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Bola de Ouro: ser o “número 1” é sempre ser o mais solitário... e o mais determinado

Ana Bispo Ramires

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Seja uma "bola de ouro", um pódio num Campeonato da Europa, um Campeonato do Mundo ou Jogos Olímpicos, o(a) atleta (ou equipa) que atinge o "número um" do ranking encontra-se, invariavelmente, na posição mais desejada pelos seus pares, independentemente da idade que possam ter - uma vez que acabam por servir de modelos inspiradores para as camadas mais jovens.

Um prémio desta natureza traduz quase sempre não uma época mas sim toda uma longa vida, anos e anos investidos, dia após dia, numa causa única: a superação dos limites da sua performance, a cada prova que passa.

A supremacia que atletas como o Cristiano Ronaldo ou o Lionel Messi evidenciam no futebol, Michael Jordan ou Kobe Bryant no basquetebol ou o eterno Sergei Bubka, que dominou por completo uma década inteira no salto à vara, batendo 35 vezes o seu próprio record, representa, ainda assim, uma percentagem reduzida de atletas de alta competição que conseguem manter performances consistentemente de alto nível ou de constante superação.

Poderiam ser aqui discutidas questões como o elevadíssimo nível de competitividade existente ou os avanços tecnológicos que tem tornado cada desporto cada vez mais uma ciência precisa mas, há efetivamente, uma variável psicológica que, estudo após estudo, tem demonstrado ser um denominador comum em todos estes atletas:

RESILIÊNCIA MENTAL (do inglês: "Mental Toughness")

Na prática, trata-se de um "casamento feliz" entre a capacidade de um indivíduo em, face à adversidade, focar-se em superação e a sua confiança de que será bem sucedido.

Parece simples, certo? Nem por isso.

A investigação que tem sido desenvolvida na área dos fatores que podem predizer o sucesso, apontam, recorrentemente, esta variável (que, curiosamente, pode ser um traço de personalidade mas, em simultâneo, uma competência a ser treinada) como um dos principais fatores responsáveis pelo sucesso que possa ser alcançado no contexto académico, desportivo e empresarial.

Sabemos, por isso, que a grande maioria dos atletas que evidencia sucesso na sua carreira, acaba por ter esta componente mais desenvolvida.

GERARD JULIEN/GETTY

Esta capacidade de Resiliência Mental, torna-se especialmente necessária quando, efetivamente, estamos no "número um" de qualquer modalidade pois, a partir desse momento, e mesmo que não tenha sido esse o nosso quadro de referência anterior... o nosso principal "adversário" passamos a ser... nós mesmos!

Por outras palavras, podemos passar alguns anos a querer desenvolver a competência "a" ou "b" para sermos tão bons ou melhores que um qualquer adversário direto mas, de repente... quando somos o "número um", deixamos de "ter adversários" (que na realidade, "nunca" tivemos... mas, este tema, daria um outro artigo...) e, muito frequentemente, passamos a "ser" o adversário de todos...

Esta realidade pode ser verdadeiramente desconcertante (porque nos "isola" de tudo e de todos) e é, claramente, o "outro lado" de estarmos num pódio.

Estamos no topo, já batemos todos os recordes, olhamos para "cima" e não identificamos ninguém... olhamos para "baixo" e observamos um sem número de pessoas que gostaria de estar no nosso lugar (ou, pelo menos, no lugar que percepcionam como "sucesso" pois, maioritariamente, desconhecem o esforço que é preciso dispender para lá chegar e lá nos mantermos)...

O que nos faz mexer então? O que nos mobiliza? O que nos faz acordar ir treinar mais uma vez, separarmo-nos da família e amigos vezes sem conta?

Não são, efetivamente, raros os casos que, depois de terem chegado ao topo, caíram num profundo burnout emocional (um dos quais, já tive oportunidade de aqui abordar - michael phelps), pelo que, os casos de sucesso contínuo (o caso de Bubka, já citado, por exemplo), levantam a curiosidade geral.

Tratam-se de Atletas (e/ou outros performers, o "drive" é o mesmo) que possuem uma Motivação Intrínseca elevadíssima, que aprenderam a associar o esforço imediato ao enorme prazer do resultado obtido a médio/longo prazo.

Atletas que, incansavelmente, vão atrás "de mais aquele 1%" que faz toda a diferença na alta competição (na Vida, diga-se de passagem), que são curiosos e procuram integrar novos conhecimentos que os possam ajudar a evoluir e que são, acima de tudo, muito curiosos em integrar todo o tipo de informação (técnica, tática, emocional, fisiológica) que os possam ajudar a correr mais rápido, saltar mais alto, ir mais longe...

Atletas que se relacionam com a sua modalidade, como costumo referir metaforicamente, com "fome"... "fome de Vida"...

... ou não fosse esta a SUPREMA FORMA de Motivação.

A Psicologia da Performance encontra-se especificamente direcionada para o delineamento de planos específicos de treino de competências psicológicas, para a promoção de desempenhos de excelência, através da elevação das capacidades psico-emocionais e físicas dos sujeitos, em contextos de superação (desportivo, académico, empresarial e Vida, de uma forma geral).