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Acreditem em mim, não há corrida como esta

Vitórias disputadas ao segundo, lamaçais intransponíveis, troços anulados e edições em que só 10% dos concorrentes chegaram ao fim… Eis a minha história sobre a histórica Baja de Portalegre

Rui Cardoso

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Em 29 edições desta prova de todo-o-terreno houve as mais diversas e extraordinárias peripécias que a tornaram famosa até fora de Portugal. Logo no primeiro ano (1987), apesar de a prova ter sido disputada em Junho, havia lamaçais portentosos. Pedro Cortez num UMM V6 ficou preso num longos minutos, os suficientes para António Baiona, que conseguiu passar ao lado do obstáculo, chegar à frente em Mitsubishi.

O cenário repetiu-se no ano seguinte, novamente Verão e novamente lama com fartura. Pela primeira vez um UMM a gasóleo, guiado por Tucha, vencia a corrida. Foi neste ano que me estreei como pendura do meu saudoso amigo Rui Santos, infelizmente desaparecido o ano passado. Fomos num VW protótipo que chegou mais leve ao fim pois foi largando metade das peças (incluindo as rodas) pelo caminho. Nessa corrida ainda havia de tudo: Meharis, 2 CV (um até com dois motores), “Saabs marrecos”, etc.

1989 foi o famoso ano do dilúvio: o final do troço estava intransponível e só dúzia e meia de carros chegou a Portalegre. Lembro-me de uma subida cheia de barro para os lados de Alter do Chão onde havia motos enterradas até ao guiador e motards que pareciam bonecos de neve mas em lama. Ganharam os irmãos Almeida em UMM Turbo.

Os carros nacionais, então mais evoluídos, com motores V6 a gasolina, venceram pela última vez em 1991, numa corrida épica, disputada ao segundo com uma velha glória dos ralis: Santinho Mendes, tendo a dupla Carlos Almeida/Nuno Rodrigues da Silva levado a melhor.

Lama a valer voltou a haver em 1997, com um prólogo que só um terço dos carros conseguiu cumprir. Foi o meu ano de glória: depois de um voo alucinante por cima de toda a lama fiquei em 40º no dito prólogo, à frente de adversários que guiavam mais a dormir que eu acordado mas a lama às vezes faz das suas…

Em 2003 outro golpe de teatro: a Rui Sousa e Carlos Silva em Isuzu bastava chegar ao fim num lugar mediano para serem campeões nacionais mas um despiste seguido de atascanço, perto do Gavião, deu a vitória a Miguel Barbosa. 2004 trouxe o primeiro piloto estrangeiro vitorioso em Portalegre. E que piloto! Nem mais nem menos que Colin MacRae…

Do lote de vencedores avulta um nome, o piloto nortenho Filipe Vieira Campos que chegou ao lugar cimeiro do pódio nada menos de cinco vezes. Ironia desta corrida, o mais conhecido internacionalmente dos pilotos lusos, Carlos Sousa, nunca aqui venceu.