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Nicolau Santos

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Diretor-Adjunto

O Sporting não é isto. E podemos fazer a dobradinha

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O Sporting mandou regressar André Geraldes e Ryan Gauld a Alvalade, jogadores que estavam emprestados ao Vitória de Setúbal, no dia imediatamente a seguir a ter perdido na cidade do Sado para a Taça da Liga, sendo afastado das meias-finais. Ora se em política o que parece é, no desporto acontece exatamente o mesmo.

Se o Sporting queria os dois jogadores de volta porque necessita deles para a 2ª volta da Liga devia ter avisado o Vitória de Setúbal antes do jogo de quarta-feira. Depois do que aconteceu, então seria do mais elementar bom senso não o fazer de imediato, para que a decisão não surgisse como uma retaliação ao Vitória de Setúbal, que não tem culpa nenhuma do Sporting ter falhado dois golos escandalosos, de ter permitido um golo na recarga a um canto e do árbitro ter marcado um penálti a favor dos sadinos aos 94 minutos. Assim, é a imagem do Sporting que sai muita maltratada desta decisão. E isso é inaceitável para um clube que reclama para si ser diferente dos outros.

Tão importante como saber ganhar, é saber perder. E o Sporting não soube perder na quarta-feira perante o Vitória de Setúbal. O Sporting pode e deve queixar-se de uma arbitragem miseravelmente incompetente. Pode e deve queixar-se de pelo menos dois cantos escamoteados, de um fora de jogo mal tirado que daria golo, de outro também errado e do escandaloso penálti que o árbitro, por indicação do fiscal de linha, marcou ao minuto 94.

Tudo isso é verdade. Mas quando começamos a olhar demasiado para os erros dos árbitros esquecemos os nossos próprios erros. E eles começaram com a construção da equipa para esta segunda época de Jorge Jesus em Alvalade. Da montanha de reforços que aterrou em Alvalade só dois pegaram: Bas Dost (que é bom mas não faz esquecer Slimani) e Campbell, que não é a última Coca-Cola no deserto nem faz a diferença mas é um bom jogador, útil em certos jogos e situações.

Quanto ao resto, foram flops atrás de flops, com Markovic à cabeça, logo seguido por Elias, Lukas Spalvis (que não sabemos o que vale), Alan Ruiz, Marcelo Meli, André Souza, Lucas Castaignos, Petrovic… Temos ainda decisões muito discutíveis: Douglas é melhor que Paulo Oliveira? Matheus Pereira não tem lugar nesta equipa? Bryan Ruiz já fez esta época algum jogo em que não andasse a dez à hora ou que marcasse algum golo?

Aliás, só se fala nos árbitros quando não marcamos. E a dura realidade é que o Sporting manifesta, desde há alguns meses, uma enorme incapacidade para marcar golos. E é esse o nosso problema, não os árbitros. Porque se por cada erro de um árbitro nós tivermos entretanto marcado três ou quatro golos, não há quem nos consiga derrotar.

Na defesa estamos melhor mas o primeiro golo do Setúbal é inadmissível. Um canto, Frederico Venâncio ganha ao seu opositor, remata de cabeça ao poste, ninguém reage, e o mesmo jogador remata para o fundo das redes perante o desamparado Beto. Passividade total. Jefferson não reagiu. Mas também depois de passar a época com Jesus a tirar-lhe confiança e a meter no seu lugar Martin Zeegelaar não se pode pedir-lhe que esteja a 100%.

Mas há mais. Este foi o segundo jogo da época em que o Sporting só precisava de empatar para seguir em frente. O primeiro foi com o Legia para a Liga Europa. E nesse, como no de quarta-feira, a mensagem que Jesus passou foi de “vamos jogar com alguns reservistas porque chega para empatar”. Não chegou em Legia, não chegou em Setúbal. E quando tentou compor as coisas não foi a tempo em Varsóvia, nem deu para segurar o empate em Setúbal.

Resumindo e concatenando, mais que dos árbitros, o Sporting precisa em primeiro lugar de olhar para dentro, fazer o seu mea culpa, com Jesus à cabeça, refazer o plantel com jogadores da casa (mas chamando-os por necessidade e não para retaliar) e apostar as fichas todas na Liga e na Taça de Portugal, que é o que nos resta esta época. Nada está perdido, apesar dos inúmeros escolhos que temos pela frente. E a partir de agora, não há jogos que são menos importantes: todos são decisivos e todos são para ganhar. Para isso, é necessário que não haja mais experiências. Os onze que entram de início têm de ser os melhores, os que dão mais garantias, os que estão em melhores condições. E não há nenhuma razão para se invocar o cansaço para deixar este ou aquele de fora com apenas duas competições para disputar até ao final de maio.

O que há que fazer agora é cerrar os dentes, unir esforços, puxarmos todos para o mesmo lado e acreditar firmemente que podemos fazer a dobradinha se nos preocuparmos exclusivamente em marcar golos e não com os árbitros. Carrega, Sporting!