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Encontrar o atleta que há em cada um de nós

Ana Bispo Ramires

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O contexto do desporto de alto rendimento tem sido, desde sempre, um fantástico laboratório de estudo e treino de mental skills para o sucesso.

Tratando-se de um setting onde a intensidade se vive um (ou alguns!) nível(eis) acima do que é comunmente experienciado no quotidiano tradicional, acaba por se transformar num curioso espelho da manifestação dos padrões de funcionalidade ou disfuncionalidade de quem por lá anda - estamos a falar, no caso, na exibição de comportamentos que nos aproximam do sucesso... ou do insucesso.

Neste enquadramento, a Psicologia do Desporto tem-se dedicado, ao longo de décadas, a tentar isolar os fatores psico-emocionais associados ao sucesso desportivo. Para o efeito, tem estudado exaustivamente, treinadores, atletas e outros performers com indiscutível sucesso, por forma a aferir que fatores os diferenciam dos demais.

Os casos excecionais, parecem espelhar uma “fórmula mágica” de Talento e Trabalho: por outras palavras, atletas que, para além de serem (quase) fisiologicamente pré-determinados para a prática de uma dada modalidade, acabam por desenvolver os skills psico-emocionais necessários (gestão de stress, concentração, motivação, resistência à frustração, planeamento e antecipação, entre outros), através das longas horas de exposição a treino, treino e mais treino!

Globalmente, os inúmeros estudos que têm sido produzidos, apontam para skills mais ou menos abrangentes (ex: motivação) sendo que, por vezes, tentam identificar competências mais específicas (ex: capacidade de estabelecer objetivos de desempenho, tais como "recuperar x bolas").

A título de exemplo, aqui vão alguns:

Estabelecimento de objetivos: capacidade de estabelecer objetivos a longo, médio e curto-prazo (desde a big picture à ação imediata).

Motivação: capacidade de persistir face à adversidade quando pretendemos alcançar um objetivo, aumentando os níveis de prazer e desafio.

Concentração: capacidade em dirigir o foco para o estímulo/a ação certo(a) (que conduzirá ao sucesso), abstraíndo-se de distrações (internas e externas), permanecendo focado(a) enquanto se encontra em performance.

Imagética: capacidade de utilizar a visualização mental como forma de melhorar performance e, consequentemente, a confiança, aprendendo a criar os seus próprios scripts para potenciar desempenho em contextos específicos.

Competir no estado emocional “certo”: capacidade de gerir os diferentes estados de ativação e o seu impacto na performance desejada; capacidade de identificar e treinar as estratégias que irão ativar o “estado emocional certo” para a melhor performance possível.

Rotinas competitivas: capacidade em identificar as rotinas pré-competitivas necessárias a uma performance de excelência (ex: ciclos de repouso, planos de alimentação pré-competitiva e outras ações preparatórias)

Bom, poderíamos citar muitas mais mas... foquemos a nossa atenção apenas nestas...

Será que são específicas de Atletas? Treinadores? Bailarinos? Músicos?

São certamente mas, curiosamente, fazem parte da “caixa de ferramentas” de cada um de nós!

Acontece que, para um qualquer performer, a noção de TREINO é algo que se encontra ENRAIZADA desde tenra idade e, para o cidadão comum (entenda-se, para o efeito, alguém que não é sujeito a um processo de treino sistematizado e continuado) essa não é a realidade...

O que, até é uma perceção errada pois, o que é a Escola, senão um veículo (e contexto) de TREINO de SKILLS COGNITIVOS e PSICO-SOCIAIS?

Na realidade, todos beneficiaríamos se decidíssemos IMPORTAR a NOÇÃO de TREINO para o nosso quotidiano: de skills cognitivos, parentais, profissionais, sociais... Até porque, se assim quisermos, todos os contextos em que nos movimentamos são passiveis de se transformarem em contextos de TREINO e SUPERAÇÃO...

Porque razão “apenas” os atletas (e outros performers) se devem preocupar em otimizar competências como as que foram anteriormente enunciadas?

Pois, por razão nenhuma! Até porque, a investigação produzida na área da Psicologia da Performance tem, sobejamente, demonstrado que todos estes processos de treino (e benefícios associados) são perfeitamente transferíveis para outros contextos de desempenho: Profissional, Artístico, Académico... enfim, de Vida!

E, então, sente a sua curiosidade a aumentar? O que poderia suceder se, de repente, conseguisse dirigir a sua atenção, a sua motivação.. para “aquele” objetivo especifico de Vida que, se calhar, está à tanto tempo na gaveta...

Que tal “acordar” o Atleta que há em si?

Escolher um caminho de Superação está ao alcance de todos e não só de alguns...

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e Vida, de uma forma geral).