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Nicolau Santos

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Fernando Santos e a lição das ilhas

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Não era expectável que Portugal perdesse pontos nas Ilhas Faroé na sua caminhada para o Mundial 2018. Mas também ninguém esperaria que, fora de casa, a seleção nacional aplicasse de novo a chapa 6 com que tinha brindado Andorra em Aveiro. Foi uma exibição sólida, que teve momentos brilhantes e alguns jogadores em grande evidência: André Silva, João Mário, André Gomes, João Cancelo, William Carvalho, Gelson Martins. E também mais uma vez se impõe a ilação: neste momento, Moutinho não tem lugar nesta seleção (apesar de até ter marcado um bom golo). Será que o selecionador já reconhece isso?

Contra Andorra, Fernando Santos insistiu no seu jogador fetiche João Moutinho. E Moutinho fez o costume: empastelou o jogo. Bolinha para aqui, bolinha para acoli, mas romper, entrar na defesa adversária, criar situações de rutura, zero. E é assim já há demasiado tempo para Fernando Santos lhe continuar a dar a oportunidade de iniciar os jogos da selecção nacional.

É verdade que contra Andorra, Portugal não precisava de um trinco como William Carvalho. Mas também não precisava de um Moutinho para nada. Só atrapalhou, enredou, fez o jogo da seleção perder fluidez e capacidade de criar perigo. Portugal ganhou por seis a Andorra, não por causa de Moutinho mas apesar de Moutinho – que ficou em campo até ao fim.

Ao contrário, ontem à noite nas Ilhas Faroé, viu-se o melhor meio-campo português, com William Carvalho imperial a travar os tímidos ataques dos feroenses, e João Mário e André Gomes a criarem sucessivas situações de perigo passíveis de concretização para André Silva (em noite mágica) e Cristiano Ronaldo (que marcou um golão). No primeiro da noite e no de Ronaldo, a assistência foi de João Mário. Quantas assistências fez Moutinho nos últimos jogos da seleção?

FRANCISCO LEONG/getty

Esperemos, pois, que Fernando Santos desista definitivamente de tentar encaixar Moutinho num puzzle onde ele surge sempre como a pedra de outro jogo. Mas o facto de ter entrado aos 81 minutos prova que Fernando Santos ainda não deu o braço a torcer. Na atualidade, o meio-campo de Portugal é de quatro destes cinco jogadores: Adrien (que está lesionado), William, João Mário, André Gomes e Renato Sanches (e ainda há Bernardo Silva). Moutinho é pior que todos eles. Não dá mais à equipa do que qualquer deles. Porquê a insistência? Para agradecer trabalhos prestados no passado? Por amizade com o selecionador? Porquê?

Saudemos, entretanto, três apostas de Fernando Santos: João Cancelo, que se está a revelar um excelente defesa direito, bom a defender e rapidíssimo a atacar, com grande propensão para marcar golos (ontem marcou um e possibilitou outro a André Silva, em recarga a um potente remate seu); André Silva, que tem todas as possibilidades de se afirmar como o futuro goleador da seleção portuguesa, provando ontem o seu indiscutível faro para o golo e o sabedoria de estar no sítio certo à hora certa (vamos ficar eternamente agradecidos a Eder, mas André Silva é muito mais letal); e Quaresma, que continua a ser um enorme jogador, com capacidade para desequilibrar qualquer defesa e fazer assistências decisivas para golos e que Fernando Santos foi resgatar ao ostracismo a que tinha sido votado por Paulo Bento (que também tinha um fetiche com João Moutinho).

Quem ainda não é uma aposta firme mas, de cada vez que é chamado, mostra a sua enormíssima utilidade, é Gelson Martins. Ontem entrou aos 69 minutos e fez duas assistências para dois golos: uma para João Moutinho e outra, sensacional, para João Cancelo, além de ter feito uma outra para André Silva, que o guarda-redes Nielsen defendeu in extremis. Gelson traz um grau de imprevisibilidade e de explosão à seleção portuguesa que ela não tinha até agora. É isso que a seleção precisa. Essa imprevisibilidade, essa explosão, que não pode vir só de Ronaldo e que agora começa a ser garantida por André Silva, João Mário, João Cancelo, Gelson Martins. Por Moutinho é que não.

Uma última nota para dizer que este apuramento está muito longe de estar garantido. A Suíça já ganhou na Hungria e Portugal teve enormes dificuldades para empatar com a Hungria (3-3) no último Europeu. Logo, pensarmos que tudo se resolverá no último jogo em Lisboa contra a Suíça não é correcto. Até lá, vamos ter de fazer pela vida, ou seja, ganhar todos os jogos até esse. Porque a Suíça não dá mostras de estar disposta a facilitar, já nos ganhou por 2-0 (e Portugal só se tornou verdadeiramente perigoso quando saiu Moutinho e entrou Quaresma, mas só a meio da segunda parte) e só passa diretamente o primeiro classificado do grupo.