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Nicolau Santos

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Jorge Jesus vai nu – e alguém tem de o dizer

O diretor adjunto do Expresso escreve sobre o momento leonino após a eliminação sportinguista das competições europeias

Nicolau Santos

Denis Doyle

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Jorge Jesus é o melhor treinador que o Sporting poderia ter nesta fase que o clube atravessa. Ele consegue tirar leite das pedras e fazer de um jogador mediano um grande craque. Mas Jesus tem a mania que faz milagres, presumivelmente inspirado por um outro que viveu há dois mil anos. E sempre que vai à caixinha dos milagres, a coisa corre mal. Por outras palavras, na Champions é Jesus o responsável por três das derrotas do Sporting e é preciso dizê-lo com frontalidade.

Explico-me. No jogo contra o Real, em Madrid, o Sporting ganhava por 1-0 aos 85 minutos, depois de fazer uma exibição soberba, que meteu os merengues no bolso. Jesus já tinha sido expulso, coisa que acontece com demasiada regularidade para ser atribuível a uma má compreensão por parte dos árbitros do que os treinadores podem fazer ou dizer quando estão na sua área técnica. É talvez mais provável que seja Jesus que ainda não percebeu até onde pode ir nesse espaço destinado aos treinadores.

Mas adiante. Expulso aos 58 minutos de jogo, Jesus, por interposto Raul José, que tem sempre aquele ar infelicíssimo de quem sabe que nunca lhe acontecerá nada de bom na vida, mandou tirar o Gelson Martins que estava a dar cabo da cabeça ao Marcelo para meter o Lazar Markovic (aos 69 minutos). Consequência: o Real, que estava encostado às cordas, libertou-se e encurralou o Sporting no seu meio-campo, até porque o Markovic, em quem Jesus continua a depositar inúmeras esperanças, também continua a mostrar de forma consistente que não acrescenta nada, mas mesmo nada , à equipa do Sporting. E assim de equipa que controlava o jogo, o Sporting passou de imediato a ser uma equipa que passou a defender-se no seu meio campo, sem capacidade para incomodar a defesa madrilista.

A soberba é má conselheira. E por isso, aos 73 minutos, Jesus, que continua a ganhar, manda substituir Adrien por Elias (que está muitíssimo longe de ter as caraterísticas do capitão do Sporting e já tinha sido infeliz na sua primeira passagem pelo clube). Confirmou-se. Aos 89 minutos faz a falta que Ronaldo transforma no empate.

Mesmo assim, o tempo corre a favor do Sporting e um empate em Madrid para a Champions não seria nada mau. Cinco minutos de descontos. E Jesus, por interposto Raul José, em vez de meter um defesa para segurar o resultado, dá outra prova de soberba: tira o Bryan Ruiz e mete o Joel Campbell que, da maneira como o jogo estava, não iria fazer nada. Não fez. Mas assistiu, aos 90 mais 4 minutos, a uma bola perdida por João Pereira no lado direito da defesa leonino, centro e Álvaro Morata de cabeça faz o 2-1 para o Real.

Conclusão: o Sporting fez uma enorme exibição, cujo mérito tem de ser atribuído por inteiro a Jorge Jesus. Mas há uma segunda conclusão: o Sporting perdeu este jogo devido à soberba de Jorge Jesus e às erradíssimas substituições que fez por jogadores que ele próprio pediu para contratar. E a cereja em cima do bolo foi dizer que se estivesse no banco, o Sporting não teria perdido o encontro – o que foi de uma enorme elegância para com Raúl José (se calhar é por causa disso que ele tem aquela cara de quem está sempre a sofrer…) e também confirmou o ditado “falar antes de tempo”. É que de seguida o Sporting só ganhou um jogo (ao Legia, em casa) e perdeu os outros quatro. E em três deles Jesus estava no banco.

