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Lições do desporto: Guardiola proíbe internet no Manchester City

Ana Bispo Ramires

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No início desta semana surgiu uma notícia, no mínimo, curiosa, na imprensa internacional. Pep Guardiola, com o intuito de reforçar a comunicação "frente-a-frente" e o espírito de equipa, lançou um conjunto de medidas para promover maior aproximação entre os seus atletas e, para isso, solicitou que em determinadas áreas específicas do clube fosse bloqueado o acesso à internet.

Na realidade, se pararmos um pouco para analisar, a atual população de atletas pertence àquilo que alguns autores (ex: Strauss & Hove, 2000) designam como GERAÇÃO MILÉNIO. A maioria dos investigadores e demógrafos, identifica esta geração a partir do ano de nascimento de 1980 até 2000 e, por esta razão, uma elevadíssima percentagem dos grandes nomes do desporto, pertencem efetivamente a esta geração.

Sabendo antecipadamente que o desenvolvimento de um atleta não ocorre da mesma forma que um individuo não atleta - muitos autores consideram os atletas mais evoluídos do ponto de vista de competências como resistência à frustração, motivação, capacidade de sacrifício, tomada de decisão, entre outras... Contudo, inversamente menos hábeis em competências sociais ou maturidade emocional - ainda assim, naturalmente que, estando expostos aos mesmos estímulos que outros indivíduos também nascidos dentro desta "geração milénio", acabam por partilhar com eles muitas características.

A propósito deste artigo, iremos debruçar-nos apenas sobre alguns traços desta "geração milénio".

Na realidade, estamos perante uma geração que, comparativamente a todas as outras, mais acesso teve à educação (algo que facilmente se observa quando se anda no terreno, pois enquanto que há mais ou menos 20 anos, e a título de mero exemplo, um atleta no seu último ano de juniores em futebol, se tivesse o 9º ano de escolaridade seria já um caso de sucesso - hoje em dia, estão muitas vezes a acabar o 12º ano e a entrar para a Universidade), logo, é mais diferenciada cognitivamente e que, tendo nascido na “era digital”, é claramente mais evoluída em termos tecnológicos, fundamentando, muitas vezes, as suas relações, com recurso a este tipo de ferramentas.

Facebook, Instagram e outros acabam por substituir as histórias que se contam horas a fio numa mesa de café... Messenger, Whatsapp e outros substituem um telefonema ou um encontro pontual para “saber das novidades”.

São, por isso, a geração mais digitalmente conectada mas, curiosamente, também a que se encontra, muitas vezes, emocionalmente menos habilitada e mais isolada.

Ferramentas digitais criam uma “realidade virtual” de que temos muitos “amigos”/conhecidos mas, lentamente (e naturalmente) vão delapidando a nossa confiança em saber estar com o outro e em criar relações de entre-ajuda, cooperação e confiança no outro e, mais grave ainda, vão comprometendo, acima de tudo, a nossa capacidade de EMPATIZAR, atendendo a que as relações se vão estabelecendo com um “espelho” que é um qualquer “ecrã” e não o rosto de uma pessoa.

Ou seja, QI (inteligência cognitiva) a subir e QE (inteligência emocional) a descer!

É que, numa qualquer interação desagradável... o recurso ao “delete” ou ao “unfriend” ou ao “block” resolve o assunto muito mais rapidamente... do que ter que “levar” com um humano que teima em contra-argumentar e só se vai embora quando bem lhe apetecer!

Mas sim, nem tudo é mau e a era digital e as ferramentas em questão SE BEM UTILIZADAS (e sim, há muitas pessoas que o sabem fazer), podem ser uma fortíssima alavanca de crescimento e diferenciação. O problema reside em que, na maioria das situações, esta não é a realidade e, muito frequentemente, as pessoas acabam por ficar “reféns” da sua “vida digital”.

CHRISTOF STACHE/Getty

Mas voltemos ao Guardiola (sim, porque teríamos muito por onde ir, a partir deste tema): afinal, o que pretende este treinador?

É curioso que, num dos relatos acerca deste tema, um dos entrevistados (claramente admirador dos métodos deste treinador) refere-se a uma das estratégias dizendo: “Ele FORÇA-NOS a TOMAR O PEQUENO ALMOÇO e a ALMOÇAR JUNTOS no clube".

Não, na realidade ele não “força”... da mesma forma que não “pune” ao retirar o acesso à internet em determinadas zonas do centro de estágio.

Na realidade, ele CRIA CONDIÇÕES de TREINO, para que os SKILLS que sente que estejam em DÉFICE possam ser trabalhados, elevando-os para um patamar diferente.

O que este treinador faz é, questionando a “ordem natural das coisas” que tem à sua volta, jogar com todos os elementos para fazer o seu grupo melhorar em termos da qualidade das interações interpessoais e da própria dinâmica de grupo (e, consequentemente, em termos de desempenho!).

É uma realidade: o contexto “lá fora” treina os nossos atletas (ou, já agora, os seus colaboradores... ou, os seus filhos...) num conjunto de skills cognitivos muito importantes. Por isso, fica aqui o seu desafio da semana:

“Aí dentro” (do clube, da empresa, da sua família), o que pode fazer para, à semelhança de Guardiola, potenciar os skills socio-emocionais dos demais?

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e Vida, de uma forma geral).