/encarregados de educação que queiram participar positivamente no processo desportivo dos seus filhos/educandos.

Tal como a intervenção do treinador, a intervenção dos pais/encarregados de educação, junto de um atleta, resultará em impactos positivos ou negativos, na estruturação da sua identidade como atleta mas, antes de mais, como pessoa.

Diversos estudos que procuraram analisar as fontes de prazer associadas à pratica desportiva (ex: McCarthy, Jones and Clark-Carter, 2008) apontam para o envolvimento parental positivo (associado à elevação da autoestima, motivação e competências sociais, e respetivo transfer para outras áreas de vida), como um dos fatores mais reportados pelos jovens atletas.

Naturalmente que o inverso é igualmente verdadeiro, no que respeita a uma das principais fontes de dropout ser o envolvimento parental negativo.

O envolvimento parental é, desta forma, determinante, não só para a construção da identidade do atleta mas, acima de tudo, da pessoa podendo, o contexto desportivo, ser “usado” como um fortíssimo aliado no processo educativo que os pais/encarregados de educação concebem para os seus educandos.

Na ausência de uma oferta formativa, especificamente direcionada para pais de atletas, algumas orientações podem ser dadas:

- Coloque o FOCO no PRAZER, pergunte-lhe o que o divertiu mais no treino/jogo;

- COMEMORE o ESFORÇO e não o resultado;

- Ajude o seu filho a identificar as competências que está a adquirir com a prática desportiva, pois potenciará auto-confiança na medida em que estará a associar ESFORÇO a um GANHO específico de COMPETÊNCIA, facilitando a transferência deste processo para outras áreas de vida (ex: escola);

- Recorde-se, é do sonho do seu filho que se trata, não do seu...

Por último, e por incrível que possa parecer, as crianças/jovens são SUPER RESILIENTES e, em contextos normais de treino/competição, é natural (e desejável!) que haja FRUSTRAÇÃO, DESÂNIMO E DECEÇÃO...

Não caia, por isso, na “tentação” de os “salvar” demasiado rápido destes estados emocionais (retirando-os do desporto onde estão, assim que eles o solicitem, por exemplo)... Afinal, são "só" emoções, como tantas outras e, o CONTEXTO DESPORTIVO é o CONTEXTO por EXCELÊNCIA para APRENDER a TRANSFORMÁ-LAS em ALAVANCAS e DESAFIO!

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e vida, de uma forma geral).