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O treinador enquanto atleta de alta performance

Ana Bispo Ramires

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O contexto desportivo tem sido, ao longo dos últimos anos, um verdadeiro “berçário” de líderes de alto nível.

Scolari, Mourinho, Guardiola, Simeone, entre tantos outros (e para todos os gostos!) têm feito as delícias de todos os interessados nos processos de liderança.

De tal forma que as obras biográficas que resultam do nível de êxito que atingem acabam por suscitar a curiosidade de quem se dirige às livrarias, para poder aceder a todos os segredos sobre o processo de liderança que exercem.

Diego Simeone chegou mesmo a tornar-se num case study na Universidade de Harvard, sendo a sua metodologia fortemente recomendada a pequenas e médias empresas que pretendam afirmar-se no mercado das empresas de um segmento superior.

Mas o que distingue estes homens dos demais?

Diego Simeone treina o Atlético de Madrid

Diego Simeone treina o Atlético de Madrid

David Ramos/Getty

Para além da sua elevadíssima expertise em processos de jogo, o que, possivelmente, não os diferenciaria de muitos outros que, com este mesmo domínio, acabam por não ter sucesso a níveis tão elevados, são efetivamente exímios quer no que respeita a processos de auto-regulação energética (psico-emocional), quer no que refere a processos de regulação dos níveis de ativação do grupo que comandam.

Conhecedores, genuinamente, do funcionamento humano em contextos de performance (logo, conscientes do que potencia ou dificulta o seu próprio desempenho no exercício da sua função de liderança), diagnosticam como ninguém as necessidades que a sua equipa tem, no que respeita a manterem, de forma consistente, os níveis de desafio e intensidade necessários a um desempenho de excelência ao longo de 90 minutos.

Curiosamente, há uns anos, um treinador de alto rendimento (no caso, de outra modalidade), chamou-me e solicitou ajuda no que respeita à identificação dos critérios que ele próprio ia utilizando quando recrutava um atleta para a sua equipa. Sabia que o fazia bem, mas por trás do que considerava "faro", sabia que estariam alguns critérios que não conseguia identificar racionalmente...

A isto poderíamos chamar "conhecimento inconsciente". Por outras palavras, ao longo dos anos, este profissional aprendeu a identificar os indicadores certos... sem saber que ia criando uma ferramenta exímia de avaliação de competências.

Frequentemente, a Psicologia do Desporto/Performance, dedica o seu tempo a fazer isto mesmo: estudar os casos de sucesso ao pormenor, por forma a conseguir identificar denominadores comuns, no que respeita às competências e comportamentos que, elicitadas(os) de uma dada forma, acabam por ser um bom indicador de sucesso.

Neste enquadramento, aquilo que os estudos nos têm apontado é que estas pessoas, para além de um domínio elevado no que respeita a conhecimento técnico-táctico (que transportam para a criação de processos de jogo muito eficientes), e de naturais competências de comunicação, acabam por partilhar com os atletas um conjunto de competências essenciais à manifestação de uma performance, consistentemente, de alto nível.

Falamos de competências como gestão de stress e ansiedade, resistência à frustração, elevada motivação intrínseca, capacidade de manter a atenção de forma sustentada a todos os aspetos do jogo (concentração), entre muitas outras.

Contudo, o que os caracteriza, muito frequentemente, é a sua capacidade se se mostrarem "envolvidos e envolventes" ou, por outras palavras, através do seu próprio compromisso com a missão do grupo, acabarem por contaminar a generalidade dos atletas, que se dedicam a seguir o que estes líderes determinam. São, genericamente, sujeitos com níveis elevados de inteligência emocional (QE).

Phil Jackson (à direita) foi treinador dos Lakers de Kobe Bryant

Phil Jackson (à direita) foi treinador dos Lakers de Kobe Bryant

Jonathan Ferrey/Getty

Tal como o estudo aprofundado dos fatores de sucesso dos atletas, acabou por resultar numa enorme evolução da capacidade de intervenção da Psicologia que, através do conhecimento adquirido acerca das competências diferenciadoras, desenvolveu processos de treino e métodos eficazes para, de forma sistematizada, poder replicar e potenciar a existência destas mesmas competências em grupos de atletas mais alargados, acredito que este também será o caminho, no que respeita ao estudo dos treinadores de sucesso.

Tal como no domínio dos atletas, o desenvolvimento aprofundado das competências de performance de um treinador elevarão, de forma inequívoca, o seu rendimento e, por esta razão, acredito que muito rapidamente será mais frequentemente do domínio publico (porque alguns casos já vão sendo conhecidos, como por exemplo, a parceria Scolari-Regina Brandão), as parcerias que se vão estabelecendo entre treinadores e psicólogos.

Curiosamente, há muitos anos a esta parte, num clinic de basquetebol profissional, o próprio Prof. Jorge Araújo referia que, nos clubes em que estava, se não havia recursos económicos para a contratação de 2 psicólogos (um para si e outro para a equipa), então, o psicólogo ficaria sempre a trabalhar com ele.

Então, se trabalham com atletas de alta performance, com quem a Psicologia já vai desenvolvendo algum trabalho, talvez já esteja na hora que os próprios treinadores exijam para si próprios a introdução de "ferramentas" que elevem o seu próprio padrão de desempenho!

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e Vida, de uma forma geral).