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A “síndrome” Fernando Mamede: o efeito perverso da pressão positiva

Ana Bispo Ramires

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A recente entrevista de Fernando Mamede à Tribuna (leia AQUI) ativou, certamente, na memória de todos os portugueses, alguns serões passados no café ou em casa com a família à volta da televisão, na expectativa de ver mais uma prova dos atletas nacionais.

Cresci com este fenómeno e com a noção de que estes homens e mulheres (Fernando Mamede, Carlos Lopes, Rosa Mota, Aurora Cunha, Fernanda Ribeiro, entre tantos outros) colocavam Portugal "no mapa" do desporto internacional.

Durante o curso, e maioritariamente na minha especialização em Psicologia do Desporto, o "caso Fernando Mamede" foi muitas vezes abordado para ser explorado de um ponto de vista meramente hipotético – uma vez que não tínhamos acesso aos dados do próprio.

Mamede foi, antes de tudo, e apesar de nunca ter trazido uma medalha "para casa" (excepto em crosse), um atleta de desempenhos excecionais que viria a inspirar gerações futuras a apostar na modalidade – aliás, este é sem dúvida um dos impactos mais importantes dos nossos atletas... inspiram-nos mostrando que "é possível", ajudando a resgatar uma "baixa autoestima" que nos é característica (aprofundarei oportunamente este tema, dada a sua complexidade).

A aparente facilidade e simplicidade (só "aparente" porque nenhum atleta faz o seu percurso sem uma enorme capacidade de trabalho e sacrifício) com que, de forma quase "inesperada", tinha desempenhos excecionais (ex: recorde da Europa), fez uma nação acreditar (e "querer") que o seu desempenho fosse cada vez mais consistente e cada vez melhor.

Mamede teria todas as condições para que assim sucedesse. Todas as condições fisiológicas e técnicas.

Mamede é, tão somente, o caso com mais visibilidade de como os aspetos psico-emocionais são, muitas vezes, determinantes na capacidade de um atleta manifestar, de forma consistente, todo o seu potencial. A história desportiva tem muitíssimos mais exemplos e, em todas as outras áreas da sociedade... existem muitos mais.

Pessoas que, dando indicadores claros (pontuais) da excelência que transportam dentro, tarde ou nunca a conseguem confirmar.

O trajeto de Mamede contemplará, certamente, pormenores riquíssimos que nos ajudariam a compreender com maior rigor o que teria condicionado a performance deste atleta.

As variáveis a considerar são diversas e, por isso mesmo (e por desconhecer por completo o atleta), irei debruçar-me apenas numa das possíveis hipóteses: o efeito "perverso" da pressão positiva.

As qualidades "inatas" ou uma quase "predestinação" do atleta para a prática da modalidade terão sido, desde muito cedo, "diagnosticadas" por Moniz Pereira, pois, certamente que um treinador com a sua experiência teria um "faro cirúrgico" para identificar atletas com tais características.

Possivelmente, e igualmente desde cedo, Mamede terá alcançado indicadores de treino que fizeram acreditar, treinador e atleta, que desempenhos superiores surgiriam.

Tiago Miranda

Os desempenhos em provas não medalhadas e nas eliminatórias das provas medalhadas contribuíram fortemente para que se gerasse uma fortíssima expectativa de resultado.

E, de repente, toda esta envolvência positiva, de um treinador que acredita, de um atleta que sabe que tem condições para o fazer e de um país que confia... resultam num imenso lastro, num peso de toneladas e no medo avassalador de defraudar expectativas de tudo e todos...

Esta é apenas uma hipótese, entre tantas outras... porque ter nos ombros a confiança de tudo e todos de que "somos capazes" diz-nos, então, que se fracassarmos vamos, de igual forma, dececionar tudo e todos... família, amigos, apoiantes, a nós próprios e a um país.

Efetivamente, tal como o atleta refere, à data havia um desconhecimento profundo em Portugal sobre a área da Psicologia do Desporto, e o seu treinador receava interferências no processo de treino (e com razão, pois um psicólogo "mal preparado" poderia impactar negativamente no processo de treino... caso não fosse especializado na área ou não corroborasse uma das diretrizes máximas de quem anda no terreno: o treinador lidera todo o processo de treino... nós podemos apenas, e como qualquer outro "consultor especialista", aconselhar), à data ele próprio desconhecia o que podia ser feito e que benefícios retirar da integração desta área de treino (até porque recorreu apenas em "crise" e não numa perspectiva integrada de treino)...

E, por esta razão, a não solução deste "caso", à data, torna-se quase "aceitável"...

Curiosamente, à data de hoje, passadas quatro décadas, ainda há, em Portugal, um desconhecimento profundo do contributo da Psicologia do Desporto para a performance e bem estar do atleta...

Tal como há, um desconhecimento profundo em muitas outras áreas de performance.

A Psicologia do Desporto está a fazer um percurso lento mas a enraizar-se de forma sólida, graças ao contributo de tantos colegas (como é o caso do Prof Paula Brito, um dos pioneiros) ao longo das últimas décadas.

Está a fazer um percurso, aliás, similar aos especialistas em preparação física (iniciado há mais tempo) e a tantas outras áreas que, mais cedo ou mais tarde, demonstrarão de forma inequívoca como podem contribuir para "aquele bocadinho" que vai fazer toda a diferença (como é o caso da Nutrição de Alto Rendimento).

Será certamente uma questão de tempo – internacionalmente, começa a ser francamente bem visto e como um elemento diferenciador... quase uma "moda" (com tudo o que isso terá de bom e mau associado...) atletas e treinadores integrarem na sua equipa de "consultores", especialistas na área da Psicologia do Desporto/Performance.

E, como em todas as outras áreas, também aqui a responsabilidade desta mesma "evolução" encontra-se sob a alçada de todos os intervenientes:

* Dos psicólogos que, querendo trabalhar em alto rendimento, devem olhar para si próprios com o mesmo nível de exigência que existe no meio, seja do ponto de vista da sua evolução técnico-científica, seja do ponto de vista de uma conduta eticamente responsável;

* De atletas e treinadores que, ao investirem fortemente na sua formação, identificarão precocemente que devem estar atentos a todas as áreas que suportarão de forma consolidada o seu desempenho;

* Clubes e federações que devem ser os primeiros a passar uma mensagem forte de que suportam os seus atletas e treinadores nas principais áreas associadas ao alto rendimento desportivo.

Estamos no caminho... é a RESPONSABILIDADE e de CADA UM DE NÓS... "acelerar o passo"!

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e vida, de uma forma geral).