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Psicologia do Desporto? Coaching? Mental Coach? Motivador? Ui... Que grande confusão!

Ana Bispo Ramires

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Este tema não é novo e, internacionalmente, é desde há muito debatido no sentido de, não só proteger os profissionais que dedicam anos da sua vida em termos de busca de uma especialização mas, ainda mais importante, no sentido de proteger potenciais clientes destas áreas em particular, no sentido de possuírem a informação certa para a escolha do melhor profissional, para o seu caso específico.

Este artigo mais não é do que uma reflexão individual, com o intuito de tentar ajudar a trazer alguma clareza ao assunto (aliás, tentativas como esta abundam em qualquer simples pesquisa que se faça na internet).

Ponto 1. Definição de Psicologia do Desporto

A American Psychology Association (APA) criou, por volta de 1983, a Divisão 47 (Sociedade de Desporto, Exercício e Performance Psicologia) onde reúne psicólogos, bem como outros profissionais na área do exercício e do desporto, interessados em investigação, ensino e prestação de serviço nesta área.

Em 2003, foram aprovados os requisitos mínimos para garantir a proficiência necessária para possuir uma especialização em psicologia do desporto, tornando esta área um campo de aplicação distinto. Para o efeito, seria necessário o equivalente a um doutoramento numa das principais áreas de psicologia e estudos pós-graduados em psicologia do desporto. Adicionalmente a este conhecimento base, era fortemente recomendado conhecimentos específicos em áreas tão distintas como: princípios e práticas da psicologia do desporto aplicada, incluindo as questões e técnicas de avaliação psicológica específica do desporto e competências mentais a serem treinadas para a melhoria de desempenho e satisfação com a participação, questões clínicas e de aconselhamento com os atletas, aspectos organizacionais e sistémicas da consultoria em desporto, entre outros.

Em Portugal, a Ordem dos Psicólogos definiu recentemente um conjunto de critérios para ser atribuída a "especialidade", igualmente relacionados com a formação académica e experiência dos profissionais.

Ponto 2. O Psicólogo pode ser Coach. O Coach não pode ser Psicólogo.

Este ponto é de fácil compreensão, na medida em que a Psicologia é uma ciência aplicada, enquanto que o coaching é uma "ferramenta" ou um tipo de metodologia estratégica - como o é, aliás, a programação neurolinguistica (desenvolvida por John Grinder e Richard Blander - que, entretanto, já "evoluiu" esta técnica para o "neuro-hipnothic repatterning", que tive oportunidade de conhecer, em 2009, com o próprio), o "coaching for performance", através da metodologia do GROW (desenvolvido pelo Sir John Whitmore), a hipnose eriksoniana ou a EMDR de Francine Shapiro, entre tantas outras.

Fazendo uma analogia básica, de um lado temos um "jardineiro", do outro lado temos uma, de entre tantas, "ferramentas de jardinagem"... até porque, a própria área do coaching se foi "micro-especializando", dadas as características inequívocas da especificidade de intervenção em contextos distintos, surgindo, por isso, o Life Coaching, o Business Coaching, Wellness Coaching, Sport Coaching... entre muitas mais.

Dito isto: o tipo de metodologia a ser utilizada deve ser ajustado ao perfil do cliente e o coaching pode não ser o mais adequado para determinado tipo de perfis... aliás, esta pode até ser uma das razões associadas aos casos de insucesso nesta área especifica (o não adequamento entre a pessoa e a metodologia usada).

Teoricamente, o psicólogo deve possuir competências para fazer uma boa avaliação inicial, para decidir a metodologia a ser empregue (assegurando a implementação da mesma ou, se não possuir conhecimentos, encaminhando para especialista que domine a metodologia em questão).

Ponto 3. Como distinguir?

Apesar de serem comunmente enumerados um conjunto de diferenças distintas entre Coaching e Psicologia, maioritariamente, as razões apresentadas não são totalmente verdadeiras.

Exloremos apenas uma a título de exemplo (e para não tornar este artigo demasiado extenso): a psicologia, de uma perspetiva geral, encontra-se associada a pessoas com patologia e o coaching a pessoas saudáveis... ora bem, se o Coach não possuir formação em psicologia (e pode ter...)... como identifica a presença ou não de patologia num sujeito? Como saber se a estratégia que está a desenvolver está a reforçar o lado patológico ou o lado saudável do sujeito?