Vamos ao jogo contra o Borrusia Dortmund em Alvalade. O Sporting precisava de pontuar. Jesus mete Elias no meio-campo, por lesão de Adrien, e insiste em Markovic, em vez de optar por Bruno César. E o que acontece? O Sporting é completamente dominado nos primeiros 45 minutos. O meio-campo alemão manda de forma clara no jogo. Weigl, o cérebro da equipa alemã, recebe vezes sem conta a bola completamente sozinho e só com os dois centrais do Sporting pela frente. Aos 10 minutos já perdíamos por 1-0, aos 43 Weigl, esse mesmo, que andou sempre sem marcação no primeiro tempo, faz o 2-0.

É claro que Jesus teve de emendar a mão. Aos 60 faz entrar Bruno César para o lugar de Elias e aos 64 sai Markovic para ceder a posição a Campbell. O Sporting melhora, aos 67 Bruno César reduz para 1-2 mas o forcing final não é suficiente. O Sporting deu meia parte aos alemães e foi penalizado por isso. Conclusão. O Sporting perdeu por erros na formação da equipa. E quem fez a equipa foi Jorge Jesus.

E vamos para o jogo de ontem com o Legia. O Sporting precisava de empatar. Os dois defesas direitos tradicionais não estavam disponíveis. Mas havia o Ricardo Esgaio. Jesus opta por meter Paulo Oliveira à direita em vez de Esgaio. À esquerda mantém Zeegelaar que continua a não mostrar que seja melhor que Jefferson a defender e é seguramente pior que ele a atacar, a cruzar e a marcar livres. Mas Jesus não gosta de Jefferson, está desejoso de o despachar e aposta sempre em Zeegelaar. Jesus fez outra inovação. Colocou Bruno César a jogar à frente de Paulo Oliveira, como uma espécie de lateral/ala direito, ele que por acaso é esquerdino. E colocou Gelson e Markovic como interiores. Um confusão táctica e estratégica. E o que se viu ontem? Zeegelaar passado em velocidade (acontece muito em todos os jogos…) por Prijovic, centro para a área e o brasileiro Guilherme a antecipar-se a (quem havia de ser?) Paulo Oliveira.

Pelo caminho, Jesus lá emendou a mão, depois de dar outra vez cerca de 60 minutos de avanço ao adversário. Fez entrar Esgaio (pois estava-se mesmo a ver, não é?), Gelson passou a ser o que é – extremo-direito, Markovic, como de costume, não acrescentou nada e foi substituído aos 58 minutos por Bryan Ruiz e, já em desespero, tirou aos 69 minutos Zeegelaar para meter André – que falhou dois golos em que o mais difícil pareceu isso mesmo: falhá-los.

Tudo somado (e não vou falar com a derrota por 3-1 com o Rio Ave, em que também Jesus é culpadíssimo, ao colocar Bruno César como defesa-esquerdo, insistindo em não meter Jefferson), Jesus recuperou o orgulho dos sportinguistas, colocou a equipa a jogar de uma forma sólida e consistente mas é também ele, pela sua insistência em certos jogadores que pediu para serem comprados ou pela definição de esquemas tácticos arrevesados com jogadores fora dos seus lugares, que é o principal e exclusivo responsável pelas várias derrotas que o Sporting sofreu este ano. E em todas, mas todas – tirando os últimos 20 minutos contra o Real Madrid na capital espanhola – Jesus esteve sempre no banco.

É por isso que alguém tem de dizer que Jesus vai nu. É muito bom mas também se farta de errar. E o problema para o Sporting é que, quando ele erra, a equipa perde.

Esperemos agora por domingo. Com a secreta esperança que Jesus não invente, não meta o Markovic, que substitua o Zeegelaar pelo Jefferson e coloque o André em campo para fazer companhia ao Bas Dost já que não há Campbell. Se assim for, o Sporting ganhará na Luz. Se não, um empate já será o mal menor. Carrega, Sporting!

PS – Uma última nota: depois da derrota de ontem, Jesus já não tem mais oportunidades. Ou ganha a Liga este ano (e de preferência também a Taça de Portugal e a Taça da Liga) ou pode começar a pensar em ir fazer milagres para o FC Porto. É que por Alvalade os seus dotes do treinador que tem o toque de Midasnão há meio de se traduzirem em títulos.