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A tolerância ao erro e a motivação para evitar o fracasso

Ana Bispo Ramires

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As raízes que justificarão a enormíssima dificuldade que a nossa cultura tem em lidar com o erro serão, certamente, de origem multivariada.

Recordamos certamente com muita facilidade, dos nossos primeiros ensaios na primária, quando nos era pedido um ditado (do orgulho ou “vergonha” com que chegávamos a casa para mostrar o mesmo aos nossos pais). Quase invariavelmente, a nossa ansiedade subia quando olhávamos para o que aparecia escrito a vermelho no canto superior direito: o número de erros que acabáramos de cometer.

O nosso desempenho era avaliado à medida que esse "número vermelho" ia diminuindo.

Curiosamente, não me recordo uma única vez, de ter tido a noção do meu "número de acertos" - o que não deixa de ser interessante, pois, passar de um erro em 50 palavras para dois erros em 150, de forma imediata pode ser percecionado como uma regressão quando, na realidade, é uma melhoria da performance do aluno - relativamente ao número global de palavras.

Enfim, este é apenas um pequeno exemplo de como, desde uma forma muito precoce, começamos a "instalar" no nosso cérebro (como se se tratasse de uma programação!), reatividade negativa ao erro e, consequentemente, à exposição pública (em grupo de pares) que dele advém.

A este exemplo, juntam-se milhares de outras "moedinhas" que vão contribuindo para um único "mealheiro": ERRAR É MAU (porque, na nossa cabeça, passa a ser associado a "vergonha" e incompetência)... Consequentemente, em vez de nos "treinarmos" numa lógica de superação (entenda-se, MOTIVAÇÃO PARA O SUCESSO), acabamos por nos treinar, ainda que de uma de forma inconsciente e inadvertida (mas ainda assim, continua a ser "treino"), em MOTIVAÇÃO para EVITAR O FRACASSO.

A lição de Michael Jordan, ex-basquetebolista: “Errei mais de nove mil lançamentos e perdi quase 300 jogos. Em 26 finais de partidas fui encarregado de lançar a bola que venceria... e falhei. Tenho uma história repleta de falhas e fracassos. E é exatamente por isso que sou um sucesso”

A lição de Michael Jordan, ex-basquetebolista: “Errei mais de nove mil lançamentos e perdi quase 300 jogos. Em 26 finais de partidas fui encarregado de lançar a bola que venceria... e falhei. Tenho uma história repleta de falhas e fracassos. E é exatamente por isso que sou um sucesso”

JEFF HAYNES/Getty

A cultura desportiva, artística e até empresarial acaba por, na sua grande maioria (felizmente, vão existindo cada vez mais casos de "exceção") reforçar toda esta perceção de "evitar" o erro, o que vai levando as pessoas a, cada vez mais... tentarem/arriscarem menos, ou só quando sentem que a probabilidade de acerto/sucesso é quase 100% garantida... Também é responsável pela desistência de algo, após os primeiros insucessos.

Assim têm sido comprovado nos (milhares de) estudos que têm sido desenvolvidos na área da comunicação, mais especificamente na perceção do feedback que recebemos, onde aparece claramente destacado o feedback negativo, seguido da ausência de feedback e, mais raramente, o feedback positivo/construtivo.

(Se quiser "testar" estes resultados, faça o seguinte exercício: pegue numa folha branca e, durante uma semana assinale de um lado - apenas com um "pauzinho" - os feedbacks positivos/construtivos que vai dando a um filho/amigo/marido/colaborador/etc. e, do outro lado, assinale os feedbacks negativos ou a ausência... observará, certamente, resultados "curiosos").

Exemplificando, muito mais frequentemente se ouve um "Está Errado/mal feito/Não tens capacidade" ou a ausência total de feedback (mesmo quando se faz bem - "dizem" que é "suposto"... e até nós próprios acreditamos) do que um "boa, fizeste isto e isto bem.. neste outro ponto, tenta fazer da forma A ou B... mas, continua porque chegas lá!"

Pois, o problema é que, se não formos desenvolvendo estratégias para aprender a lidar com o erro, deixamos de tentar e, SE DEIXAMOS DE TENTAR... DEIXAMOS DE EVOLUIR.

Deixamos de tentar mantermo-nos numa modalidade de que gostamos, de tocar o instrumento que escolhemos... de acabar o curso em que nos inscrevemos ou de nos manter na relação que iniciámos.

Deixamos de tentar. E, sim, isto é um problema.

Efetivamente, estamos assentes numa "cultura" que exalta o erro... mas deveríamos, todos nós, aceitar essa mesma "herança" (e temos muitas outras... umas que ajudam e outras que "nos atrasam") com o DESAFIO de mudar a polaridade do afeto:

SAIRMOS DO REGISTO DO MEDO PARA PASSARMOS E PASSAR PARA O REGISTO DO DESAFIO.

Há muitos, muitos anos tive o privilégio de ter uma aula com um "Sr." da área da Psicologia do Desporto, Dr. John Hogg (que em 2015 viria a ganhar o Geoff Gowan Award, por um percurso de vida de inúmeras contribuições para o desenvolvimento do coaching no Canadá), que me ensinou algo para a vida (como pessoa e psicóloga):

- "Sabem, medo e desafio são os extremos opostos da mesma emoção... e o segredo é: como mudar esta polaridade?"

O DESAFIO que temos à nossa frente é esse mesmo e, curiosamente, encontra-se ESPELHADO na vida e carreira de tantos ATLETAS e outros PERFORMERS DE SUCESSO:

Tentar, tentar, tentar e tentar (numa perspetiva de treino!) e usar o erro como fonte de informação, alavanca de crescimento, como forma de DESAFIO e mudança do paradigma da nossa motivação:

OU SEJA, APRENDER A DIRECIONÁ-LO PARA O (SEU) SUCESSO!