O Coaching "apresentou-se" em Portugal (à semelhança de outros países) como um produto de uma forte campanha de marketing/comercial que, do meu ponto de vista, infelizmente não existe na psicologia (quanto mais no fosse, de um ponto de vista meramente info-pedagógico, no que respeita à sua potencialidade para treino de skills específicos).

A falta de regulamentação, a pouca clareza que existe na formação de Coaching (temos desde cursos de 40h a cursos de 500h... e, todos eles no final, "produzem Coach's"... ou, assim o dizem..), tem gerado desconfiança geral e, por mim falo, muito em particular na classe dos psicólogos que vê o mercado ser inundado por "profissionais" que atuam na sua área de intervenção (à qual dedicaram muitas vezes, 10 ou 15 anos de estudo/especialização).

Vítimas desta etapa (inicial) de afirmação da área e desta falta de regulamentação/enquadramento são, também, muitos bons Coaches que têm vindo a desenvolver excelente e reconhecido trabalho na área do desenvolvimento de competências (sim, também os há!), fruto de anos e anos de um cada vez maior nível de aprofundamento em competências específicas.

Ponto 4. E os Outros? Motivadores... e afins...

Bom, sem querer levantar muita (mas necessária) polémica.. enquanto Psicologia e Coaching, se vão "degladiando", "outros"... sem formação específica, sem experiência comprovada mas com claríssimas competências de auto-promoção, acabam por cair de pára-quedas nos diferentes contextos de performance (desporto, empresas, artes...)...

Lamentavelmente, aqui também se inserem, e no caso particular do trabalho em performance, algumas pessoas licenciadas em Psicologia que, mesmo com ausência de especialização e/ou experiência, seja por conhecimento no local, por sorte ou porque são ex-atletas de uma modalidade em particular, acabam por aterrar neste contexto tão específico, causando tantos estragos como todos os "outros"... e fechando portas a quem pode efetivamente fazer a diferença.

Ponto 5. Conclusão.

Erradamente, do meu ponto de vista, o coaching tem tentado afirmar a sua identidade contrapondo-se à Psicologia... ao invés de, "trabalhando em equipa" com a mesma (algo que, curiosamente, por vezes têm que ensinar aos seus coachee's), aparecer como um campo de trabalho complementar, podendo fazer parcerias estratégicas com os psicólogos, no sentido de melhor servir clientes comuns.

De forma igualmente errada, a Psicologia (no caso, aplicada ao desporto/performance) tem-se deixado arrastar para esta luta, perdendo "noção de si" enquanto ciência aplicada, deixando-se "instrumentalizar" ao tentar "competir" com uma metodologia estratégica: o Coaching.

Não creio que a questão seja entre Coaching ou Psicologia. Conheço bons Coaches e bons Psicólogos, conheço maus coaches e maus psicólogos.

Trata-se, acima de tudo, de bons e maus profissionais... de pessoas eticamente bem ou mal formadas... de usar a profissão para "servir" o cliente da melhor forma... ou para "se servir" da melhor forma... Sabermos, claramente, os limites da nossa intervenção.

Trata-se, a meu ver, de dar resposta à seguinte questão:

Quero trabalhar em alto rendimento? Quero trabalhar com Atletas/Treinadores (e outros agentes desportivos)?

Então, também eu tenho que ser um "atleta de alto rendimento", procurando especialização aprofundada e continua, fazendo evoluir as minhas competências técnicas e relacionais e, acima de tudo, questionando sempre as razões que me levam a estar "ali", a fazer aquela escolha: É por mim ou pelo outro?

É que, esta é uma profissão "sem montra", sem reconhecimento imediato (às vezes, sem qualquer tipo de reconhecimento mesmo) e de quase "invisibilidade" e, a partir do momento em que a usamos para auto-promoção deixamos, de imediato, de "servir o cliente" para nos servirmos a nós próprios...

Por último, e porque os nossos clientes (sim, estou a falar de si...) são pessoas cognitivamente diferenciadas e com livre arbítrio, aqui fica uma última recomendação;

Seja exigente consigo mesmo, faça uma escolha informada, questione o curriculum e a experiência do profissional que tem à sua frente (faça uma primeira sessão com 2 ou 3 inicialmente) e faça a melhor escolha... esta é, também, a SUA RESPONSABILIDADE!

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e Vida, de uma forma geral).