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Um dia, o tempo de Ronaldo chegará ao fim. É aceitar

Pedro Candeias

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Andamos a ver isto ao contrário.

O que interessa não é o amuo, a cara de mau, o lábio franzido, o “filho da mãe” (e outros insultos), e a linguagem de Ronaldo ao ser substituído por Zidane contra o Las Palmas. Bem vistos os 50 segundos que demorou a sair de campo, de olhos no chão a falar com os botões do colarinho, não há ali nada de novo: não é a primeira vez que vemos Ronaldo disparatar com treinadores, mas também com colegas e adversários, como Edimar, o brasileiro do Bétis a quem deu um soco. E se o problema é a linguagem, então, bom, façamos um ato de contrição pelas ocasiões em que revimos o discurso motivacional a Moutinho nos penáltis contra a Polónia, orgulhosos da portugalidade do capitão da seleção.

Ronaldo nunca gostará de ser trocado por outro e nunca aceitará que outro marque o golo que era dele, tal como nunca compreenderá que outro marque mais golos do que ele enquanto estiver a fazer tudo para estar bem, no sítio certo e à hora certa.

Só que o problema de Ronaldo (e é isto que interessa) é não admitir que, por mais que se sigam as dicas dos livros e das curas anti-envelhecimento à risca, a corrida contra o tempo está perdida a partir do momento em que se nasce. Ninguém é imortal. E ninguém consegue estar sempre a jogar futebol até aos quarenta e tal anos num grande clube, ainda por cima no maior clube do planeta.

Ronaldo, como tipo inteligente que é, foi gerindo o corpo e o seu futebol à medida da ambição. Começou como extremo puro, transformou-se num avançado, agora há quem espere que ele acabe como ponta de lança, sobretudo na seleção nacional.

Nesta metamorfose estilística e física, ganhou massa muscular e perdeu velocidade e ginga, mas manteve um registo impressionante de golos que lhe permite estar consecutivamente no topo da cadeia alimentar há vários anos – ainda que não seja o mesmo jogador de há anos.

Sacrificou-se, jogou magoado quando não precisava – em Espanha, há jogos que parecem jogos-treino – em nome da Bola de Ouro. Para termos noção, de 2010 para cá, Ronaldo jogou 91%, 94,5%, 86%, 92% e 92% dos minutos disputados pelo Real Madrid. Em média, Ronaldo esteve em campo 92% do tempo em que o Real Madrid esteve em campo, como se fosse um guarda-redes.

Com 31 anos (32 em fevereiro), um joelho a precisar de gelo e uma agenda em overbooking, mais cedo ou mais tarde, a chatice da “rotação do plantel” iria apanhá-lo.

Num jogo em que o timing é tudo, faz parte perceber que há um tempo para tudo - e que o tempo dele chegará ao fim um dia.

Aceitá-lo e geri-lo com graciosidade e alguma graça, depende dele.